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Thiago Gomide - thigomide@gmail.com

Cartola precisa ser lembrado pelo Rio

História do sambista envolve grande amor, superação, sucesso após os 60 anos e um contato intenso com a cidade

Por O Dia

O fotógrafo Walter Firmo será o homenageado do concurso. Em sua produção destacam-se ainda os retratos de músicos brasileiros, como Clementina de Jesus, Cartola e Pixinguinha
O fotógrafo Walter Firmo será o homenageado do concurso. Em sua produção destacam-se ainda os retratos de músicos brasileiros, como Clementina de Jesus, Cartola e Pixinguinha -
Muitos leitores estão atravessando momentos ruins. No relacionamento. Nas finanças. Nas perspectivas de futuro. Com o Rio de Janeiro.
Trago um pouco da história de um poeta que amo para tentar contribuir com sentimentos melhores. Dá pra virar qualquer jogo. Um bom exemplo pode ajudar. 


Cartola nasceu em 1908, no Catete, zona sul do Rio de Janeiro. Inclusive tem um bloco de carnaval no bairro que homenageia o cantor.

O avô dele, Luiz Cipriano, trabalhava como cozinheiro do Nilo Peçanha, que foi Senador e até Presidente da República.

Nos primeiros anos de vida, ele brincou demais no belo quintal do Palácio do Catete. É grátis. Vale a visita. 

Quando o avô morreu, a pindureta chegou. A família teve que se virar.

Ele foi para o morro da Mangueira, que daria sua fama, aos 10, 11 anos.

Cartola trabalhou como lavador de carros, contínuo, ajudante de obra e pintor. O apelido de Cartola veio desse trabalho.

Ele usava um chapéu de coco para a tinta não cair na cabeça. Parecia que usava uma cartola. A turma logo associou.

A mãe morreu quando ele tinha 15 anos. E com o pai, vivia brigando.

Aos 17, não dava mais pra conviver. O pai saiu de casa e o Cartola entrou de cabeça na boemia, nas vielas da Mangueira, nas casas de prostituição.

Tem uma história ótima desse período. Ele teve aula de malandragem com o mestre Massu, apelido do também sambista Marcelino José Claudino.

Um dia Cartola falou pro Mestre Massu: “eu tô com um problema. Tô apaixonado por uma mulher que tá com um cara aí”. O mestre Massu mandou: “deve ser um mané. Chuta o trouxa”. Eis que vira o Cartola: “o problema é que a sua mulher”.

Climão. Corta.

Nessa época, o sambista Carlos Cachaça era um dos grandes parceiros de copo e de composição dele. Junto, fizeram muitos sambas.

Mais tarde, em 1928, eles, juntos de outros amigos que já tinham criado o Bloco dos Arengueiros, resolveram fundar a Estação Primeira de Mangueira.

As cores da escola foram escolhidas por Cartola. O emblema foi criado por ele. O primeiro samba, “Chega de Demanda”, foi composto por Cartola. Ele fez parte da diretoria até brigar. Acabou saindo da escola e do morro.

Só foi voltar muito tempo depois, quando começou o relacionamento com Euzébia Silva do Nascimento, conhecida como dona Zica.

Dona Zica, que era cunhada de Carlos Cachaça, encontrou um Cartola destruído: sem dinheiro, longe da composição, viúvo, sozinho, distante da Mangueira, doente.

Estamos no final da década de 1940. Cartola sofre com a rosácea, que dá a fisionomia ao nariz dele. Estava muito magro, sem dentes.

Quando Zica soube que o sambista estava na Favela da Manilha, ela foi atrás. Chega a arrepiar. Não queria perder tempo. Não podia deixar o amor ir embora.
É um Cartola antes e um depois da Zica. Fato.

Ele compôs “Nós dois” pra ela:

“Chega de tanta procura

Nenhum de nós deve ter

Mais alguma ilusão

Devemos trocar idéias

E mudarmos de idéias

Nós dois”

O agora casal volta ao morro da Mangueira. E Cartola volta a trabalhar, não como compositor, mas como vigia de carros em Ipanema.

Foi nesse momento que o jornalista Sérgio Porto encontrou o Cartola. Essa conexão abriu novamente as portas das rádios. Era uma volta tímida, mas que logo seria turbinada com um sucesso que misturava culinária, música e afeto.

O ponto de virada, depois da Zica ficar com ele, foi a abertura do bar ZiCartola, na década de 1960, na Associação de Escolas de Samba, onde o Cartola estava trabalhando como zelador.

Esse bar fez um sucesso enorme. Dona Zica na cozinha e Cartola ciceroneando diferentes músicos.

Paulinho da Viola começou lá. Nelson Cavaquinho estava sempre. Chico Buarque passou. Alcione, Beth Carvalho. Muita gente bacana. Só nata da nata.

Isso foi contribuindo para o ressurgimento do Cartola compositor.

Foi nesse bar, que desafiado a criar alguma música na hora, Cartola compôs o “Sol Nascerá”:

“A sorrir
Eu pretendo levar a vida

Pois chorando

Eu vi a mocidade

Perdida”

Em 1974, com mais de 60 anos nas costas, finalmente Cartola lança seu primeiro LP. E até a morte dele, em 1980, foram mais três lançados. Todos com muito sucesso.

O reconhecimento veio tarde. Quando jovem, ele vendeu muitas músicas. Algumas, ele ganhou crédito. Outras não.

Pra terminar, lembro do Cazuza. O Cazuza não gostava do nome dele até saber que Cartola também se chamava Agenor. Mas tem um detalhe: o escrivão errou e o Cartola não se chamava Agenor e sim Angenor.

Mas tá valendo.
*
Fica aqui o convite pra conhecer o Museu do Samba, que resgata a importância dele e de muitos outros sambistas. 
O site é: www.museudosamba.org.br
 
 

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