Comissão conclui que CSN ajudou a repressão na ditadura

Relatório da Comissão da Verdade acusa empresa de ter demitido trabalhadores e espionado moradores

Por O Dia

Rio - A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda, contribuiu para a política de repressão na ditadura militar, perseguindo e demitindo funcionários por suas convicções ideológicas. E ainda espionou moradores que não tinham ligação direta com a empresa.

É o que conclui o relatório da Comissão da Verdade Dom Waldyr Calheiros, com 577 páginas, entregue ontem na Câmara Municipal à representantes do Centro de Memória da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Ato de entrega do relatório oficial da Comissão da Verdade lotou a Câmara de Volta RedondaFrancisco Edson Alves / Agência O Dia

O documento sugere que a empresa, torne público “milhares de páginas de espionagens de cidadãos”, da antiga Assessoria de Segurança e Informação (ASI) e do Departamento de Segurança da Usina (DSU), órgãos da CSN ligados, segundo evidências, ao SNI (Serviço Nacional de Informações).

A CSN informou que a empresa ainda não teve acesso ao relatório, mas garantiu que “disponibilizou todos os arquivos solicitados”.

“A CSN, além de demitir 77 sindicalistas que foram presos e torturados, sem que houvesse condenação deles em IPM (Inquérito Policial Militar), também dispensou, por terem participado de manifestações contra o Golpe de 64, outros 113 trabalhadores”, revelou Edgard Bedê, historiador e relator, que se debruçou sobre 14 casos de torturas e mortes provocadas pelo então 1º Batalhão de Infantaria Blindado (BIB).

Francisco Assunção%2C torturado por quase dois meses na cela 'submarino'Francisco Edson Alves / Agência O Dia

O relatório tem ainda outras 20 recomendações, entre elas, que William Fernandes Leite, 22 anos, Valmir Freitas Monteiro, 27 , e Carlos Augusto Barroso, 19, assassinados pelo Exército na histórica greve de 1988, sejam incluídos na lista de mortos da ditadura. Emocionados, parentes deles e de outras vítimas, além de sobreviventes das torturas, participaram do ato.

“O MPF (Ministério Público Federal) vai analisar o relatório para responsabilizar civil e criminalmente violadores identificados”, adiantou o procurador da República, Júlio Araújo Júnior.

Parentes dos metalúrgicos mortos se emocionam

Irmã e filha, respectivamente, de Valmir Freitas Monteiro, Adriana Monteiro,  39, e Aline Monteiro, 28, choraram muito durante o ato de entrega do relatório. “Estamos felizes porque sabemos que a morte dele não foi em vão. Por meio dela muitas verdades já vieram e virão à tona, fazendo com que injustiças sejam reparadas”, disse Aline, que só tinha um ano quando Valmir foi assassinado pelo Exército na Usina Presidente Vargas. “Os transtornos na família foram sucessivos. Minha mãe, por exemplo, se entregou e morreu no alcoolismo”, lembra.

Adriana (E) e Aline%2C parentes de Valmir%2C e Margareth%2C irmã de Willian. Alívio com o resgate da verdadeFrancisco Edson Alves / Agência O Dia

A psicóloga Margareth Fernandes Leite, irmã de William Fernandes Leite, também não conteve as lágrimas ao reviver a história da morte do rapaz. “O trabalho da comissão foi exemplar e corrige anos e anos de descaso das autoridades para com a mortes dos metalúrgicos. Espero que a barbaridade do dia 9 de novembro de 1988 jamais seja esquecida”, disse Margareth. Rita Barroso, irmã de Carlos Augusto Barroso, também acompanhou em silêncio a audiência na Câmara. “Ainda é muito doloroso. Parece que a tragédia foi ontem”, murmurou com uma amiga.

Presos e torturados por dois meses, só porque pertencia ao grupo Juventude Operária Católica (JOC), taxado pelo Exército de subversivo, Francisco Assunção, de 70 anos, e Arny Amorim da Silva, 72, relembraram os momentos de horror nos porões do 1º BIB de Barra Mansa. Ambos levaram choques nas genitálias e língua, apanharam por mais de dez horas em paus-de-araras, quase morreram asfixiados em latões d`água e levaram “telefones” (tapas simultâneos nos ouvidos).

“A dor física passa, mas a psicológica, jamais. Até hoje os gritos de horror dos torturados ainda me assombram”, contou Francisco, que ficou dois meses dentro de uma cela escura, apelidada pelos militares de “submarino”. “Só tinha uma pequena abertura no teto, tipo uma escotilha. Só sabíamos de se era noite ou dia através dos cantos dos pássaros ao anoitecer”, lembra Francisco. “Num dos dias, nua sobre a mesa de torturas levando choques seguidos, apanhei por dez horas seguidas”, detalhou Arny, que tinha sido presa por defender empregadas domésticas de abusos sexuais e exploração trabalhista.

Arny Amorim da Silva%2C de 72 anos%3A 'Teve um dia que apanhei e levei choques por 12 horas seguidas' Francisco Edson Alves / Agência O Dia

"Casos suspeitos" serão novamente investigados

O  relatório também apresenta detalhes de um dos episódios que mais marcaram a repressão no Sul Fluminense: as torturas impostas a 15 Soldados no BIB (Batalhão de Infantaria Blindada), então sediado em Barra Mansa. Quatro deles foram torturados até a morte  Geomar Ribeiro da Silva, Juarez Monção Virote, Wanderley de Oliveira e Roberto Vicente da Silva. Todos tinham 19 anos e foram detidos por suspeitas, jamais provadas, de que usavam maconha.

Constam inda no relatório, detalhes da greve de 1988, que culminou coma morte dos três metalúrgicos. O relatório trata ainda como “casos suspeitos” e sugere a reabertura de investigações, a explosão do Memorial Nove de Novembro, em 1989, e a morte do prefeito morte do prefeito Juarez Antunes, 21 dias após sua posse, em fevereiro de 1989, num acidente automobilístico.

“Depoimentos contundentes de um capitão da Força Especial do Exército, obtidos pela comissão, processado por suposto roubo de explosivos, indicam que militares de alta patente mandaram explodir o memorial”, comentou Bedê.

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