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Igreja de Santa Rita era a última parada antes do enforcamento

Conhecida durante muito tempo como a Igreja dos Malfeitores, templo religioso tem parte de sua história contada pela coluna

Por Thiago Gomide

Igreja de Santa Rita era última parada antes da forca
Igreja de Santa Rita era última parada antes da forca -
Foco na goela do trabalhador: sem esforço, é possível ver a cervejinha descendo. O garçom vindo com petisco que mistura carne, batata frita e farofa parece até miragem. Um sambinha, a qualquer instante, é puxado por um grupo de seis ou sete estacionado em um mesa ao fundo. O som do cavaquinho atrai as batidas de dedo até daqueles que são inimigos do ritmo. Conversas variadas, em tons igualmente variados, oferecem a tônica do espaço.

18:30 de uma sexta qualquer. Estamos na Visconde de Inhaúma, no centro da cidade, em frente a Igreja de Santa Rita, um lugar trajado pela dor das pessoas que foram marcadas para morrer.

Fique aqui para entender os contornos dessa história.

A construção da igreja de Santa Rita começou* há exatos 300 anos.

Em 1720, por incentivo de um casal de portugueses, aquele reduto de fé, de reverência a Santa Rita, ganhava suas primeiras formas.

Manoel Nascentes Pinto e Antonia Maria vieram de Portugal a convite do rei Dom João V. Na mala, um quadro com a imagem de Santa Rita de Cássia.

Diversos portugueses se reuniam na chácara do casal, em especial no dia 22 de maio, para rezarem pela Santa italiana, nascida em Roccaporena, em 1381.

Passavam os anos e o número de fiéis só aumentava.

Como em qualquer família, a chácara foi ficando pequena para tanto devoto.

Manoel e Antonia resolveram, então, bancar a construção de uma capelinha.

Logo de cara, encomendaram de Portugal uma nova imagem da Santa, que até hoje está no altar.

A festa do divino que passava pela porta contrastava com o imenso cemitério de pretos novos, aqueles que não resistiram a dura viagem de navio.

Esse cemitério foi anterior ao do Valongo: funcionou de 1721 a 1769.

O templo foi testemunha de inúmeras execuções. Bem perto, havia forcas e mais forcas. 

Os condenados por diferentes motivos, majoritariamente negros, viam na Igreja seu último encontro com o sagrado. Era a reza que talvez abrisse o caminho para o paraíso. Era uma consolação que talvez contribuísse para um apagar dos tais erros terrenos.

Após uma rápida passagem pela frente, os carrascos agilizavam os passos rumo a corda.

Por causa disso, a Igreja acabou ganhando um novo sobrenome: Santa Rita dos Malfeitores.
Zero desejo de colocar água no chope, mas não custa saber dessa história antes do primeiro gole.

*

Fonte de águas milagrosas

Durante décadas, as águas da Igreja de Santa Rita foram consideradas milagrosas.
Havia peregrinação para o contato. 

*

Data de construção e a nave da Igreja

Coloquei um asterisco na data de construção porque há fontes que dizem 1719 e outras que defendem 1720.

Segui 1720, mas não custa avisar.

A nave da Igreja, linda, por sinal, tem data marcada: 1728.

*

Forca
Os rituais de enforcamento variam, mas o comum era: caminhada do condenado até o lugar marcado, subida em escadinha de madeira, corda bem amarrada no pescoço, posicionamento em uma esfera mais alta que fosse removível, chance de últimas palavras e, por fim, o carrasco tirava o calço.
A morte pela forca nem sempre é imediata. E nem sempre dá certo. Quando não morria, o carrasco tinha que pular para contribuir na quebra do pescoço.
Não era incomum o povo aplaudir o enforcamento dos condenados. Em alguns casos, era motivo de reunião de amigos. 
*

Tombamento

A Igreja foi tombado em 1938, pelo Iphan.
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