'Voltei para a arquibancada, que é o meu lugar, e estou muito feliz'

Ex-presidente curte a nova e vitoriosa fase do Flamengo, fruto do trabalho de reestruturação iniciado há sete anos

Por MARCELO BERTOLDO

Rio, 29/11/2019 - ESPECIAL, Entrvista com o ex presidente do Flamengo. Eduardo Bandeira de Mello. Novo Leblon, Barra da Tijuca. zona Oeste do Rio.  Foto: Ricardo Cassiano/Agencia O Dia
Rio, 29/11/2019 - ESPECIAL, Entrvista com o ex presidente do Flamengo. Eduardo Bandeira de Mello. Novo Leblon, Barra da Tijuca. zona Oeste do Rio. Foto: Ricardo Cassiano/Agencia O Dia -

Em um novo patamar, o Flamengo aproveita a frutífera colheita de títulos, da base ao time principal. A conquista da credibilidade, porém, antecedeu o hepta brasileiro e o bi Libertadores. De campeão de dívidas, o clube começou a empilhar taças. De volta à arquibancada, Eduardo Bandeira de Mello celebra o resultado do processo de reconstrução iniciado e consolidado nos últimos seis anos. Na condição de ex-presidente, retomou hábitos adormecidos como as peladas no fim de semanas e as 'rodas' de violão para os netos, Diego e Anna Clara. Mas segue na torcida.

Gestão Bandeira

"Essa avaliação do mérito da minha administração, acho que sou o menos indicado a falar. Prefiro que seja feita por outras pessoas, mas fico sensibilizado com o carinho que a torcida tem me tratado na rua, no Maracanã. A experiência em Lima (na final da Libertadores) foi fantástica. Não fiz nada sozinho. As pessoas que me acompanharam ao longo da gestão têm um mérito fantástico. O importante é que saí de cabeça erguida e com a sensação de dever cumprido. Agora voltei para a arquibancada para fazer o que sempre fiz que é torcer pelo Flamengo".

Colheita de taças

"Não é muito parcial fazer a própria avaliação, mas fico muito feliz com todo esse carinho recebido. Foi inesquecível em Lima. Do aeroporto ao avião. Toda a minha diretoria estava comigo na arquibancada. Pessoas que até 2018 faziam parte do conselho diretor, estavam lá. Foi especial".

Reconstrução

"Foi preciso fazer sacrifícios. Quando assumi, disse que o Flamengo tinha um passivo financeiro muito grande, mas que o passivo ético e moral eram ainda maiores. Era tido como mal pagador, clube que não cumpre seus compromissos... Na hora, disse que viraríamos esse jogo, que sacrifícios seriam feitos na área esportiva para isso. A torcida comprou a briga. Claro que ao longo de seis anos há casos de impaciência, intolerância, mas acho compreensível. O mérito atribuído à minha administração pela recuperação do Flamengo deve ser dividido com a torcida, que foi muito parceira". 

Dívidas

"Tivemos que cortar na carne. A adesão ao Profut foi importante. Duplicamos a receita de cerca de R$ 212 milhões, em 2012. A diretoria criou o programa de sócio-torcedor, que já representa a segunda maior fonte de renda do clube. A revolução não foi apenas na parte financeira. Na área patrimonial, o Flamengo não tinha um Centro de Treinamento. Hoje, tem dois, de primeiro mundo. Na área jurídica, tínhamos mais de 600 ações trabalhistas que foram reduzidas a quase nenhuma no segundo mandato. Na gerencial, o clube é administrado com os métodos mais modernos".

Legado

"Formamos um grande time. Não só os vice-presidentes, que são amadores, como os profissionais. O Flamengo tinha um CEO, um diretor financeiro de altíssimo nível, diretor administrativo. Futebol entregue a profissionais. Esporte Olímpico, com Marcelo Vido, que dispensa apresentações. Cumprimos a promessa de tornar o Flamengo um clube bem administrado. É importante dar o exemplo. Temos 40 milhões de torcedores. Boa parte, pessoas de classes menos favorecidas e que têm o Flamengo como o principal ponto de referência com a realidade. Dentro desses 40 milhões, há muitas crianças. A primeira coisa que aprendem é acompanhar seu time de futebol".

