Pedro Fernandes - Alexandre Brum
Pedro FernandesAlexandre Brum
Por CÁSSIO BRUNO

Rio - Escolhido pelo PDT para disputar o governo do Rio, o deputado estadual Pedro Fernandes, de 35 anos, participa da série de entrevistas do DIA com os principais candidatos ao cargo. Com 2% a 3% nas pesquisas de intenção de voto, se eleito, o parlamentar diz que fará austeridade nos gastos e priorizará o policiamento ostensivo. Ex-secretário dos governos de Sérgio Cabral, preso na Operação Lava Jato, e de Pezão, também investigado, Fernandes anunciou a criação da pasta de Combate à Corrupção.

ODIA: O senhor já disse que acabará com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Por quê?

Pedro Fernandes: A prioridade é fazer o policiamento ostensivo. Fui o primeiro a criticar desde o início porque na minha região, em Irajá, foi onde (os moradores) começaram a sofrer as consequências da migração da criminalidade. Empurraram a sujeira para debaixo do tapete. As polícias entravam nas comunidades quase que combinado com os traficantes.

Foi o maior erro na área de segurança dos governos Cabral e Pezão?

Sim. Foram querer expandir (as UPPs) sem planejamento e sem ter condições de arcar com essa política que todo mundo sabia: era impossível implementá-las em todas as comunidades. Não concordo com tratamento diferenciado dado para determinada região. A proposta das UPPs foi exatamente por causa dos grandes eventos.

Mas o senhor fez parte desse grupo. Era filiado ao PMDB e foi secretário do Cabral e do Pezão. Não é uma contradição?

Pelo contrário. Se eu tivesse me aquetado e fechado os olhos, tudo bem. Eu criticava a máfia dos transportes, que envolvia gente do PMDB, sendo eu deputado estadual do PMDB. Essa independência sempre foi a minha marca. Sempre tive as retaliações do partido por conta disso. Hoje, tenho a consciência tranquila.

Sua mãe, a vereadora Rosa Fernandes, e seu coordenador de campanha ainda são do PMDB.

É por causa da janela (partidária). Eles não puderam mudar (de partido). São do PMDB, mas não tiveram envolvidos com coisas erradas. Nunca tiveram seus nomes associados a escândalos políticos. Foi por conta da legislação eleitoral, que, infelizmente, a gente precisa respeitar.

Qual será a sua prioridade na Segurança Pública?

Reposição de efetivo. O Rio perde 1,5 mil policiais militares e 1,5 mil policiais civis todos os anos por aposentadoria, morte ou incapacidade física. Chamarei os já aprovados em concurso. No primeiro ano de governo, vou gastar cerca R$ 80 milhões para chamar 1,5 mil policiais militares e entre 500 e mil policiais civis.

De onde o senhor vai tirar o dinheiro?

Farei uma política séria de austeridade. O governo gasta pouco mais de R$ 1 bilhão em cargos comissionados e com gratificações especiais. Reduzirei esses cargos em 55%. Vai gerar uns R$ 580 milhões imediatos de economia. Farei uma redução de 18 secretarias estaduais para seis ou sete.

Quais?

Teremos apenas as essenciais: Saúde, Segurança Pública, Fazenda, Educação, Cultura, Assistência Social e Infraestrutura. E terei uma secretaria de Combate à Corrupção para centralizar as licitações, acompanhar os contratos, fazer auditorias. Vou também cortar 25% dos contratos terceirizados, que são cabides de empregos. O governo do estado gasta hoje R$ 2,2 bilhões em terceirizações.

Onde haverá cortes, por exemplo?

Nos postos de vistoria do Detran. Na área de serviços também.

Mas não prejudicará o atendimento à população?

Te garanto que não. Há indicações políticas em todos os setores terceirizados, inclusive nas Organizações Sociais. Vou também entregar todos os prédios alugados ao governo do estado. São gastos quase R$ 80 milhões com aluguel de prédios desnecessários.

Como assim?

O prédio do Detran, na Avenida Presidente Vargas, custa R$ 30 milhões por ano. Tem o prédio da Central do Brasil, que é local estratégico de acessibilidade, com trem e metrô. É um prédio ocioso e de propriedade do governo do estado. Custo zero de aluguel. O problema é muito dinheiro sendo jogado fora. Falta gestão. O governo gasta R$ 10 milhões de aluguel de vagas de garagem no Edifício Menezes Cortes para os bacanas estacionarem os seus carros.

Já escolheu quem será o secretário de Combate à Corrupção?

Sim, mas não vou divulgar.

O senhor fala que não admitirá corrupção no governo. Mas o presidente do PDT, Carlos Lupi, foi nomeado em gabinetes da Câmara de Vereadores e não ia trabalhar. O senhor permitirá essa prática?

Em hipótese alguma. Não é o meu histórico. Mas essa atividade partidária não é ilegal.

O Carlos Lupi foi nomeado nos gabinetes para prestar serviços e não prestava.

