O Rio não pode viver de medidas de emergência

O lockdown pode ser a última providência para contenção da pandemia à disposição do governo. A questão é: qual deve ser a prioridade depois que tudo passar?

Por O Dia

Nuno Vasconcellos: "Não adianta jogar toda a culpa pela situação nas costas do governo. Cada um de nós tem, sim, seu quinhão de responsabilidade"
Nuno Vasconcellos: "Não adianta jogar toda a culpa pela situação nas costas do governo. Cada um de nós tem, sim, seu quinhão de responsabilidade" -
O Dia das Mães deste ano — comemorado num clima muito diferente dos anteriores — não pode se reduzir, no futuro, a mais uma lembrança dos sacrifícios que estamos sendo obrigados a fazer durante a pandemia da covid-19. A começar pelo significado da data, somos levados a fazer uma reflexão sobre o valor que damos àquilo que de mais precioso nos foi dado por nossas mães: a vida. Somos obrigados, em respeito a isso, a pensar em tudo que nos cabe fazer para que, nos próximos anos, não tenhamos que passar o segundo domingo de maio distantes de quem mais desejamos abraçar.

Não adianta jogar toda a culpa pela situação nas costas do governo. Cada um de nós tem, sim, seu quinhão de responsabilidade. Uma de nossas tarefas é contribuir para que a situação não se agrave além do necessário. Já está provado por A mais B que o isolamento social reduz o ritmo de contaminação pelo coronavírus e, por consequência, impede a sobrecarga do sistema público de Saúde. Muita gente, no entanto, parece não ter entendido a necessidade de uma providência simples como essa.

PEDIDOS INSISTENTES — Tanto isso é verdade que o Ministério Público, com base num estudo da Fiocruz, recomendou ao governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que endureça as medidas para evitar o trânsito de pessoas e as aglomerações. Em áreas movimentadas — como Madureira, Campo Grande, Bangu e a Zona Oeste — deve haver uma fiscalização mais rigorosa sobre lojas, bares e outros tipos de comércio. A ordem inicial para que se mantivessem fechados não impediu que muitos estabelecimentos funcionassem normalmente.

O que o MP propõe é medida extrema. O lockdown seria a última arma do arsenal de providências a serem tomadas para a contenção da pandemia e o governador sabe do risco que corre ao propô-la num momento em que seus adversários insistem em dizer que o próprio isolamento social é um exagero e que o comércio deve voltar à normalidade. O certo é que, mesmo sob ataque dos opositores e vítima de 'fake news' que lhe atribuem intenções que ele não tem, Witzel tem feito o que pode, com os recursos que dispõe, para enfrentar a situação.

O governador chegou, inclusive, a ser criticado por muita gente quando elevou o tom e exigiu, ao invés de pedir, que todos ficassem em casa. Se tivesse sido atendido, a situação não teria chegado ao ponto que chegou. A situação é grave. Com lockdown ou sem lockdown, é preciso que se adotem providências para se evitar os riscos mais óbvios de contágio e para que se apressem a instalação dos leitos de UTI que salvarão as vidas dos doentes em estado mais grave. São medidas emergenciais. Mas o Rio não pode depender delas a cada crise. A discussão é: o que fazer para que a próxima crise não adquira as proporções da atual.

PROVIDÊNCIAS URGENTES — Ninguém deseja outra experiência como esta. O que se espera, portanto, é que, passada a crise, tenha início imediatamente a adoção de providências que resolvam os problemas críticos do Rio. A questão das moradias que não oferecem as condições adequadas para que as famílias fiquem muito tempo dentro de casa tem sido apontada como uma das razões que mais levam as pessoas a burlar o isolamento, certo? Então, deve ser a primeira a ser atacada.

Outro serviço em estado de calamidade é o saneamento — que, no Rio nada mais é do que um foco de disseminação de doenças. Que se obrigue, então, a Cedae a cumprir sua obrigação de investir nas infraestruturas capazes de melhorar as condições sanitárias do estado. Se, como estatal, a empresa não dispõe de recursos para os investimentos necessários, que seja privatizada. Já! São providências de difícil execução e é justamente por isso é que devem ser prioritárias.

A população, é claro, precisa colaborar, mas a adesão a qualquer medida propostas pelo poder público é sempre um voto de confiança dado pelo cidadão. Quanto mais o poder público merecer essa confiança, mais as pessoas acatarão as recomendações nos momentos de sacrifício. Com seus problemas básicos resolvidos, a população terá muito mais motivação para, se um dia isso voltar a ser necessário (espero que não seja), ficar em casa quando for solicitada.

Vamos refletir sobre nossa parte e feliz dia para todas as mães.
 
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Nuno Vasconcellos: "Não adianta jogar toda a culpa pela situação nas costas do governo. Cada um de nós tem, sim, seu quinhão de responsabilidade" Daniel Castelo Branco

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