Lula da Raça, lenda da arquibancada rubro-negra, se despede como puxador: 'Gratidão à Nação'

Puxador da Raça Rubro-Negra há mais de 20 anos, Lula encerra o ciclo contra o Vasco, mesmo adversário que marcou o início de sua trajetória

Por Felipe Gavinho e Lucas Oliveira

Puxador da Raça Rubro-Negra há mais de 20 anos, Lula encerra o ciclo contra o Vasco, mesmo adversário que marcou o recomeço de sua trajetória
Puxador da Raça Rubro-Negra há mais de 20 anos, Lula encerra o ciclo contra o Vasco, mesmo adversário que marcou o recomeço de sua trajetória -
Rio - Referência na arquibancada. É assim que podemos definir quem foi Luiz Frederico da Silva Schuh, o Lula da Raça. Hoje, 20 anos após assumir o cargo de puxador oficial da Raça Rubro-Negra, Lula se despede num Flamengo x Vasco, mesmo clássico em que recomeçou a sua trajetória nos anos 2000. Naquela oportunidade, o Rubro-Negro venceu por 4x0.

Tudo começou em 1985, quando Lula, aos 9 anos, foi pela primeira vez ao Maracanã e ficou na geral, exatamente embaixo da Raça. Dois anos mais tarde, em sua segunda ida a um dos maiores estádios da história do futebol, resolveu ir na Raça e viu o Flamengo ser campeão brasileiro de 1987 em cima do Internacional: “Naquele dia fui aprisionado pelo amor rubro-negro.”

Quatro anos depois, em 1991, a mãe de Frederico perguntou o que ele queria de presente de Natal. Na época, o jovem pediu, sem pensar duas vezes, uma carteirinha da organizada, uma camisa e um boné. E então sua mãe fez uma proposta dizendo que se ele fosse bem na escola, daria os presentes. Lula revela como foi o seu desempenho escolar naquele ano. “Eu nunca fui tão bem na escola, no terceiro bimestre já estava aprovado”.
Em fevereiro de 1992, sua mãe, enfim, assinou a ficha de inscrição de matrícula na Raça, já que Lula tinha 16 anos e ainda era menor de idade. Ele recorda e diz que foi inesquecível: “Esse foi um dos melhores da minha vida, me lembro perfeitamente dos detalhes desse momento”.
Puxador da Raça Rubro-Negra há 20 anos, Lula se despede contra o Vasco, adversário que recomeçou sua trajetória - Reprodução


Em 1999, Lula começou a se tornar puxador aos poucos. Ele conta que, na época, o diretor de bateria da Raça sempre liberava um surdo que estivesse com o couro furado para que ele ficasse em pé. Edu, o primeiro puxador da Raça Rubro-Negra, ao ver Lula regendo a torcida ficou muito feliz em saber que essa função estava sendo ressuscitada. Naquele momento, Lula disse ao Edu: “Eu não chegarei ao seu nível, mas prometo que vou me doar ao máximo na arquibancada para que aquilo que você começou seja honrado por mim e pelas próximas gerações”.

Após o Flamengo x Vasco de 2000, pela Taça João Havelange, Lula se tornou oficialmente puxador da Raça Rubro-Negra. Perguntado sobre qual foi o seu jogo mais marcante nesses 20 anos exercendo o cargo, ele elencou 3: Na final do Carioca de 2001, contra o Vasco (Gol do Pet), o título do Brasileiro de 2009 e o 5 x 0 contra o Grêmio na Libertadores de 2019.

