Coisas do Rio
Coluna
Coisas do Rio
Thiago Gomide - thigomide@gmail.com

Sem o Vasco, Pelé não existiria

Nos 122 anos do clube, lembramos a importância do Vasco na luta contra os preconceitos raciais e sociais no esporte

Por Thiago Gomide

A imensa torcida bem feliz do Vasco deu uma prova de amor ao clube
A imensa torcida bem feliz do Vasco deu uma prova de amor ao clube -
Todos os meus primos cariocas são vascaínos.

Da geração familiar, mesmo contando com a moçada de São Paulo, sou o único que torce para o Fluminense.

Aqueles que atravessaram os 30 e alguns anos vão lembrar de como era duro vencer os cruzmaltinos. Diria impossível.

O Vasco foi uma máquina de 1994 a 2001. Com altos e nunca baixos. No máximo medianos.

Só de cabeça aparecem logo alguns jogadores – e sem lógica de tempo: Valdir, Ricardo Rocha, Dener, Jardel, Edmundo, Mauro Galvão, Juninho Pernambucano, Felipe, Pedrinho, Juninho Paulista, Dinamite, Romário e Carlos Germano (o melhor que eu já vi).

Também puxando pela memória recordo de três momentos envolvendo o meu time e o rival:
1. Voltando de uma viagem à Cabo-Frio tive que aguentar colado no radinho o Fluminense tomando um chocolate do Vasco. O Pimentel fechou o caixão.
2. Estava com meu pai na final de 1994 quando Jardel arrebentou com tudo. Ricardo Cruz, goleiro tricolor, até pegou pênalti, mas não tinha como parar.
3. O time de 1997 era um esculacho. No Maracanã lotado, ao lado dos meus primos e do meu tio Luiz, igualmente vascaíno, tive que torcer para o Paulinho McLaren. Quanto sofrimento! 3 a 1 Vasco, com um golaço do Ramón.
Traumatizado, alguns podem estar pensando. 
*

No finalzinho de 1923, Fluminense e Vasco estavam em lados opostos.

Mas não dentro de campo.

Os cruzmaltinos lutavam contra as vontades políticas dos tricolores (com apoio de Flamengo e Botafogo), que desejavam barrar analfabetos, pessoas com subempregos e os atletas profissionais. Futebol era papo de amador, defendiam.

“Havia basicamente duas situações que a Liga tentava evitar: o profissionalismo dos jogadores e a presença de jogadores analfabetos nos times da liga. O combate ao profissionalismo era mais complicado de ser feito, pois na maioria das vezes os jogadores eram registrados em empregos obtidos através da influência de dirigentes e simpatizantes dos clubes”, escreveu o historiador João Manuel Casquinha Malaia Santos em sua tese de doutorado.

Muitos comerciantes vascaínos, em especial os portugueses, contratavam os atletas para seus estabelecimentos e não obrigavam a trabalhar. Mais: até davam um extra para jogarem. Burlou-se assim uma das obrigações.

Para o segundo ponto foi contratado um time de professores para capacitar os atletas. Era a educação servindo, para não variar, como resistência.

Mesmo com essas atitudes, continuava a perseguição ao campeão de 1923. Os camisas-negras, como eram conhecidos, atropelaram. Foi o primeiro clube a levantar o caneco no Rio de Janeiro com pobres, negros e analfabetos no elenco.

Fluminense, Flamengo, Botafogo, Bangu e São Cristóvão, então, criaram a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos, conhecida como AMAE. Quem quisesse se associar precisava seguir as regras. O Vasco, por exemplo, teria que eliminar mais de dez jogadores.

De maneira corajosa, o Gigante da Colina tomou a decisão de romper. Isso chocou a opinião pública. Não esperavam atitude tão drástica.

A carta que o presidente vascaíno José Augusto Prestes enviou para o tricolor biliardário Arnaldo Guinle, então presidente da AMAE, é uma pérola. Duas partes estão aqui:

“Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma pela qual será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.

Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve, por unanimidade, a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo pelo qual foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa”.

Resultado: em 1924 tivemos dois campeonatos cariocas.

O organizado pela nova entidade foi vencido pelo Fluminense e o dos outros clubes foi vencido pelo Vasco.

