O dia 1º de maio de 1994 era um domingo qualquer para o automobilismo brasileiro. Em Imola, Ayrton Senna largaria da pole position no GP de San Marino, terceira prova do campeonato de Fórmula 1. Em Michigan, nos Estados Unidos, Emerson Fittipaldi treinaria para as 500 Milhas de Indianapolis, corrida que seria realizada quatro semanas mais tarde.
Mas aquele 1º de maio não foi um dia qualquer. A barra de direção da Williams de Senna se quebrou no início da sétima volta e o piloto passou reto na curva Tamburello. O carro bateu no muro a 210 km/h e o golpe da suspensão dianteira contra a cabeça do tricampeão foi fatal. A 7.300 quilômetros dali, o treino de Emerson foi interrompido imediatamente. E, 20 anos depois, ele contou ao iG Esporte como ficou sabendo da morte do amigo.
“Eu estava testando meu carro para Indianapolis no Michigan Speedway e aí me chamaram. Eu estava dando um segmento de parada de boxes. Era para fazer 28 voltas com o tanque cheio, me lembro que era um carro muito rápido que eu tinha. E depois de 18 voltas minha equipe falou ‘entra, entra nos boxes’. Normalmente quando você está em uma média horária muito alta não é critério entrar nos boxes no meio de um teste”, afirmou Fittipaldi.
“Nos ovais, em cada curva tem um cara observando o carro e se aparece alguma coisa estranha eles mandam parar. Até pensei ‘será que tem algo errado com o carro?’. Eu tirei o pé na hora por questão de segurança e entrei nos boxes. E quando entrei me disseram ‘sua mulher quer falar com você’. Na primeira hora eu pensei que tinha acontecido algo com minha família, porque nunca que iriam parar um teste. E aí eu peguei o telefone e ela me falou ‘o Ayrton teve um acidente e morreu’. Na hora cancelamos o resto do teste. Fui para casa e depois vim para o Brasil para o enterro”, relatou o ex-piloto.
Quase ida para a Indy
Emerson contou ter ficado em estado de choque. E disse que o mesmo sentimento tomou conta dos membros de sua equipe na época, a Penske, pois Senna já havia participado de testes com o time. Era vontade do veterano que o amigo corresse nas 500 Milhas em 1993, algo que só não foi possível por um veto contratual da McLaren.
“O Ayrton estava louco para sentar em um carro de Indy e tinha chance de correr na equipe Penske junto comigo. Ele testou o carro no fim de 1992 e gostou muito. Mas as negociações com a McLaren para o ano seguinte não permitiram sua participação por causa do calendário”, recordou Fittipaldi.
A ideia do ex-piloto era reunir na categoria norte-americana Senna, um dos maiores nomes do automobilismo em todo mundo e Nigel Mansell, então campeão de F1. “O Nigel assinou e correu comigo o ano inteiro lá”, falou Fittipaldi.
Peso da morte sobre Rubinho e Massa
A morte repentina de Senna provocou no Brasil uma carência imediata de um ídolo nacional. E, mal acostumados com os oito títulos conquistados na F1 por Ayrton, Emerson e Nelson Piquet, torcedores e imprensa exerceram muita pressão sobre nomes como Rubens Barrichello e Felipe Massa. E tal expectativa, na visão de Fittipaldi, é o que ainda provoca o sentimento de decepção no público.
“A cobrança e a esperança que a imprensa fez em outros pilotos depois da morte do Ayrton criaram uma decepção no público brasileiro. A imprensa criou uma expectativa que não era real”, disse Emerson.
“O Rubinho e o Felipe tiveram carreiras brilhantes. Mas a cobrança demais, dentro da própria imprensa, criou uma expectativa que não estava à altura do que era a realidade, de ter um novo Ayrton Senna”, explicou o ex-piloto.
Para Fittipaldi, o Brasil jamais irá se esquecer de Senna e de seus feitos. Mesmo assim, ele confia que no futuro um nome possa voltar a alegrar as manhãs de domingo no País. E citou o tetracampeão Sebastian Vettel, da Red Bull, como exemplo.
“Acho que com o tempo tudo se supera na vida. Se você me perguntasse quatro anos atrás ‘vai ter um alemão que pode ser igual ou melhor que o Schumacher?’ eu ia dizer ‘você está louco!’. E o Vettel ganhou quatro anos em seguida o campeonato mundial. É excepcional! Será que ele vai ganhar mais vezes que o Michael? Eu no começo achava que seria impossível. Agora vejo que é possível. Porque o Vettel tem chance. Já é quatro vezes campeão e, com a idade que ele tem, pode ganhar mais quatro”, falou Emerson.
“Então, o passado não muda a história. No futuro tudo pode acontecer. Pode aparecer um piloto excepcional brasileiro que vai mudar a história como também pode ser que nunca mais apareça”, finalizou Fittipaldi.