Arrependimento

"Tem muita coisa. Quando se passa seis anos num lugar, claro que você erra muito. Se pudesse recomeçar, faria diferente muita coisa. É assim em qualquer atividade. Acho que trocamos de técnico mais do deveríamos. Poderíamos ter sido mais pacientes ao longo da gestão. É algo cultural no Brasil e a imprensa tem participação. A impaciência talvez venha dali ou é refletida, pelo menos".

Orgulho

"Cada vitória que você consegue é importante. A coisa da base, por exemplo. Sempre fui um entusiasta. O Flamengo era reconhecido pela excelência na formação de atletas na década nos anos 80. Fomos campeões do mundo com oito jogadores revelados no clube. Perdemos essa referência. Quando cheguei, nosso trabalho de base, apesar da qualidade de muitos profissionais, deixava a desejar. Todo investimento feito está rendendo agora, cinco, seis anos depois. Hoje, tenho orgulho de ter departamento de futebol de base com totais condições de trabalho, CT moderno, apoio da comissão técnica, departamento médico... O importante é saber que o resultado é refletido em atletas para o time profissional e que nossa base virou uma máquina de fazer dinheiro, que gera recursos para reforçar o time principal".

Pressão por títulos

"Ganhar títulos é sempre muito bom. Fiquei muito feliz pela conquista daquela Copa do Brasil (2013). O Flamengo contava com jogadores que estavam numa fase excelente, mas não chegava nem perto do time que temos hoje. Tanto é que tivemos dificuldades para não cair para a Segunda Divisão naquele ano... Mas vibrei muito com aquele time de Elias, Brocador".

Cisão com atual gestão

"Aconteceu em 2015, no ano da eleição. Saíram quatro, cinco vice-presidentes. Era um direito deles. No fim do ano, concorreram, mas ganhamos a eleição. O projeto não desandou porque as pessoas que saíram foram substituídas por outras altamente qualificadas e rubro-negras... Existe um distanciamento. Gosto de falar que mantive a tranquilidade durante o processo e nunca ofendi ninguém. Mantive o pensamento de que o Flamengo deve sempre se sobrepor a qualquer interesse individual".

Processo de expulsão

"Acabou dando tudo certo. Tentaram e não conseguiram. Não penso mais nisso, bola para a frente. Quero que o Flamengo ganhe, que tenha o máximo de sucesso. Voltei para a arquibancada, que é o meu lugar, e estou muito feliz. Problema zero". 

Tragédia no Ninho do Urubu

"Foi de longe o episódio mais triste da história do Flamengo. Para mim, foi muito triste porque convivi com essas crianças. No fim do meu mandato, estava colocando medalha no pescoço deles, depois da conquista no sub-15, na Gávea. Sobre a investigação, causas, acho que seria leviano falar. Já não era presidente há 40 dias. E também em respeito ao trabalho da Justiça, do Ministério Público. Tenho certeza de que vão chegar às causas, verdades, responsáveis. Foi triste para mim porque acabei sendo acusado. Com todos os elementos que temos e que foram divulgados, creio que minha inocência será provada. Agora isso para mim é absolutamente secundário em relação ao que de ruim que aconteceu, que foi a tragédia. Por mais que pense que sofri, que minha família sofreu, o clube sofreu, mas nada apaga o que representa a perda dessas crianças e de suas famílias. Tudo o que a gente falar e, inclusive, as conquistas que o Flamengo conseguiu e ainda vai conseguir são secundárias em relação à tragédia".

Negociação com as famílias

"A última coisa que vou querer é faturar politicamente em cima de uma situação dessa. Enquanto fui presidente, fui acusado de várias coisas, faturaram politicamente, com coisas ridículas, como irregularidade em balanço, na venda do Paquetá, contratação de Vitinho... Não estou participando, não sou mais dirigente, não estou acompanhado as negociações, mas torço para que tudo se resolva. Não quero criticar um processo do qual não tenho informações. Torço para que o Flamengo saiba zelar pela sua responsabilidade social, pela sua imagem de clube cidadão e espero que essa situação se resolva. Quem sabe ela está sendo resolvida e a gente não sabe".

 

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