Carlo Ancelotti no banco de reservas do MaracanãÉrica Martin / Arquivo O Dia

O Brasil inicia a sua caminhada rumo ao hexa neste sábado (13), contra o Marrocos às 19h (de Brasília), apostando em Carlo Ancelotti. O italiano será o primeiro estrangeiro à frente da Seleção em uma Copa do Mundo e traz na bagagem um currículo vencedor e muita experiência adquirida não somente nos 31 anos de carreira como técnico mas também da época de jogador, bebendo de muitas fontes de inspiração.
Ancelotti assumiu a seleção brasileira em maio de 2025 como o maior vencedor da Liga dos Campeões (cinco) e o único a conquistar títulos nacionais em todas as cinco grandes ligas europeias (Alemanha, Itália, Espanha, França e Inglaterra). Agora tem o grande desafio de comandar o país pentacampeão contando com um perfil que cativou grandes craques e deu-se bem com muitos brasileiros, além de um conhecimento tático baseado na famosa flexibilidade.

Perfil calmo e respeitoso

Aos 67 anos, o técnico da Seleção teve uma carreira de sucesso como jogador. Ele atuava na posição de volante e na sua passagem marcante pela Roma, entre 1979 e 1987 jogou ao lado de Paulo Roberto Falcão. Foi o primeiro contato direto com um "gênio brasileiro", como o chama em seu livro 'O Sonho', e que contribuiu para um ensinamento importante
O italiano recorda que Falcão não entendia porque o time treinava tanto sem a bola e mudou a forma de treinar. Isso o influenciou por demonstrar a importância de repetições e trabalhos com a bola nos pés. Ancelotti também aprendeu muito com o técnico sueco Nils Liedholm, que viria a ter papel direto no seu estilo como treinador.
"Ele foi meu primeiro técnico de verdade, e foi com ele que aprendi que um chefe não precisa ser alguém que faz valer sua autoridade à força e dita as regras com severidade. Ele era calmo. Nunca o ouvi gritar, nem uma vez sequer", lembra em 'O Sonho', livro sobre as conquistas da Liga dos Campeões.

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Essa característica seria notada por diversos jogadores comandados pelo italiano futuramente. O meia croata Luka Modric, um dos pilares do Real Madrid nas duas passagens de Carleto pelo clube, exaltou esse jeito do técnico como um dos motivos para seu sucesso.

"Não sei como Carlo conseguia ser tão calmo. É inacreditável. Acho que, além de ser um grande técnico, que entende de futebol como poucos, o segredo de todos esses resultados que ele alcançou estão na personalidade dele - no jeito como age, como se comporta, no respeito que demonstra por todo mundo", disse, em relato publicado no mesmo livro.

'Eu precisava criar meu próprio modelo'

Nos últimos anos da carreira como jogador, já no Milan, Ancelotti recebeu outra influência decisiva, até mesmo para os rumos na nova carreira.  Arrigo Sacchi virou uma espécie de mentor, com os dois tendo pensamentos parecidos sobre futebol.
Não à toa, a decisão de virar treinador passou diretamente por causa de um convite para ser auxiliar, feito por Sacchi, que havia assumido o comando da seleção italiana em 1992.
"Ele me chamou para ser seu assistente técnico na seleção italiana. Acho que fazia sentido para ele. Ele costumava dizer que eu era seu representante em campo, e eu me via como um aluno dele, então ambos sabíamos que pensávamos parecido. Era o único jeito de manter viva a minha paixão, o futebol, então foi apenas um jeito novo de amar esse esporte e ir atrás de novos sonhos", relembra.
Apesar disso, até hoje, Carleto tem dificuldade de responder porque decidiu se tornar técnico naquele momento. "No meu caso, não há uma resposta fácil. Nunca foi minha ambição passar os trinta anos seguintes no banco de reservas. Sempre me vi, antes de tudo, como um jogador que por acaso virou técnico. Mas o convite para me juntar a Sacchi e à Azzurra sugeria que ele enxergava algo em mim. Ele sabia das coisas, mas nem mesmo ele poderia ter imaginado que eu viria a ter tanta sorte e tanto sucesso ao longo de tantos anos."

Futuramente, Ancelotti tentaria incorporar um pouco de cada treinador que teve para traçar o seu próprio perfil. Mas, apesar da admiração especial por Sacchi, a maior lição a ser tirada de seu antigo mentor não era virar um clone dele, e sim se basear nele (marcação por pressão, sair construindo da defesa) para transforma-se em um técnico original.

"Com Nils Liedholm aprendi a ter senso de humor. Sven-Göran Eriksson também foi uma referência e uma inspiração, e tentei sempre ser tão bom quanto ele no trato com os jogadores e em nunca perder a calma. Quanto a Sacchi, depois de tê-lo observado de perto por quatro anos no Milan e mais dois na Azzurra, ele foi meu mentor – mas no fim das contas não foi o meu modelo. Esse teria que ser eu: eu precisava criar meu próprio modelo."
Mesmo assim, Ancelotti teve um ensinamento muito importante de seu antigo mentor para seus trabalhos como técnico. Em uma entrevista coletiva, ainda pelo Milan, Sacchi foi questionado se a imprensa não dava foco demais ao trio holandês Gullit, Van Basten e Rijkaard, em detrimento do resto do time, e respondeu priorizando o fator coletivo.

