Orgulho dos fios brancos

Blog de Elisa Colepicolo exalta o prazer de ter cabelos grisalhos e dá dicas de como mantê-los

Por Gabriel Sobreira

Desde a época de Cleópatra (69 a.C. até 30 a.C), a rainha do Egito, as súditas da majestade já buscavam tinturas naturais, como kohl (cosmético de olho, semelhante ao carvão) e henna, para tonalizar os fios em busca de posição social e, principalmente, autoimagem. A moda das perucas também tinha seu valor e ganhou força também para os mesmos motivos.

Com o passar dos anos, as técnicas/tecnologias e estudos foram se aperfeiçoando, e o processo de tonalização evoluiu até chegar ao que conhecemos hoje. Mas na contramão dessa convenção estética, baseada ou no gosto pessoal ou no culto à eterna juventude, muitas mulheres estão felizes e satisfeitas com os fios brancos e fazem questão de ostentá-los, com muito orgulho.

"Costumo dizer que, se a mulher gosta de tingir o cabelo, ela deve, sim, tingir, muito, das cores que lhe der na telha; mas que se ela não gosta, tem que se libertar e aceitar que não tingir é, sim, uma opção. O importante é que a mulher tenha consciência e escolha por opção, por vontade própria", avisa Elisa Colepicolo, 36 anos, museóloga, que há cinco anos administra o blog 'Projeto Gris', para dividir sua experiência de transição para o cabelo grisalho.

COMEÇO

Elisa conta que na internet não achava nada em português sobre como assumir os fios na cor natural. Só tinha como não deixar (grisalhos). Ela diz que chegava a ser chocante para muita gente a quantidade de brancos que ela tinha, ainda mais pelo fato de ela ser nova. "Ficavam me encarando muito. As pessoas passaram a me perguntar se era de verdade e por que eu estava fazendo isso, gente que não me conhecia, na fila do banco, no caixa do mercado", lembra ela, que desde os 16 anos começou a ter cabelo branco.

REAÇÕES

Nessa jornada de cinco anos, a museóloga lembra que ouviu de algumas mulheres que elas não poderiam assumir seus cabelos grisalhos porque seus trabalhos não permitiriam. "Uma delas, inclusive, era caixa de uma loja de departamentos e foi obrigada pela gerência a cobrir mechas artificiais brancas que tinha feito sob risco de perder o emprego", lamenta. A paulistana frisa que as mulheres ainda são muito cobradas para que tenham um "visual padrão". "E o gris ainda não se encaixa nisso. Está melhorando, mas ainda causa mais espanto do que deveria. Falta só entender que o grisalho é só mais uma cor de cabelo", defende.

MAIS GRIS

Para mudar essa realidade, Elisa observa que nas revistas, na TV e no cinema dificilmente vemos mulheres com cabelos grisalhos, especialmente na fase inicial — quando os fios brancos ainda não são muitos. Nesses veículos, ou as mulheres têm cabelo tonalizado ou totalmente branco. "A gente não percebe, mas isso endossa uma ideia de que a transição do cabelo colorido para o branco, em mulheres, não deve existir. E essa fase acontece exatamente entre os 30 e os 50 anos, que é quando a mulher mais tem dificuldade de se identificar com a ideia de beleza jovial que normalmente é vendida. É uma espécie de limbo estético", explica.

DICAS DE CUIDADOS

Se você pensa em assumir os fios grisalhos, Elisa tem algumas dicas. No começo, ela pede para tirar os produtos que contenham agentes químicos agressivos (como petrolatos, sulfatos e silicones). "Indico sempre que procure produtos veganos ou os mais naturais possíveis. Isso porque o fio branco não tem pigmento, então não é interessante ficar abrindo e fechando as escamas do fio com frequência que a sujeira 'entra' e o cabelo amarela", justifica ela, que é dona de cabelos longos, cacheados e com um corte "moicano". "Acho que combina muito", vibra.

"Uso produtos veganos há anos e praticamente nunca uso os tais 'xampus azuis ou violetas', 'desamareladores'. Quando uso, a cada três meses ou mais, procuro também produtos naturais", acrescenta. Para ela, quanto menos "agredir" o cabelo, mais bonito fica o grisalho. "Por causa dos cachos também não uso toalha para enxugar o cabelo, mas sim uma camiseta simples de algodão, apenas apertando, sem friccionar. Isso ajuda a fazer mechas e quebra menos os fios. Agride menos", ensina, feliz da vida.

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