Bispo de Volta Redonda, no Sul Fluminense, dom Francisco Biasin 'puxa a orelha' dos fiéis por voto responsável

Líder católico disse estar preocupado com propagação de ideias de 'tortura, discriminação e ódio

Por O Dia

Dom Biasin (a frente do arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, em cerimônia recente), afirmou que católicos não podem ficar indiferentes diante de 'dias de apreensão'
Dom Biasin (a frente do arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, em cerimônia recente), afirmou que católicos não podem ficar indiferentes diante de 'dias de apreensão' -

Rio - Dizendo-se “preocupado com uma onda de rancor e ódio, de intolerância e desprezo, de violência e agressões”, em relação ao segundo tudo das eleições presidenciais, o bispo da Diocese de Volta Redonda e Barra do Pirai, dom Francisco Biasin, divulgou uma carta aos fiéis do Sul do estado, na noite desta quinta-feira.

No documento, intitulado `Mensagem ao Povo de Deus´, Biasin afirmou, em tom firme, que a população “não pode ficar indiferente diante dos “dias de apreensão pelo que pode tornar-se o país, se a tortura, a pena de morte, a discriminação, o ódio, o preconceito, as armas e outras propostas contrárias ao Reino, alcançarem os mais altos postos da República”.

“A vida toda e a totalidade da vida estão ameaçadas. Não faz parte da tradição cristã uma defesa parcial e seletiva da vida, que ignore pessoas e grupos humanos, que decida os que devem viver ou morrer, que faça da natureza objeto de escusas negociações”, escreveu o líder religioso.

Dom Biasin cobrou atitude dos fiéis do Sul do estado, onde a diocese está representada em 12 municípios - Volta Redonda, Barra do Piraí, Resende, Barra Mansa, Itatiaia, Quatis, Porto Real, Rio Claro, Pinheiral, Mendes, Paulo de Frontin e Piraí. “Do contrário, num futuro próximo, nossos filhos e filhas pobres, negros, favelados, homoafetivos, atingidos pela dependência das drogas, mulheres, operários, agricultores, indígenas, refugiados e outros grupos humanos, marginalizados pelo preconceito e pela arrogância, poderão ser tragicamente atingidos”, advertiu.

O bispo foi além, e disse que “votar conscientemente em candidatos que comunguem e propaguem tal mentalidade (de opressão e ódio), é trair o Evangelho de Jesus Cristo e crucificá-lo outra vez na vida dos pobres, dos excluídos e das minorias”.

“Tudo estará perdido com o totalitarismo. Mas, tudo é possível reconstruir na liberdade e na participação popular. A importância e a seriedade, próprias do momento eleitoral em que nos encontramos, devem interpelar a todos os que cultivam o sonho indígena da “terra sem males” e o anseio quilombola de um mundo sem exclusões. No entanto, a beleza dos nossos sonhos e anseios está em perigo”, finalizou.

A carta de dom Francisco Biasin na íntegra

Mensagem ao Povo de Deus

Nesta hora de profunda responsabilidade humana e social, como cidadão, cristão e bispo, dirijo-me, afetuosamente, aos discípulos e discípulas de Jesus, e a todos os homens e mulheres de boa vontade. Nos últimos tempos, sobretudo em ocasião do pleito eleitoral, fomos atingidos, como poucas vezes em nossa história nacional, por uma onda de rancor e ódio, de intolerância e desprezo, de violência e agressões.

Vivemos dias de apreensão pelo que pode tornar-se o nosso país se a tortura, a pena de morte, a discriminação, o ódio, o preconceito, as armas e outras propostas contrárias ao Reino alcançarem os mais altos postos da República! A vida toda e a totalidade da vida estão ameaçadas. Não faz parte da tradição cristã uma defesa parcial e seletiva da vida, que ignore pessoas e grupos humanos, que decida os que devem viver ou morrer, que faça da natureza objeto de escusas negociações. Diante desse cenário, não podemos ficar indiferentes. Do contrário, num futuro próximo nossos filhos e filhas pobres, negros, favelados, homoafetivos, atingidos pela dependência das drogas, mulheres, operários, agricultores, indígenas, refugiados e outros grupos humanos, marginalizados pelo preconceito e pela arrogância, poderão ser tragicamente atingidos.

Por isso não tenho dúvidas em afirmar que votar conscientemente em candidatos que comunguem e propaguem tal mentalidade, é trair o evangelho de Jesus Cristo e crucificá-lo outra vez na vida dos pobres, dos excluídos e das minorias. Tudo estará perdido com o totalitarismo. Mas, tudo é possível reconstruir na liberdade e na participação popular.

A importância e a seriedade, próprias do momento eleitoral em que nos encontramos, devem interpelar a todos os que cultivam o sonho indígena da "terra sem males" e o anseio quilombola de um mundo sem exclusões. No entanto, a beleza dos nossos sonhos e anseios está em perigo.

Resta-nos a missão de rogar e contribuir, por meio de um voto consciente, maduro, responsável e crítico, com a construção de uma nação que seja mãe acolhedora, que seja terra fértil e gentil, que seja "casa comum" onde convivam as diversidades, as pluralidades, os muitos "Brasis". "Venha o teu Reino".