"Não foram só os holandeses, nem o elenco, embora fossem magníficos. Foi o sistema de jogo que nos trouxe o sucesso. No fim das contas, o sistema era o líder em campo; ele não se lesionava nem se cansava. Não foram os jogadores que venceram todos aqueles grandes jogos. Foi o jeito como jogávamos", respondeu Sacchi, em um discurso lembrado por Ancelotti até hoje.
"Esse modo de pensar teria grande influência sobre mim nos primeiros anos da minha carreira como técnico", recorda o atual comandante da seleção brasileira.

O grande aprendizado com Zidane

Ao longo de sua carreira, que começou no Reggiana em 1995, Ancelotti também aprendeu lições importantes com as grandes estrelas que treinou. "Quando cheguei à Juventus (em 1999 e ficou até 2001), o grande astro era Zinedine Zidane. Seu primeiro papel foi o de me ensinar uma lição vital, que me acompanharia pelo resto da carreira: a flexibilidade", conta.

Depois, as experiências de Carlo seguiram moldando o seu perfil vitorioso. Ele volta a destacar a "flexibilidade" como a principal lição que tirou, desta vez em sua primeira vez comandando um time na Liga dos Campeões, pela 'Vecchia Signora'.
E essa característica passaria a acompanhá-lo em todos os trabalhos, acomodando grandes craques. Um deles foi Seedorf, que  jogou no Milan entre 2002 e 2012, quando foi comandado pelo italiano  e realizou diversas funções por causa das variações táticas e de companheiros no meio de campo no período.
"Ele se mostrou ser o melhor treinador do mundo pela capacidade de criar grupos muito competitivos, sempre. Sua capacidade de lidar com grandes egos foi sempre excepcional. Acho que o fato de ele vir para o Brasil significa que tem muita motivação, pegar a seleção mais complicada porque a expectativa é altíssima, mas está acostumado", avalia.
O trato de Ancelotti com os jogadores, aliás, costuma ser muito elogiado por quem foi comandado por ele. Outro grande nome daquele Milan, o zagueiro Nesta destaca como Carlo consegue tirar o melhor de cada jogador. "É um técnico especial, toda vez que inicia um trabalho, ele consegue empurrar os jogadores para além do limite", elogia.
"Quando perdemos a final da Liga dos Campeões daquele jeito (Milan vencia por 3 a 0, sofreu o empate e perdeu nos pênaltis para o Liverpool), após o jogo, Carlo foi a cada jogador e deixou boas palavras para nós, estávamos muito tristes. Para mim foi especial".

A superstição de Carleto

No entanto, o técnico mais campeão de Liga dos Campeões não é feito apenas de conhecimento tático e bom trato com os jogadores. Ele também tem as suas superstições antes de jogos importantes, como uma refeição que serve como ritual para dar sorte: comer massa com molho de salmão e brócolis, um prato típico, além de um leve cochilo.
"É a única superstição que mantive, porque aprendi a acreditar que deixar de comer esse prato dá azar. Depois de tirar uma soneca de uma hora, começo a pensar no jogo", relata o técnico em um de seus livros.

Intimidade com brasileiros

Ao longo de sua carreira, Ancelotti comandou 43 jogadores brasileiros antes de chegar à Seleção. Uma das parcerias mais marcantes com o treinador italiano foi a de Kaká, que venceu a Bola de Ouro em 2007, no Milan. Durante a passagem do técnico no clube, a equipe também teve nomes como Dida, Cafu, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo.
Um desses atletas foi o volante Emerson, que rasga elogios a Carlo: "Foi meu treinador, conheço muito bem, é um cara competente e tenho certeza de que vai fazer de tudo para trazer mais um título para o nosso país."

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O italiano sempre teve boas relações com os brasileiros, mas um deles acabou gerando conflito: Rivaldo. Em 2002, o jogador recém-contratado e pentacampeão não aceitou ficar no banco de reservas em uma partida no início da temporada e discutiu com o comandante.
"Ele disse: 'Rivaldo não fica no banco'. Eu era o chefe e tive que lembrá-lo disso: 'Rivaldo, você vai para o banco', eu disse. A mensagem não pareceu surtir efeito. Ele simplesmente se levantou e foi para casa", recorda no livro 'O Sonho'.

No entanto, essa passagem foi uma exceção na boa relação com os brasileiros. Mais tarde, no Real Madrid, o Ancelotti ainda formaria novas equipes de sucesso com jogadores do país, todos eles já chamados para a seleção brasileiro nesse um ano de trabalho (Vini Jr, Rodrygo, Casemiro e Éder Militão).