População da Maré espera pedido oficial de desculpas do governador

Diretor da ONG Observatório de Favelas afirma que operação que deixou nove mortos foi "vingança das forças policiais"

Por tamyres.matos

Rio - Os moradores do Complexo da Maré ainda esperam por um pedido oficial de desculpas por parte do poder público. O diretor da ONG Observatório de Favelas, professor Jaílson Silva, qualificou nesta quarta-feira a operação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) como um "ato de vingança das forças policiais contra a população". A ação do Bope resultou na morte de nove pessoas: um policial do Bope, três moradores e cinco suspeitos.

O professor critica ainda a demora nos reparos da Light depois que os policiais teriam atirado em transformadores de energia elétrica da região. "Não tivemos pedido de desculpas da Light pela falta de responsabilidade em relação aos moradores da Maré, que ficarão sem energia durante mais de 36 horas por uma ação dos policiais", afirma.

Ainda segundo Silva, a comunidade vai realizar um ato ecumênico na porta do Observatório de Favelas na próxima terça-feira, às 15h. Além disso, ocorrerá uma passeata com moradores na região da Avenida Brasil.

Manifestação de moradores da comunidade da Maré em frente à Secretária de SegurançaCarlos Moraes / Agência O Dia

"Na Maré, altura da passarela 9, faremos um ato em memória a essas vítimas desse novo massacre. E faremos o maior ato já realizado em uma favela carioca pelo fim dessas ações de terror do Estado contra a população das favelas. Massacres, nunca mais!", reitera.

As reivindicações da Maré são semelhantes àquelas dos manifestantes da Rocinha que foram até a casa do governador Sérgio Cabral nesta terça-feira.

"Vamos exigir o fim das incursões desse tipo nas favelas, acabando com o uso de Caveirões e fuzis; vamos exigir a desmilitarização das polícias, vamos exigir a responsabilização judicial e política do Secretário de segurança, do Governador e dos comandos militares por novas mortes; vamos exigir que o uso do dinheiro público gasto na favela seja definido pelos seus moradores - pois é um absurdo gastar-se dois bilhões e meio no Alemão e na Rocinha, por exemplo, e não resolver-se o problema do saneamento", diz o texto postado pelo diretor da ONG no Facebook.

Protesto na Central

Cerca de 40 pessoas realizam manifestação, na manhã desta quarta-feira, em frente à Secretaria de Segurança, na região da Central do Brasil. O objetivo do grupo é protestar contra a ação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) na Favela Nova Holanda, no Complexo da Maré.

Policiamento foi reforçado na região da Central do BrasilCarlos Moraes / Agência O Dia

A ação reúne estudantes e moradores da comunidade. Eles reclamam da truculência da polícia, que teria agredido trabalhadores. A estudante de Pedagogia Shirley Rosendo, de 29 anos, disse que ficou surpresa com o despreparo dos militares.

"Muita gente foi agredida, moradores apanharam da polícia. Temos relatos de que há mais mortos do que o divulgado pela PM. Algumas pessoas desapareceram e ainda não foram encontradas", afirmou.

Ela contou ainda que policiais do Bope teriam atacado suspeitos com facas, para evitar que o barulhos dos tiros alertasse os traficantes. Em entrevista à Rádio CBN nesta quarta, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, disse que desconhece o assunto.

"Ao que sei, preliminarmente, não há esse tipo de notícia. Não fui informado disso. Mas vamos apurar e ser transparentes", afirmou.

Militares estão posicionados na entrada da Secretaria. O ato foi pacífico.

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