A Raça Rubro-Negra é também conhecida como a Torcida dos 90 Minutos. Ela é chamada assim pelo apoio incondicional ao Flamengo durante toda a partida e o empurrar rumo às vitórias. Na época em que o time não tinha tanto investimento e jogadores qualificados como hoje, a única coisa exigência do jogador dentro de campo era justamente a raça do jogador vestindo a camisa do Flamengo. E muitas vezes, mesmo com um elenco inferior, o Flamengo vencia seus rivais pela entrega dos jogadores.
Questionado se torcida ganha jogo, Lula respondeu: “A torcida tem a capacidade de emanar uma energia para o jogador em campo que incorpora na alma do cara e ele se supera. Foi exatamente isso que aconteceu com o Pet em 2001 e na final da Libertadores no ano passado”.
Para Lula, algumas características são fundamentais para ser o puxador da Raça Rubro-Negra e proporcionar a sintonia entre jogadores e torcida: "Amor incondicional pelo Flamengo e entender que o clube te faz transcender para um "mundo rubro-negro", onde só quem é Flamengo sabe como é. Sentir a energia de um torcedor que você nem conhece, que é capaz de te olhar e dizer para cantarmos que assim vamos vencer o jogo".
Desde que assumiu a responsabilidade de reger milhares de vozes no Maracanã, Lula viu o Flamengo dez Estaduais, duas Copas do Brasil (2006 e 2013) e dois Brasileiros (2009 e 2019). Além disso, viu o Rubro-Negro conquistar a Copa dos Campeões, em 2001, e a Copa Libertadores na última temporada. Inclusive, o torcedor revelou uma história curiosa envolvendo a competição mais importante do continente.
Desde que o Flamengo foi eliminado da Libertadores para a Universidad Chile, em 2010, Lula prometeu a si mesmo que não iria mais nenhum jogo do torneio sul-americano até o Rubro-Negro chegar às semifinais. No entanto, quebrou a promessa contra o Emelec, no ano passado, pelo segundo jogo das oitavas de final.
"Fui encontrar dois amigos antes do jogo contra o Emelec para dar um abraço antes da partida decisiva, mas eles me surpreenderam e me deram um ingresso. No começo, eu disse que iria para casa pela promessa feita há nove anos, mas acabei cedendo e entrei no Maracanã para acompanhar a classificação sofrida para próxima fase. Esse jogo foi sensacional".
Após a classificação para as quartas da Libertadores, Lula e mais um amigo compraram a passagem para a grande final, que até então, seria disputada em Santiago, no Chile. Apesar da vitória diante do Emelec, manteve a promessa e não foi ao estádio contra o Internacional. No entanto, contra o Grêmio, não pensou duas vezes e presenciou um dos melhores jogos de sua vida.
"Eu não acreditei na goleada por 5 a 0 contra o Grêmio, por ser uma equipe tradicional, tricampeã da competição e principalmente, por se tratar de uma semifinal. Depois de tantos traumas, estávamos de volta a final da Libertadores. Passei mal, o coração acelerou muito e minha respiração estava ofegante. Eu não acreditava que o Flamengo estava na final da Libertadores depois de 38 anos".
Com a passagem comprada e classificação garantida, tudo parecia perfeito para Lula. No entanto, por conta da mudança do local da final, e da dificuldade em alterar o destino do voo com a companhia aérea, o fanático rubro-negro acompanhou a partida na Praça Mauá, onde foi criado.
"Assisti a final da Libertadores na Praça Mauá. No gol de empate, abracei meu tio, meus amigos e comecei a chorar. Eu nem vi o segundo gol, apenas vi todo mundo gritando. Quando caiu a ficha de que o Flamengo tinha virado o jogo, eu desmaiei no meio da rua. Foi uma emoção simplesmente sensacional".
Questionado se encerraria o ciclo como puxador da Raça Rubro-Negra, caso o Flamengo não conquistasse a Libertadores, Lula foi sincero: "Não. Eu sou de uma geração que só tinha ouvido falar da Libertadores e até zombava dos rivais por ter conquistado, mas eu mesmo nunca tinha sentido a emoção de ser campeão continental. Graças a Deus, ela voltou para nós".
Apesar de estar se despedindo, Lula garantiu que continuará sendo figurinha carimbada do Maracanã. Após 20 anos de muita dedicação ao Flamengo, ele passa o bastão para Eduardo Benfica, que dividiu as responsabilidades como puxador da organizada.
"A gente sempre partilhou desse trabalho. Então, a minha decisão de parar, é para dar devida honra ao Benfica, para dar continuidade ao legado".
Por fim, Lula se despediu da nação rubro-negra e agradeceu pela confiança durante esses período: "Quero agradecer a todos os torcedores que cantaram junto comigo até perder a voz para empurrar o Flamengo a Vitória e títulos. Obrigado por acreditar no meu "Rubro-Negrismo", que desde o ventre da minha mãe já corria em minhas veias e meu DNA já era vermelho e preto. Muito obrigado Nação Rubro-Negra, e ao Jornal O dia por esta oportunidade de contar um pouca da minha história. Deus abençoe a Nação".
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Puxador da Raça Rubro-Negra há 20 anos, Lula se despede contra o Vasco, adversário que recomeçou sua trajetória Reprodução

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