Coisas do Rio
Coluna
Coisas do Rio
Thiago Gomide - thigomide@gmail.com

O "A Noite" viu de rádio Nacional a ascensão de contrabandista

A coluna lembra de fatos e personagens que marcaram o edifício localizado na praça Mauá

Por Thiago Gomide

Começou a temporada de cruzeiros no Rio de Janeiro. Os primeiros navios atracaram hoje no Pier Mauá.
Começou a temporada de cruzeiros no Rio de Janeiro. Os primeiros navios atracaram hoje no Pier Mauá. -
 
O edifício Joseph Gire, o famoso “A Noite”, em destaque na foto que lembra a temporada de cruzeiros, vai à leilão. O preço estimado é de 120 milhões.
Se levarem em conta a história, esse valor não é nada.

Duvida?

Nos anos 1940 e 1950, o Brasil era interpretado pela rádio Nacional, que ficava na cobertura do prédio. Em 1944, segundo o Ibope, abocanhava 70% da audiência.

Primeiro veículo de massa, as ondas da então maior emissora chegavam aos mais diferentes rincões de um país que não se falava. Que mal se conhecia.

Os programas de auditório atraiam milhares de fãs. Eram ao vivo. Atração da família, que se espremia coladinha no hoje obsoleto aparelho.

O Brasil parava para escutar de Ângela Maria a Luiz Gonzaga. De Cauby Peixoto a Dorival Caymmi, passando por Carmen Miranda, Maysa e até Lamartine Babo, autor dos hinos dos principais clubes do Rio de Janeiro.

Sotaques que se misturavam.

Quem lembra das radionovelas, mãe de um dos produtos culturais mais influentes de exportação do Brasil?

As últimas notícias dos quatro cantos desse planeta eram narradas por vozes graves nos jornalísticos. O repórter Esso ficou marcado.

Foi através da rádio Nacional que a turma ficou sabendo, por exemplo, o dia a dia dos soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial e a morte do presidente Getúlio Vargas.

Com a inauguração do edifício “A Noite”, em 1930, um novo polo econômico ganhava cores. A então maior construção da América Latina, dividindo o título com o edifício Martinelli, em São Paulo, abrigava agências de notícias ( La Prensa de Buenos Aires e United Press Association), o consulado americano, o adido comercial da embaixada Francesa, a legação da Dinamarca, as sedes da PANAM e Phillips.

*

Em 2012, estive no prédio com três alunas do Colégio Estadual José Leite Lopes, onde lecionava.

Elas foram conhecer os estúdios desativados da rádio Nacional, em especial um enorme de gravação de radionovela.

Fomos guiados pelo radioator Gerdal dos Santos, então com cerca de 80 anos de idade e mais de 50 de Nacional.

Ele presenciou da glória ao quase esquecimento. Dos gritos das fãs ao silêncio que nos acompanhava naquele dia de junho.

“A história do Brasil passa por esse lugar”, sentenciou Gerdal dos Santos.

Velha lataria de automóvel. Lembro dos olhos atentos das meninas quando o veterano demonstrou como se desenrolava uma cena que transmitia ao ouvinte a sensação de forte debate com batida forte de porta.

Deste momento mágico, fiquei devendo uma rodada de salgados pra alunas (que me cobram sempre) e que nunca poderíamos deixar essa memória morrer.

*

Manuel da Silva Abreu, mais conhecido como Zica, era dono do bar Flórida, que ficava no térreo do “A Noite”.

O Flórida era uma pequena parte dos investimentos do homem que, por muitos, foi considerado o dono da praça Mauá por décadas.

Há vários casos envolvendo o filho de portugueses que nasceu em Santos.

Vou contar somente um. Um que ajudou a televisão nascer no Brasil.

No livro “TV Tupi, a pioneira na América Latina”, que faz parte de uma coleção Cadernos da Comunicação Série Memória, a editora Regina Stela Braga escreve os detalhes de uma verdadeira epopeia envolvendo o empresário Assis Chateaubriand, o contrabandista, o presidente Dutra e a famosa inauguração da televisão em nosso país:
“A primeira transmissão da Tupi correu o risco de não ter quem a assistisse. Um mês antes, um engenheiro da RCA Victor veio ao Brasil para supervisionar a instalação dos equipamentos que haviam sido comprados da empresa. O americano quis saber quantos milhares de receptores já tinham sido vendidos em São Paulo. Quase tomou o primeiro avião de volta para os Estados Unidos quando ouviu a resposta de dois diretores da emissora: nenhum. O técnico então advertiu Chateaubriand que de nada adiantara o investimento de cinco milhões de dólares feito pelo dono dos Associados se ninguém veria a programação de sua televisão. Chatô disse ao americano que não se preocupasse, porque, no Brasil, tudo se resolvia.
Chateaubriand tratou de socorrer-se com o presidente. Expôs o problema (…) Apresentou a solução: o caminho seria recorrer ‘a um contrabandista sério’, tipo Zica – Manoel da Silva Abreu –, o “Rei da Praça Mauá”. Somente ele poderia, em regime de urgência urgentíssima, arranjar os aparelhos de que a técnica necessitava. Pelo menos uns 80 a 100, no mínimo. (…) Surpreso com a proposta, Dutra teria reclamado: “O Estado não faz negócio com contrabandistas, Dr. Assis”. Ao que Chatô respondeu: “O Estado não precisa saber dessa solução de emergência, presidente. O que interessa é a televisão funcionando. Sem ela, o Estado fica que nem índio, de tanga.

E assim foi feito. O contrabandista se disse honrado em poder ajudar a nação e, em menos de 24 horas, os aparelhos estavam à disposição de Chatô. Metade deles foi mandada de presente a personalidades e empresários que estavam financiando a implantação da televisão. Sem saber que o patrão estava por trás da transação, um repórter policial do Diário da Noite, jornal do império dos Associados, publicou com destaque a notícia de que a polícia estava investigando uma denúncia de que centenas de aparelhos de TV teriam sido contrabandeados para São Paulo. Foi uma correria do então diretor do jornal, Edmundo Monteiro, para acalmar os donos de grandes lojas da capital paulista que, para ajudar os Diários Associados, corriam o risco de serem enquadrados como receptadores de contrabando. O Diário da Noite nunca mais tocou no assunto”.

Trazer televisão era mole pra Zica. Nessa época, ele já contrabandeava baralhos, automóveis, relógios de pulso, isqueiros, perfumes, cigarros, radinhos de pilha, lenços italianos, sapatos, vinhos, canetas, brilhantina e uísque. Os amigos do porto, cultivados por tanto tempo, ajudavam com informações e esquemas. Homens armados, um capítulo a mais nessa trama, faziam a proteção bélica de um galpão ilegal na Ilha do Governador. O dinheiro permitia a entrada na política. O dinheiro permitia caminhar pela alta sociedade. O dinheiro permitia que ele fosse tratado com elegância. O dinheiro permitia que ele se tornasse o rei dos leilões do Rio de Janeiro. O dinheiro permitia que ele usasse ações filantrópicas para lavar mais e mais... dinheiro.

O dinheiro dos contrabandos permitiu que Zica não tivesse limites.

Vou falar desse personagem em outra oportunidade.

*

Seguidora do Tá na História no Facebook e leitora dessa coluna, Vera della Coletta escreve: “Espero que não seja demolido como outros prédios históricos, nem destruído como o Hotel Glória”.

Nós também,Vera.

Comentários