Como viver junto

Por SELECT ART

A 20 quilômetros do centro de São Paulo, em uma casa da Vila Nova York, na Zona Leste, formou-se uma zona autônoma temporária, com duração de dez dias e dez noites. Aquele foi um dos “espaços de aprendizagem” promovidos pela Plataforma Explode!, criada em 2015 por Cláudio Bueno e João Simões para pesquisar e experimentar noções de gênero, raça, sexualidade e classe, baseadas em práticas artísticas e culturais entendidas como periféricas. Os 12 residentes que ali conviveram – e outros cem agregados que vieram participar de atividades, como a Batalha Vogue, no fim de semana – não formam um coletivo. Mas a experiência compartilhada na Residência Explode! foi justamente a de dissolver estruturas, explodir limites e promover outras formas de encontro.

“A gente está interessado em cruzar diferentes pensamentos, pessoas e grupos da cidade. E não plasmar um núcleo duro, um coletivo com um único jeito de pensar. A gente acha que a coisa ganha outra dinâmica, mais viva e com mais liberdade, podendo cruzar. Então vamos o tempo todo misturando e atravessando tudo, de um jeito mais diagramático”, diz Cláudio Bueno à seLecT.

A fim de mobilizar falas e práticas em torno de corpos que atuam fora da norma hegemônica, a célula do trabalho na casa foi a escuta. Para isso, o Explode! convidou o coletivo norte-americano Ultra-red para colaborar. Fundado em 1994 por dois ativistas da Aids, o Ultra-red na verdade não se define como um coletivo, mas como uma organização. Inclui em seus quadros diferentes movimentos sociais, assimilando às políticas de HIV/Aids as lutas por migração, antirracismo e desenvolvimento participativo comunitário. Nos campos da arte sonora e da música eletrônica, o grupo produziu coletivamente broadcasts de rádio, performances, gravações, instalações, textos e ações em espaços públicos.

Hugo Bler performa em Batalha Vogue, na Residência Explode!, projeto concebido por Cláudio Bueno e João Simões (Foto: Carol Godefroid)

Grito e escuta
Na Vila Nova York, o Ultra-red propôs a exploração do bairro criando um mapa acústico de seus espaços, histórias e relações sociais. “Fomos pra rua escutar, entender o bairro, para depois voltar e processar isso”, conta João Simões. “As pessoas eram separadas em grupos, que ficavam meia hora escutando diferentes entornos, em silêncio. Depois procuramos entender essa escuta, a partir de três perguntas: o que você viu? O que você escutou? O que você sentiu?”

A prática integra um grupo de ações do Ultra-red chamada Militant Sound Investigations (Investigações Sonoras Militantes), engajada diretamente na organização e na análise de lutas políticas. A ideia era escutar, para depois fortalecer falas e práticas dos participantes. “Essa possível descolonização dos saberes precisa passar pelo corpo: de que maneira se escuta e se introjeta algo, se processa pelo corpo, e aí então se produz uma resposta para o mundo. Em vez de sair reproduzindo um saber dado…”, diz Bueno.

“Foi muito importante sentir a necessidade de escuta. Escutar e vivenciar todas as histórias, principalmente saber que eu não estou sozinho, que as histórias são muito parecidas, criando assim muitas conexões”, disse o residente Félix Pimenta, em depoimento registrado no site da Plataforma Explora!

Michael Roberson, da organização norte-americana Ultra-red, ministra workshop na Residência Explode! (Foto: Daniel Bustamante)

A casa e a comunidade
A casa que acolheu esse processo imersivo foi onde Cláudio Bueno morou até os 22 anos, com seus pais. “Quando criamos a residência ali, pensamos em como alargar o campo perceptivo, acreditando no formato de passar mais tempo junto para a criação desse espaço de segurança, de acolhimento e pertencimento, onde se cria intimidade pra falar o que é importante pra cada um. Mas também um espaço de coragem”, diz Bueno.

Em certa medida, essa “casa-mundo, sem paredes” acabou ganhando também a feição de uma house das comunidades ballroom. Essas houses eram as sedes dos bailes (balls) de dança Vogue, praticada pela comunidade queer negra e latina de Nova York, dos anos 1960 até hoje. Esses grupos se organizam em “famílias”, unidas para proteção mútua e luta por direitos. “Quando convidamos o Félix Pimenta, uma pessoa ligada ao Vogue no Brasil, para vir para a residência, e a gente conecta com o Michael Roberson, que é membro do Ultra-red, e fazemos conexão com um movimento de latinos e negros nos EUA. Estamos falando de diásporas…”, diz Bueno.

Pony Zion performa em Batalha Vogue, na Residência Expode! (Foto: Carol Godefroid)

O Ultra-red desenvolve vários protocolos. Um deles é chamado Vogueology, que envolve a comunidade ballroom, aplicado na Vila Nova York, como uma estratégia para gerar possibilidades a partir da convivência. “A primeira coisa que me impressionou em minha experiência na Explode! Residency foi o número de pessoas negras e a diversidade existente dentro desse grupo, não só de nacionalidades, mas de vivências e de gênero. Infelizmente, é raro estarmos juntos em número significativo em ambientes produtores de arte e conhecimento que não sejam exclusivamente de discussão étnica. Conhecer a cultura Vogue, aproximar-me dela e descobrir no ballroom um ‘templo’ foram imagens emocionantes sobre o sentimento de pertencimento e de celebração das identidades”, diz Cadu (LaBeija) Oliveira, em depoimento no site.

A Residência Explode! aconteceu em setembro de 2016, em parceria com as plataformas Lanchonete.org e Artseverywhere.ca e gerou redes que seguem ativas. Outras ações da plataforma, como Rainbow Riots (2017-2018), contaram com a colaboração de Umlilo & Stash Crew, de Johannesburgo, e do Sesc-SP, e também aconteceu em workshop imersivo de cinco dias, quando o coletivo temporário experimentou outras possibilidades de existir e de viver junto.

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