Cláudio Castro foi governador do Rio entre 2020 e 2026Reprodução
Segundo a Polícia Federal, a estrutura investigada utilizava empresas e pessoas ligadas ao grupo empresarial para custear gastos privados de Castro e ocultar patrimônio. Entre os episódios detalhados no relatório está a compra de caviar avaliada em R$ 10,5 mil, realizada em abril deste ano.
De acordo com os investigadores, Castro negociou pessoalmente a aquisição de diferentes tipos do produto com uma empresa especializada de São Paulo. Em mensagens obtidas pela PF, o então governador solicitou a entrega de parte da encomenda no Hotel Emiliano, onde estava hospedado. Embora tenha informado ao fornecedor que enviaria o comprovante do pagamento via Pix, a análise bancária apontou que a transferência foi feita por uma empresa pertencente ao advogado Antonio Carlos da Conceição Santos, conhecido como "Pipo", apontado pela investigação como operador financeiro do esquema.
Para a PF, o episódio é um dos indícios de que terceiros ligados à estrutura investigada eram utilizados para quitar despesas particulares do ex-governador.
Mansão em Petrópolis
Outro ponto destacado na decisão envolve uma residência de luxo localizada no condomínio Villa Locanda Residenze, em Petrópolis, na Região Serrana. Embora o imóvel esteja registrado em nome da empresa Concrecasa Construções Inteligentes Ltda., os investigadores afirmam que Castro exercia a posse de fato da propriedade.
Segundo a PF, mensagens extraídas de aparelhos apreendidos mostram o ex-governador acompanhando obras, tratando da segurança do local e recebendo contas de energia elétrica relacionadas à residência. Os investigadores também mencionam um projeto de adega climatizada orçado em R$ 245 mil. O documento cita que os metadados do arquivo do projeto continham a identificação "AP Adega Claudio Castro".
A investigação aponta ainda que a administradora da empresa proprietária do imóvel possui vínculos com o empresário Luiz Fernando Gomes. Uma das empresas ligadas a ele, a Enge Prat Engenharia e Serviços, firmou contratos que somam R$ 355,2 milhões com o Governo do Estado durante a gestão de Castro, sendo R$ 49,6 milhões sem licitação.
Cobertura na Barra
A Polícia Federal também analisa a cobertura onde Castro reside, localizada no Condomínio Atmosfera, na Barra da Tijuca. O contrato prevê aluguel mensal de R$ 10 mil, pago à empresa J3 Real Estate Participações Ltda.
Segundo estimativas da PF, imóveis semelhantes na região possuem valor de locação entre R$ 25 mil e R$ 29 mil por mês. Os investigadores trabalham com a hipótese de que a diferença entre o preço praticado e o valor de mercado possa configurar uma vantagem econômica indevida.
A empresa proprietária do imóvel também chamou a atenção dos investigadores. Conforme o relatório, a J3 Real Estate foi criada apenas 50 dias antes da compra da cobertura, adquirida por R$ 3,48 milhões, e possui o imóvel como único ativo registrado.
Mensagens obtidas pela PF indicariam ainda que Castro e sua esposa, Analine Castro, participaram de decisões relacionadas às obras realizadas no apartamento antes da mudança, incluindo intervenções na área da piscina.
Relação com a Refit
O relatório da Operação Sem Refino 2 também detalha a relação entre Cláudio Castro e o empresário Ricardo Magro, controlador da Refit e atualmente foragido. Segundo a investigação, mensagens encontradas em celulares apreendidos demonstram proximidade entre os dois.
Em uma das conversas reproduzidas no documento, Castro teria dito a Magro: "Aqui você tem um amigo". Em outro diálogo, relacionado a questões envolvendo a refinaria, o então governador escreveu: "Eu toco por aqui", frase interpretada pelos investigadores como indício de atuação direta em assuntos de interesse da empresa.
A Polícia Federal apura suspeitas de que órgãos estaduais tenham sido mobilizados para favorecer a Refit em processos administrativos e ambientais. A investigação envolve crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal e gestão fraudulenta.
Defesa
A defesa de Cláudio Castro negou qualquer participação em esquema de lavagem de dinheiro, recebimento de vantagens indevidas ou favorecimento ao Grupo Refit. Veja a nota na íntegra:
O imóvel onde reside tem contrato regular de locação, com pagamentos comprováveis. O imóvel utilizado em Petrópolis também era alugado e o contrato já foi encerrado.
Sobre a compra mencionada, o episódio ocorreu mais de 30 dias após Cláudio Castro deixar o Governo do Estado. A encomenda havia sido feita por um amigo e ele apenas retirou os produtos em São Paulo para entregá-los, tendo consumido um deles com autorização do comprador.
Não há qualquer ligação entre os episódios envolvendo a compra e os imóveis com a Refit. São situações distintas, sem relação com a empresa ou com eventual favorecimento.
Os contatos com representantes da Refit foram institucionais e não resultaram em qualquer benefício. Durante sua gestão, o Estado adotou medidas para cobrar valores devidos pela empresa.
Também não é verdade que uma viagem do então governador a Nova York tenha sido custeada pela Refit. A viagem foi oficial, paga pelo Governo do Estado, com registros disponíveis no Portal da Transparência.
A defesa já requereu ao ministro Alexandre de Moraes que Cláudio Castro seja ouvido pela Polícia Federal para esclarecer todos os pontos da investigação e apresentar a documentação comprobatória. O pedido aguarda decisão.
Cláudio Castro reafirma que não praticou qualquer ato ilícito."

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