A batida de pé foi fundamental para alterar os rumos do futebol no Brasil – além de aprofundar os debates sobre preconceitos raciais e sociais.

Em 1925 os clubes voltariam a formar um mesmo grupo. O campeão foi o Flamengo.

Sem o Vasco, Pelé e tantos outros craques poderiam não existir.
**
Vasco já usou uniforme do Flamengo
Quer saber o motivo? A coluna já contou. Clique aqui
**
Zico já jogou pelo Vasco
Quer entender esse fato? Clique aqui. Já falamos também.
**
São Januário: maldição do sapo enterrado no estádio fez Vasco não ganhar nada
Que história é essa? Você sabe que a coluna já contou. Clique aqui para ler. 
**
Bicho, gandula e Eurico Miranda
Ainda poderia contar em detalhes o surgimento do bicho para os jogadores, o nascimento da palavra gandula ( tem a ver com a história do Vasco) e esmiuçar o momento que o Eurico Miranda foi visto votando em eleição presidencial do Flamengo.   
**
Coluna dedicada
Essa coluna vai como parabéns a todos os vascaínos, em especial para Thiago Francisco da Mata, que jogava a fina flor no recreio do Colégio Zaccaria e nas altinhas pelas praias da vida.  

Galeria de Fotos

A imensa torcida bem feliz do Vasco deu uma prova de amor ao clube Daniel Castelo Branco
Rio,04/11/2019 -SAO JANUARIO- Torcedores do Vasco fazem fila pra comprar ingressos para o jogo contra a Chapecoense, pelo campeonato Brasileiro 2019. Foto: Cleber Mendes/Agência O Dia Cléber Mendes
Rio,04/11/2019 -SAO JANUARIO- Torcedores do Vasco fazem fila pra comprar ingressos para o jogo contra a Chapecoense, pelo campeonato Brasileiro 2019. Foto: Cleber Mendes/Agência O Dia Cléber Mendes
Rio,04/11/2019 -SAO JANUARIO- Torcedores do Vasco fazem fila pra comprar ingressos para o jogo contra a Chapecoense, pelo campeonato Brasileiro 2019. Foto: Cleber Mendes/Agência O Dia Cléber Mendes
Torcida do Vasco Daniel Castelo Branco / Agencia O Dia
Partida entre Vasco x Athletico Paranaense, valida pela 20a rodada do Campeonato Brasileiro, estadio de Sao Januario, Rio de Janeiro-RJ, Domingo (22). Na foto a torcida do Vasco. Foto: Daniel Castelo Branco - Agencia O Dia Daniel Castelo Branco
Partida entre Vasco x Athletico Paranaense, valida pela 20a rodada do Campeonato Brasileiro, estadio de Sao Januario, Rio de Janeiro-RJ, Domingo (22). Na foto a torcida do Vasco. Foto: Daniel Castelo Branco - Agencia O Dia Daniel Castelo Branco
2019 - Torcida do Vasco no Estadio de Sao Januario no Rio de Janeiro. Foto: Daniel Castelo Branco / Agencia O Dia
2019 - Torcida do Vasco no Estadio de Sao Januario no Rio de Janeiro. Foto: Daniel Castelo Branco / Agencia O Dia
2019 - Torcida do Vasco no Estadio de Sao Januario no Rio de Janeiro. Foto: Daniel Castelo Branco / Agencia O Dia
2019 - Torcida do Vasco no Estadio de Sao Januario no Rio de Janeiro. Foto: Daniel Castelo Branco / Agencia O Dia
2019 - Torcida do Vasco no Estadio de Sao Januario no Rio de Janeiro. Foto: Daniel Castelo Branco / Agencia O Dia
2019 - Torcida do Vasco no Estadio de Sao Januario no Rio de Janeiro. Foto: Daniel Castelo Branco / Agencia O Dia
2019 - Torcida do Vasco no Estadio de Sao Januario no Rio de Janeiro. Foto: Daniel Castelo Branco / Agencia O Dia DANIEL CASTELO BRANCO
2019 - Torcida do Vasco no Estadio de Sao Januario no Rio de Janeiro. Foto: Daniel Castelo Branco / Agencia O Dia

Comentários