Chinesa precisou ser contida por comissários de bordo durante triagem contra coronavírus - Reprodução
Chinesa precisou ser contida por comissários de bordo durante triagem contra coronavírusReprodução
Por Thiago Gomide
Pense em feridas no corpo soltando pus, uma dor incrível, vômito...
A pessoa com varíola tem esses e outros problemas.
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Quanto mais as cidades cresciam, mais epidemias se proliferavam. Não tinha jeito. As pessoas viviam mais próximas das outras. O vírus, no caso da varíola, era mais fácil de ser transmitido.
É estimado que mais 400 mil pessoas morreram na Europa por causa da varíola só no século 18.
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Aqui no Rio de Janeiro há um caso emblemático desse mal.
O sanitarista Oswaldo Cruz era um tipo de Ministro da Saúde em 1904 e ele resolveu bater de frente com a varíola. Já existia vacina, já existia forma de enfrentar a doença, mas o povo era desconfiado, tinham muitas fake news, tinham muitos grupos políticos querendo fogo no parquinho...
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Oswaldo Cruz conseguiu que a vacinação fosse obrigatória. Não tinha essa de dizer não.
Você acha que a população ficou de braços cruzados? Nada. Pegou em armas e pedras.
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Rolou então em novembro de 1904 a Revolta da Vacina, que parou com o Rio de Janeiro.
Um capoeirista chamado Prata Preta chegou a organizar um forte armado na região da Saúde, zona central do Rio de Janeiro. Matou militar e tudo.
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Foi complicado vencer a resistência da população, mas o Governo conseguiu. Resultado: 30 mortos, 110 feridos, mais 900 presos, 400 e poucos enviados para o Acre, inclusive o Prata Preta, que ninguém sabe o fim.
A varíola foi erradicada em 1977.

Falei do Oswaldo Cruz, impossível não lembrar da luta dele também contra a peste bubônica, conhecida na Europa como peste negra.
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Também no começo do século XX, Oswaldo Cruz bate de frente com a proliferação de peste negra, em especial no Rio de Janeiro.
Éramos considerados o túmulo dos estrangeiros. Baita estímulo pra vir pra cá,né?
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A peste negra é passada pela pulga do rato. Então Oswaldo Cruz toma uma atitude arrojada: ele resolve pagar para matarem os ratos.
O que teve de gente matando rato por aqui. Você sabe que brasileiro é inventivo: teve gente criando rato pra matar e vender pro governo.
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Ficaram ricos? Não. Mas ganhavam uma boa grana extra.
Com o passar das ações, Oswaldo Cruz conseguiu controlar a peste bubônica.
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Mas olha, a peste negra foi uma das mais violentas da história.
Na Europa morreram milhões de pessoas. Os números variam, mas o mínimo que encontramos é de 25 milhões de pessoas mortas.
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Lembra que falei sobre o crescimento das cidades? Então, além disso, põe também no jogo a falta de saneamento básico – que acontece até hoje em um monte de lugares.
A turma vivia com ratos, baratas, os mais diferentes bichos possíveis e impossíveis...Não dava
para saber o mal disso.
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É estimado que um terço da população europeia foi dizimada por causa da Peste Negra.
A xenofobia rolou solta. O estrangeiro era visto como um ser que trazia a doença.
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A descoberta só aconteceu em 1894.
A considerada mãe das pandemias é a Gripe Espanhola.
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Essa foi também brutal. O mínimo de mortos registrados passa de 50 milhões.
Ninguém sabe como começou a gripe espanhola. E logo adianto: ninguém também tem certeza de como terminou. O fato é que no finalzinho da Primeira Guerra Mundial, em 1918, o vírus começou a ganhar corpo.
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Era trinta vezes mais letal. Um a cada vinte infectados morria.
A forma de transmissão era muito fácil, com tosse, espirro... 50% da população mundial
tiveram contato com o vírus. 25% apresentaram os sintomas.
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A guerra, as trincheiras, a debilidade dos conhecimentos médicos e, principalmente, a falta proposital de informação contribuíram e muito para a multiplicação de vítimas. Por estarem em guerra, diversos países e suas imprensas controladas não avisaram o que estava se passando. 
No Rio de Janeiro, então capital da república, no começo, as autoridades não levaram a sério.
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Gripe espanhola? Só faltaram rir. A gripe entrou no Brasil pelo porto do Recife.
Em outubro de 1918 foram registrados mais de 20 mil doentes no Rio de Janeiro. A cidade ficou em pânico.
Não tinham médicos. Não tinham leitos. Não tinham hospitais. Não tinha nada, praticamente.
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O cenário era terrível.
Pense em doentes nas ruas vomitando sangue. Pessoas tendo alucinações e não falando lé com cré. Várias berrando de dor. Em diversas casas, panos pretos eram colocados na janela.
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Pra avisar que tinham vítimas da gripe espanhola ali. Era um aviso pra alguém jogar uma comida, que estavam precisando de socorro. Quem ajudou muito nessa situação foram os policias, os lixeiros...

O número de mortos foi crescendo de forma absurda. No começo ainda dava pra controlar os enterros. Depois foi faltando até madeira pra fazer caixão. E os corpos? No auge da crise, a turma foi colocando cadáveres no meio da rua. Passava a carroça do lixo e levava embora. Às vezes a pessoa nem tinha morrido, mas era carregada. Um horror.
Você deve estar se perguntando: e os coveiros? Não tinha número suficiente. A solução foi pegar presos. Abriram a cadeira. Muitas pessoas foram enterradas em cova rasa, sem identificação. Inacreditável.
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Entre tantas histórias surreais que eu conheço dessa época, uma envolve os bombeiros. A canja de galinha ajudava na recuperação da gripe. E os bombeiros ficaram responsáveis por vender galinhas. Só eles podiam vender. Não é que fizeram um mercado paralelo de galinhas?
Teve briga na cidade por causa de galinhas. Quebra-pau.
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No Brasil, a situação foi se normalizando pouco a pouco após a chegada de Carlos Chagas a diretoria de saúde. Ele convocou médicos, abriu hospitais de emergência, postos de atendimentos espalhados por tudo que é canto, cruzou informações com outros pesquisadores, na Europa, nos Estados Unidos...
Carlos Chagas chegou a ter a doença, mas passou. O que não aconteceu com o presidente eleito Rodrigues Alves. Ele morreu de gripe espanhola.
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Estima-se que cerca de 35 mil brasileiros morreram.
Mas quem sobreviveu a esse martírio comemorou o carnaval de 1919 como se fosse o mais importante de todos.
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