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Fábrica Bangu mudou o bairro e a moda no Brasil

Em 2019, empresa completaria 130 anos de existência

Por Thiago Gomide

Bangu Shopping, antiga Fábrica de Tecidos Bangu
Bangu Shopping, antiga Fábrica de Tecidos Bangu -
No mesmo ano em que o Brasil assistiu a queda do Império e a chegada da República, a Fábrica de Bangu abriu suas portas.

Em 1889, com equipamentos vindos da Inglaterra, a empresa deu os primeiros passos em uma história que envolveria a reconfiguração de um bairro, o investimento em um time de futebol campeão carioca e a inserção da moda brasileira no mundo.

Existe uma Fábrica Bangu antes e outra depois da família Silveira tomar conta do negócio.

E, nessa coluna, vou me dedicar a segunda fase do empreendimento, quando Guilherme da Silveira, ou Silveirinha, assume a presidência, em 1923.

Com forte entrada na high society carioca, Silveirinha fez com que os olhos dos frequentadores das rodinhas mais seletas se virassem pra uma área da cidade praticamente desconhecida. E fez com que a moda gerada na Fábrica ganhasse do salão nobre do Copacabana Palace, com desfiles, aos centros mundiais do design.

Na década de 1950, por exemplo, todo mundo acompanhava o Miss Elegante Bangu, que, no frigir dos ovos, era o Miss Brasil. As filhas dos bacanas disputavam. As revistas davam o resultado. Quem fosse coroada ali, o céu seria o limite.

Estilistas famosos, como o francês Hubert de Givenchy, desenhavam ou para Fábrica ou para coleções próprias usando unicamente o algodão produzido por lá.

Mulheres badaladas, como a modelo francesa Brigitte Bardot, usavam roupas da Fábrica.

Poderosos, como Juscelino Kubitschek e Agildo Barata, iam até o bairro pra entender a administração daquele espaço.

De 1930 a 1960, muito dinheiro pingou, principalmente durante a Segunda Guerra Mundial ( 1939-1945). Países impossibilitados de comprarem roupas direto da Europa, como África do Sul, recorriam à Bangu.

Evidente que todo esse avanço modificaria a realidade de um bairro isolado do centro nervoso econômico. No auge, só na Fábrica, trabalhavam 6000 funcionários. Criou-se um mundo para fazer a roda girar – e para a emoção não perder fôlego.

Casas para os operários, hospitais, escolas, farmácias, bibliotecas( ...) foram construídas. A movimentação mais comum era de bicicleta.

A turma do bairro começou a andar de cabeça erguida. Orgulho.

Nada melhor que um time de futebol competitivo para elevar ainda mais o moral. É agora que entra nosso querido Bangu Atlético Clube, fundado em 1904 pelos operários da própria Fábrica.

Campeonato Carioca de 1933. Silveirinha, que morava no bairro, era um grande estimulador do time. Bangu foi campeão. O povo parou as ruas para saudar os vitoriosos.

O primeiro título incentivaria ainda mais o clube a ganhar estrutura moderna e pensamento grande. Ousadia.

Silveirinha seria presidente do clube de 1937 a 1949 – depois virou patrono. Zizinho, pai de Castor de Andrade, chegaria na sequência, continuando os investimentos e abocanhando o cariocão de 1966.

O sonho dourado do progresso foi desidratando com o passar do tempo. A morte de Guilherme da Silveira, em 1989, no centenário da empresa, abriu uma fissura familiar e levantou uma frase comum: “e aí, o que fazer?”.
Dois anos depois, em 1991, a Fábrica Bangu foi vendida.
Em 2000, o prédio da Fábrica foi tombado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade.
Hoje, é o Bangu Shopping.

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Joaquim Silveira

Joaquim Silveira, irmão do Silveirinha, também foi presidente da Fábrica Bangu.

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Amizade com Carlos Lacerda
Carlos Lacerda, então Governador do Rio de Janeiro, despachou direto da casa do Silveirinha, em Bangu, na década de 1960. 
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Pena por aumentar salário
Na década de 1940, Silveirinha foi penalizado pelo Sindicato Patronal por aumentar o salário dos funcionários da Fábrica Bangu.
Isso aumentou a aura de um grande pai dos operários.  
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Alice Silveira 
Alice Silveira é filha do Silveirinha. 
Nasceu em Bangu e cresceu se dividindo entre o bairro e Copacabana. 
Todo mês de julho o destino era certo. Quem conta é a própria: 
"A Fábrica tem uma importância enorme na minha vida. Passava minhas férias de julho lá. Os meus filhos também frequentavam. Eu me considero de Bangu. Fui formada lá". 
Atualmente, Alicinha, como é conhecida, é produtora do "Painel da Manhã", na rádio Roquette-Pinto (94,1 FM). Os apresentadores são Lucya Araújo e Jorge Ramos. 
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Quando sai a biografia do Silveirinha? 
Lembro de que uma biografia do Silveirinha estava pra sair. Isso há uns anos.  
O autor é Denilson Monteiro, que escreveu sobre Ronaldo Bôscoli e Cartola.   
Tá na hora de sair, hein? 
Em maio desse ano, completou-se 30 anos do falecimento de Silveirinha. Mais um motivo. 

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