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Bica da Rainha merece mais atenção

Patrimônio localizado no Cosme Velho faz parte de momentos históricos do Brasil e de Portugal

Por Thiago Gomide

Bica da Rainha, no Cosme Velho
Bica da Rainha, no Cosme Velho -
Observe atentamente a fotografia que ilustra essa coluna e responda com sinceridade: esse lugar parece ter valor histórico?
Na Bica da Rainha, no Cosme Velho, há uma placa antiga indicando que ela foi "construída em meados do século XIX, para canalizar águas de uma nascente, às quais se atribuíam virtudes terapêuticas. Local frequentado por Dona Maria, Rainha de Portugal, a partir de 1808". Tomava altos banhos. 
A informação acaba confundindo. Como a bica foi construída em meados do século XIX se Dona Maria I, conhecida como "a louca", bebia as milagrosas águas no começo do mesmo século? 
Dói ver mais um patrimônio desconhecido. Dói presenciar mais uma peça da nossa intrínseca história se deteriorar. Tudo aos nossos olhos. Aos olhos dos turistas que sobem ao Cristo.  
Perceba a riqueza desse canto. Me acompanhe. 
Dona Maria I, a partir de 1815, se torna Rainha de Portugal, Algarves e também do Brasil. Ela sofria de muitos problemas psíquicos.
Na fuga desesperada da família real para o nosso país, em novembro de 1807, ela proferiu a seguinte pérola ao cocheiro: "Mais devagar! Vão pensar que estamos a fugir!"
No fim de vida, bastante religiosa, delirava sobre perseguições e sobre o inferno.
Carlota Joaquina, esposa de Dom João VI, sabendo da fama das águas ferruginosas, levou a sogra para conhecer. A própria Carlota frequentava atrás de solução para seus problemas de pele.  
Não há registros de cura nem de melhora na Rainha. Ao contrário: Dona Maria proporcionou bons exemplos de suas variações. Choques e mais choques na sociedade. Cabelos e perucas em pé. 
Há vertentes históricas que defendem que nesse lugar nasceu a expressão Maria-vai-com-as-outras. Como Dona Maria I não conseguia ir sozinha à bica e sempre era levada por acompanhantes, o povo dizia “Maria vai com as outras”. 
A Bica da Rainha foi construída para canalizar as águas de uma nascente no Cosme Velho. A data é imprecisa. Os famosos agueiros aproveitavam para vender as águas nos mais diferentes lugares da cidade. Essa ação faz parte do imaginário popular do século XIX.  
Dona Maria I morreu em março de 1816. A bica recebeu o atual nome em 1842. Homenagem clara. Em 1845, o patrimônio sofreu alterações estéticas. Atualmente nem água mais tem.
Você encontra referências a esse lugar em diversas obras literárias e em pinturas. Machado de Assis, por exemplo, foi vizinho. 
Na última chuva, parte do muro caiu. Está desse jeito.
Pena. Merece mais atenção. 
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Não custa lembrar
Esse abandono é de décadas. 

 

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