Se você for em qualquer gabinete, vai reparar que tem menos pessoas trabalhando do que os números de cargos. Não é o que eu faço, mas é usual no meio político. A atividade política não se faz apenas dentro do gabinete. O papel do parlamentar não é fazer apenas leis. É fazer a intermediação da sociedade e com o Poder Executivo.

Mas o Carlos Lupi é presidente de um partido.

Você tem que perguntar isso a ele. Eu não estava no PDT quando isso acontecia.

Os policiais não têm estrutura para trabalhar. A investigação de crimes é pequena. Como resolver?

Primeiro, melhorar o efetivo. Depois, temos que investir em inteligência e tecnologia. A cada R$ 1 mil, por exemplo, R$ 3 apenas são investidos em inteligência e tecnologia. É preciso modernizar o processo, investir em monitoramento, com software de reconhecimento facial, para potencializar o patrulhamento ostensivo. Não há para contratar um policial para ficar em cada esquina. Mas podemos, além de repor o efetivo, potencializar com câmeras.

Pedirá apoio das Forças Armadas?

Claro que vou. Precisamos da parceria e da integração com o governo federal para atacar a atividade econômica do crime. Farei uma força-tarefa, nos moldes da Operação Lava Jato. Os grandes traficantes não estão nas favelas. Lá, estão os buchas, que matam, assaltam, morrem e servem de estatística. Temos que atacar onde está sendo lavado o dinheiro do tráfico de drogas e das milícias. Não é com tiro, porrada e bomba que vamos revolver o problema da violência. Fazer uma corregedoria séria para prender os agentes públicos suspeitos. Qual foi o legado da megaoperação do Exército nos morros do Alemão e da Penha? Foi a missa de sétimo dia dos três militares mortos.

Como combaterá a expansão das milícias?

Combatendo a atividade econômica. O governo deve estar presente nessas áreas. Quero ir atrás de quem está ganhando dinheiro e onde está ele sendo lavado.

Como pretende enfrentar a crise financeira?

O problema foi pegar a receita variável, que é o petróleo, para pagar custo fixo. A minha política de austeridade será severa. Temos que ter a capacidade de gastar aquilo que a gente arrecada. Com um detalhe: tirando as receitas variáveis, que ficarão focadas em investimento, como obras de infraestrutura, de saneamento básico, financiamento de microcrédito para pequenos empreendedores e produtores rurais. Teremos dois anos difíceis da reorganização da máquina pública para voltar a ter credibilidade no mercado e gerar empregos.

Como o senhor vê o processo de recuperação fiscal entre governo e União?

Vai ser revisto. O parcelamento da dívida ficará impagável. Quem fez só teve uma preocupação: empurrar para frente o problema. Além disso, não dá mais para os servidores ficarem sem reajuste salarial. Vamos voltar a fazer concurso público também. E mais: a Cedae não será privatizada. É uma empresa que dá R$ 350 milhões de lucro por ano. Em 2019, está projetada para dar R$ 800 milhões. Quero investir 50% em abastecimento de água e tratamento de esgoto.

Mas é o momento para reajuste de salários?

Com a austeridade, vamos economizar. Faremos um plano de cargos e salários equilibrado, respeitando a Lei de Responsabilidade Fiscal, reduzindo o teto de gastos.

Os hospitais estão sucateados.

Tem desperdício e falta de controle. Vamos, inicialmente, garantir o investimento constitucional de 12% (do orçamento). O problema não é dinheiro. É gestão.

Faltam médicos, especialistas...

Será que falta médico ou gerir esse processo de uma forma mais clara e transparente com a população? Todos viram o que ocorreu na prefeitura. Será que falta especialista ou falta acesso à Márcia?

O senhor também foi secretário do prefeito Marcelo Crivella.

Continuo sendo crítico. Fui secretário para servir a minha cidade e não servir a um determinado político. Na mesma forma que fui secretário no estado (de Cabral e Pezão). Pedi demissão porque não compactuei com as coisas que vinham sendo praticadas.

Na educação, faltam professores. Algumas escolas estão sem infraestrutura.

Os R$ 80 milhões por ano que vamos economizar com os prédios alugados serão destinados para a reforma das escolas sucateadas.

Como vai gerar emprego?

Vou encaminhar para a Assembleia Legislativa (Alerj) um plano de desenvolvimento econômico e social com redução de impostos e nas alíquotas dos combustíveis, energia elétrica e da água. Vou nivelar com São Paulo. Teremos uma perda de arrecadação. Por isso, vou separar R$ 500 milhões da nossa austeridade para fazer um fundo de compensação. Vamos dar a oportunidade para as empresas se instalarem no estado.

O eleitor vai acreditar na sua matemática?

Estou te dizendo da onde vou tirar o dinheiro. Vou reduzir os cargos comissionados e as contratações terceirizadas. Vou devolver também todos os prédios alugados pelo governo. Acabarei com residência oficial. O governador abrirá mão de todas as regalias.

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