Famílias partidas

Maria Nonato vive com a sensação de vazio no peito: 'Somos uma família partida pela dor da perda de Luciano'

Por bferreira

Rio - Por trás das estatísticas que apontam o aumento de 244% em 10 anos no número de morte de motociclistas no trânsito há milhares de histórias de famílias partidas pela dor da perda. São familiares que convivem diariamente com a dolorosa extensão da imprudência no trânsito. É o caso de dona Maria Nonato, que, desde aquele final de tarde de um Dia das Mães, há seis anos, vive com a insuportável sensação de vazio dentro de si:

Maria Nonato vive com a sensação de vazio no peitoReprodução

- Morreu uma parte de mim. Entro e saio de terapias e o vazio continua lá, rasgando meu peito. Naquele final de tarde, seu filho Luciano, de 23 anos, saiu para levar a namorada em casa. A mãe o lembrou de colocar o capacete: “Ele não gostava e disse que ia pertinho, não precisava. Mas só chegou até à esquina. Um homem bêbado veio pedalando de bicicleta e entrou aqui na rua, na contramão, e bateu de frente com a moto. O Luciano se desequilibrou, caiu e bateu com a cabeça no guidon da bicicleta. Morreu na hora. E a namorada dele também.

Histórias como a de Maria Nonato fazem parte do dia a dia de Maria José da Silva Amaral, fundadora do NAVI (Núcleo de Apoio às Vítimas de Trânsito) e autora do livro “Seguindo a Estrada – trajetórias de perdas repentinas no trânsito”. Maria José perdeu a mãe e a filha ao mesmo tempo, há 12 anos, atropeladas por um ônibus na calçada. Desde então, à frente do NAVI ajudando as famílias de vítimas com apoio psicológico e jurídico, viu crescer o número de acidentes e mortes com motociclistas no trânsito:

- Os motociclistas são vítimas de uma cultura que não valoriza a responsabilidade e o respeito à própria vida e à dos outros. E os familiares são vítimas também, pois ficam totalmente debilitados emocionalmente. Muitas famílias chegam a perder a dignidade e a vontade de viver. São as sequelas que não aparecem nas estatísticas de acidentes, mas que são reais e dolorosas.

“Impunidade é uma violência”

Durante os 10 anos a frente do NAVI (Núcleo de Apoio às Vítimas de Trânsito) vi famílias partidas pela dor da perda ou invalidez de um ente querido e pela impunidade aos criminosos do trânsito. A impunidade é o que mais frustra e adoece vítimas sobreviventes e familiares delas ou de vítimas fatais. Para reverter o crescente número de óbitos de motociclistas no trânsito são necessárias a punição e a conscientização do motociclista de que é vital respeitar as regras de trânsito, pois na moto o corpo é o para-choque.

Maria José Amaral, fundadora do NAVI

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