Rio - Na sepultura 685 do Cemitério Municipal de Petrópolis, na Região Serrana, estão os restos mortais de Francisco José Alves Souto Filho. De família rica, ele morreu com apenas três meses de idade, por congestão pulmonar, em 1872. Sem explicação, seu túmulo até hoje é cultuado por pessoas que atribuem milagres a Francisquinho, como também é conhecido. Durante o ano inteiro, pais que acreditam que os filhos tenham obtido curas de doenças graves por intercessão do menino depositam brinquedos e moedas sobre a pequena lápide, em sinal de fé e agradecimento.
O ‘Anjinho de Petrópolis’ é um dos chamados santos de cemitérios, que vêm ganhando fama desde que o processo de canonização de Odetinha (Odette Vidal de Oliveira) começou no Rio. Ela, a quem também se atribui graças e que pode ser a primeira santa carioca, morreu aos 9 anos, de meningite, em 1939. Seu jazigo era um dos mais visitados do Cemitério São João Batista, em Botafogo, até janeiro, quando seus ossos foram levados para a Igreja de Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado.
“Os santos de cemitérios têm característica peculiar: são frutos da devoção popular em seu estado mais simples, que santifica determinada pessoa a partir do culto e da reverência de sua sepultura, uma espécie de templo para os devotos”, ressalta Lauro de Sá Barretto, advogado e pesquisador da beatificação de Odetinha e Padre Cícero.
Segundo Barretto, a cultuação espontânea, desprovida de estudos, que vai se firmando no imaginário popular, raramente desperta a atenção da Igreja Católica. Odetinha seria uma das primeiras. Objetos e até moedas deixadas nos túmulos, conforme diz Barretto, dimensionam o tamanho da admiração por parte dos fiéis. Junto aos restos mortais de Odetinha, por exemplo, foi encontrada certa quantidade de moedas.
“Encontramos moedas de diferentes épocas, até dos dias atuais. É um gesto antigo, que demonstra a relação de veneração e santidade”, explicou o vigário episcopal Dom Roberto Lopes, na exumação de Odetinha, no início do ano. “Trata-se de ‘sensus fidelium’, ou seja, esse tipo de atitude é um parecer do povo sobre a santidade em relação a algum morto”, diz Barretto, que lança em abril do ano que vem o livro ‘Menina Odetinha e Padim Padre Cícero/Breve estudo sobre duas santidades bem diferentes’.
Dramas estimulam culto às vítimas
?Em algumas situações, o culto a santos de cemitérios é incentivado pela tragédia ou doença que envolveu a morte do cultuado. No Dia de Finados, o túmulo de Paulo César de Souza Medina, o Paulinho Milagreiro, que morreu afogado, aos 8 anos, em 1972, na Lagoa de Piratininga, voltou a bater recorde de visitações no Cemitério do Maruí, em Niterói.
Maria Francelina Trenes, decapitada pelo namorado em 1899 e que passou a ser conhecida como Maria Degolada, é uma das ‘santas’ mais queridas dos gaúchos. Chamada de mártir milagrosa, ela tem até capela em sua honra.
Em São Paulo, no Cemitério São Pedro, em Vila Alpina, é famosa a veneração pelas ‘13 almas benditas do Edifício Joelma’. Lado a lado, os 13 túmulos das vítimas encontradas sem identificação num elevador do prédio destruído por incêndio em 1974 atraem intensa peregrinação.
Também é muito conhecido o caso do menino Antônio da Rocha Marmo, que morreu de tuberculose aos 12 anos, e posteriormente foi ‘santificado’ pelos paulistanos. É conhecido como o ‘Santo do Povo’.
Odetinha já é Serva de Deus
Depois de muito clamor popular, a Arquidiocese do Rio deu início ao processo de beatificação e canonização de Odetinha em janeiro. O arcebispo do Rio, Dom Orani João Tempesta, diz que não há prazo para que a Igreja a considere santa. “É um longo processo”.
Os trâmites em Roma são controversos. Enquanto Odetinha, de família portuguesa rica, já é Serva de Deus, Padre Cícero, no Ceará, não chegou ainda ao posto.
Casos vão ganhar projeção no cinema e em livros
Histórias de crianças veneradas após a morte e seus supostos milagres, além de transformar túmulos em pontos de peregrinação, também servem de inspiração para filmes, documentários e livros. Enterrada no Cemitério de Inhaúma, a história de Tânia Maria Coelho Araújo, a Taninha, assassinada aos 4 anos por Neide Maia Lopes, amante de seu pai, em 1960, é o ponto de partida do filme ‘O lobo atrás da porta’, com Leandra Leal. Neide ficou conhecida como a ‘Fera da Penha’.
O caso da brasiliense Ana Lídia Braga, violentada e morta em 11 de setembro de 1973, ainda está enraizado na memória da população da capital federal. Ela foi raptada na escola e encontrada morta no dia seguinte. Os mistérios do nebuloso crime, até hoje não esclarecido, estão prestes a virar documentário. Imagens de seu jazigo, sempre com flores, bonecas, velas, fotos, terços e bilhetes de agradecimentos, farão parte do cenário.
Em Petrópolis, relatos de supostos milagres em torno de Francisquinho não são raros e começaram a ser coletados pelo pesquisador Lauro de Sá Barreto para futuro livro.
“Já consegui emprego para dois parentes”, atesta a servidora Mariza Gomes. “Nos momentos difíceis, conto sempre com Francisquinho”, garante a dona de casa Elisabete da Silva, 48 anos.
‘Anjinho’ pode ter sido neto de amigo de Dom Pedro I
?As pesquisas de Lauro de Sá Barretto têm revelado curiosidades. No caso do ‘Anjinho de Petrópolis’, as informações colhidas até agora apontam que ele pode ter sido neto bastardo do Visconde Souto (Antonio José Alves Souto), primeiro banqueiro do Brasil, amigo de Dom Pedro II.
“Isso explicaria porque nos registros oficiais do cemitério só consta o nome do pai. Mas na lápide, o nome de Maria Luiz Silva Souto como mãe, bem diferente do nome da esposa de Francisco, Maria da Lapa de Salles Oliveira (de Salles Souto, após o casamento). Ou Francisco teria tido ‘Anjinho’ quando ainda era solteiro, ou ele já dava suas ‘puladinhas de cerca’”, comenta Barretto.
No imaginário popular, há espaço também para ‘santos’ inusitados e até idosos. Em Santa Catarina, o município de Lages abriga a tumba da cigana grega Sebinca Christo, que morreu com 79 anos, em 1965. Nômade, fumante e apreciadora de vinhos, ela atrai milhares de devotos ao Cemitério Cruz das Almas, quase meio século depois de sua morte.




