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Especial Carnaval: a vida de Prata Preta

O homenageado no Cordão do Prata Preta, que tem ensaio hoje, liderou resistência contra vacinação obrigatória, brigou com policiais e acabou enviado para o Acre

Por Thiago Gomide

Cordão do Prata Preta faz ensaio nessa quarta(19). A coluna conta a história do famoso capoeirista.
Cordão do Prata Preta faz ensaio nessa quarta(19). A coluna conta a história do famoso capoeirista. -
Antes de tudo, fiz um vídeo contando esse fato. Clique aqui.

Viu? Vamos de Prata Preta.
Horácio José da Silva, o Prata Preta, levantava uma grana como estivador.
Mas a fama veio como capoeirista e líder de uma resistência que mexeu com o Rio de Janeiro.
No bairro da Saúde, ele liderou milhares de pessoas em uma barricada que recebeu o nome de Porto Arthur, uma homenagem ao porto que é o símbolo da resistência russa ao ataque japonês em fevereiro de 1904.
O bairro da Saúde era reduto de homens e mulheres vindos especialmente da Bahia.
Ali não podia passar nada. Ali era a defesa aos ataques do Governo. Ali a vacinação obrigatória, imposta pelo sanitarista Oswaldo Cruz, não passaria. Nada de vacina. 
Estamos em outubro de 1904. Falta de informação correndo solta.  
Prata Preta andava com dois revólveres, navalha, faca...A turma da barricada contava com garrucha, pistola, pedra.
Essa resistência durou três dias. Prata Preta matou um soldado, feriu outros. O exército teve que ir seriamente para eliminar o último grande grupo de pessoas rebeladas.
Rolaram inúmeras prisões. 
Prata Preta, como esperado, foi preso e, como muitos outros, enviado para o Acre, conhecido na época como a “Sibéria brasileira”.
Não há relatos certos do que deu de Prata Preta.
O fato é que quando completou 100 anos da Revolta da Vacina, um grupo de amigos do bairro
da Saúde criou o Cordão do Prata Preta, que faz ensaio nessa quarta(19), às 21h, na rua do Rezende 82.
Pronto. Prata Preta estava sendo lembrado.
*
Revolta da Vacina
 
No começo do século XX, ou seja, lá para 1902, 1904, o país vivia um período complicado nas finanças. Muito desemprego. Faltava educação. Moradia. Inflação altíssima.
Além de tudo, na capital, no Rio de Janeiro, estava rolando surtos de diversas doenças. Entre elas, febre amarela e varíola.
Essa catástrofe, além de prejudicar o óbvio desenvolvimento da cidade, prejudicava a economia nacional. Menos exportações, menos gente vindo para o Rio de janeiro. A cidade era conhecida como “túmulo dos estrangeiros”.
Era preciso atacar os problemas. O presidente Rodrigues Alves enfrentou diversos problemas e, claro, a saúde.
O famoso sanitarista Oswaldo Cruz, que já tinha estudado na França, foi chamado para assumir a diretoria de saúde pública, em 1903. É como se fosse um Ministro da Saúde atualmente.

Para conter a varíola, Oswaldo Cruz resolveu fazer uma vacinação. Vacinar todo mundo. Em outubro de 1904, o Governo aprovou a lei da vacinação, ou seja, tudo limpo para Oswaldo Cruz colocar em prática o plano de sair vacinando geral.
A população não ficou satisfeita não. Não tendo um alto grau de educação, a turma não entendia como o vírus da varíola bovina iria ser injetado para enfrentar a varíola.
Que parada é essa? Eu vou servir de experimento? Muitas pessoas achavam que a vacina infectava e não salvava. Muitas pessoas achavam que vacinar era um ataque ao pudor. Como assim vai vacinar minha filha, minha mulher?
Soma-se a isso parte de políticos aproveitando a situação para tentar derrubar o presidente Rodrigues Alves, alguns monarquistas tentando retomar o terreno perdido em 1889, veículos de imprensa tacando fogo no debate sem apuração dos fatos, informações distorcidas...
E tinha o seguinte: ou você vacinava ou não podia se matricular em escolas, não podia viajar, não podia casar...
O Rio de Janeiro virou um verdadeiro caos entre os dias 10 e 18 de novembro de 1904: tentativa de golpe militar, ataque da Marinha à Escola Militar, inúmeros conflitos de policiais, soldados e manifestantes...
No dia 16 de novembro, o Governo revogou a obrigatoriedade da vacinação, mas o caldo já tinha entornad O Dia o.
Enfrentamentos, como aconteceram no bairro da Saúde, se multiplicaram pela cidade. A praça
Tiradentes, sempre ela, foi palco de inúmeras violências.
*
Não dê mole sem vacinar
Existem milhares de estudos mostrando a eficácia da vacinação.
Não se engane. 
O sarampo, por exemplo, está voltando por causa de uma desinformação. 
 
 
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