
Morrendo, responderia já batucando o pé.
O ar-condicionado forte me traz pra realidade.
Quando houver segurança sanitária, já prometi me esbaldar em dois logo de cara: “Vaca Atolada”, no Centro, e “Samba do Trabalhador”, no Renascença Clube, no Andaraí.
Margarete Mendes, a rainha da Lapa, é uma divindade cantando. Raro de ver igual. A turma de Moacyr Luz é remédio pra tristeza. Acredite.
Há algum tempo tenho acompanhado a batalha de um grupo de moradores do Andaraí para que o aniversário do bairro entre no calendário oficial da cidade do Rio de Janeiro.
Pode parecer estranho, mas não está. O Andaraí faz 173 anos e ainda não foi notado?
Loucura, loucura, loucura, diria Luciano Huck.
“O atual território da Grande Tijuca, do qual faz parte o Andaraí, era parte da sesmaria do Iguaçu, entregue aos jesuítas em 1565 por Estácio de Sá. Essas terras eram também conhecidas como Andarahy Grande e Andarahy Pequeno. No conceito do que entendemos hoje como bairro, o Andaraí começa a tomar as características pelas quais o reconhecemos a partir da segunda metade do século XIX. Pelo que pesquisamos é a partir de 1847,com a construção da Fábrica de São Pedro de Alcântara de Tecidos de Algodão, que o Andaraí vai ganhar o aspecto industrial que será sua marca até, pelo menos, os anos de 1970", explica o professor de História Fábio Carvalho, morador do bairro.
Andaraí serviu de cenário inspirador para Machado de Assis, em 1876. O romance “Helena” passa no bairro.
A “Helena” do Leblon, de Manoel Carlos, é coisa nova e, convenhamos, um tanto quanto sem sal.
Moraram no Andaraí Chiquinha Gonzaga, ícone da música brasileira, e o pintor italiano Eliseu Visconti, um dos mais importantes da arte no nosso país.
O músico Marcelo D2 escreveu: “Eu vim do Rio de Janeiro à Nova York levado pelo som / No Andaraí, no Brooklin, só tem sangue-bom”.
D2 cresceu no Andaraí. E bem acompanhado, pelo visto.
Quem não conhece a prosa “do tempo que Dondon jogava no Andaraí”? Sucesso de Nei Lopes na interpretação de Dudu Nobre.
“O nosso bairro teve um dos primeiros e mais importantes parques industriais da cidade e do país. Tivemos aqui a construção das primeiras vilas operárias, ligadas às fábricas têxteis Confiança e Cruzeiro, além da Fábrica de Projéteis de Artilharia, que produziu material bélico para nosso exército entre as décadas de 1930 e 1970. Isso sem falar em outras gigantes do setor fabril que já tiveram sede no bairro como a Merck, indústria farmacêutica, e a Brahma, de bebidas”, afirma Fábio Carvalho, que recentemente fez a pesquisa do enredo da “Flor de Mina", uma das escolas de samba do Andaraí.
É importância que não acaba mais.
A coluna entra no coro pelo bairro, que merece ser sempre reconhecido e valorizado.
Nesse sábado (19) haverá um aniversário virtual do Andaraí.
Duas perguntas e nada mais
Professor Fábio, representando um grupo moradores que está nesse movimento, respondeu duas perguntas diretas:
1. Por que se luta pelo aniversário do Andaraí?
Um aniversário é a oportunidade de chamar a atenção dos outros para a existência de nossa localidade e promover a integração da comunidade. Além disso, o aniversário do bairro é um convite à visita de sua história. Ela pode ser uma forma de levantar a autoestima dos moradores e os estimular a exigirem melhorias das autoridades. Defenderem seu lugar.
2. O que vocês estão pedindo?
Somos um Coletivo chamado Filhos do Joana, em homenagem ao rio que corta nossas terras. Eu estou representando nessa entrevista os anseios dos que dele fazem parte. Somos 10 pessoas, moradoras e moradores do bairro, com as mais diversas formações e vivências. Queremos que a terceira semana de setembro entre no calendário oficial da cidade do Rio como "Semana do Andaraí". E o reconhecimento do ano de 1847, quando Diogo Hartley recebe do governo imperial um empréstimo para o funcionamento de sua fábrica de tecidos na localidade, como marco inicial do bairro que, a partir daí, vai assumir, sua identidade fabril. Atrelado a isso pedimos a revitalização da área, cuidado com nosso patrimônio histórico e arquitetônico, obras de melhorias diversas como recapeamento, construção de áreas de lazer e apoio ao comércio local.
A letra não faz menção a um grande companheiro de equipe de DonDon: o poderoso Arubinha.
Arubinha protagonizou uma maldição ao Vasco da Gama. Arubinha estava naquele fatídico jogo de dezembro de 1937.
Chovia no Laranjeiras. O estádio do Fluminense seria o campo de um clássico: Andaraí, clube de futebol da Fábrica de Tecidos Confiança, e Vasco da Gama.
Por não ser o mandatário do jogo, o time da colina não pode optar pelo seu caldeirão.
Hoje os jogadores vão de ônibus bombadão, em alguns casos tem até carros da polícia fazendo escolta. Em 1937, meu amigo, minha amiga, era “vamos chamar o táxi” ou até mesmo “qual busão que passa por Laranjeiras?”.
Zero moleza.
O time do Andaraí chegou na hora marcada. Entrou em campo na hora marcada. Ficaram lá, na chuva, esperando o adversário.
Passavam os minutos e nada do Vasco aparecer.










