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Medo de nova tragédia ainda assombra o Morro do Bumba

Prédios erguidos após deslizamento que matou 267 pessoas em 2010 já têm rachaduras

Por thiago.antunes

Rio - Para quem sobreviveu às chuvas e deslizamentos de encostas em Niterói, não basta a dor causada pela perda de parentes ou por ver todo seu patrimônio soterrado. Mesmo depois de reassentados, sobreviventes da tragédia do Morro do Bumba, que matou 267 pessoas em abril de 2010, ainda sofrem os horrores de viver em situação de risco no conjunto habitacional Viçoso Jardim. Inaugurado em janeiro para abrigar 147 famílias vitimadas, o condomínio abriga 600 moradores em 180 apartamentos. Destes, pelo menos 20 já apresentam rachaduras e infiltrações.

Pelas vielas formadas nos espaços entre os nove blocos, espalha-se outro temor dos tempos do morro: o tráfico remanescente no Bumba age livremente, implantando “gatos” de energia e TV a cabo. Nas janelas e fachadas dos prédios, pode-se ver marcas de disparos. “O que fazer?”, lamenta um morador. Embora os engenheiros da Defesa Civil indiquem que as fissuras nas paredes “são fruto da acomodação natural dos imóveis” e não apontem iminência de queda dos edifícios, a rápida deterioração das construções causa outros percalços.

Além dos que já foram entregues%2C um novo conjunto de prédios está sendo construído no Morro do Castro. Mas%2C por falhas estruturais e de drenagem%2C dois já foram demolidosAlexandre Vieira / Agência O Dia

“Em dias de chuva, a água invade a sala da minha casa pelas rachaduras nas paredes e chega a dez centímetros de altura. A fiação elétrica já foi atingida”, conta a dona de casa Digessi Nicolau. Com medo de choques nos temporais da última semana, ela, os dois netos e a filha passaram as madrugadas encurralados em uma cama de casal. Da janela, a poucos metros, ela se vê de frente para outra imagem que causa medo e remete aos anos em que morou no morro: uma encosta vive a iminência de deslizamento: “Quando vim para cá, pensei que o meu medo das chuvas estava acabando. Pelo jeito, é a sina de quem mora no Bumba”. Segundo a Secretaria Estadual de Obras, o reparo na encosta foi iniciado este mês e deve ser concluído até março.

O condomínio, construído no lugar de uma antiga garagem de ônibus, sofreu pelo menos dois adiamentos no prazo de entrega e custou R$ 14 milhões. Durante as obras, moradores chegaram a realizar protestos contestando a lista de beneficiários que, de acordo com eles, contava com nomes repetidos. Trinta e quatro famílias que sofreram com deslizamentos no Morro do Céu completaram a lista de beneficiários, a pedido do Inea.

A moradora Digessi Nicolau diz que a água%2C em dias de chuva forte%2C entra pelas rachaduras e inunda sua casaAlexandre Vieira / Agência O Dia

Bloco em construção teve dois prédios demolidos

Se apesar da precariedade, os sobreviventes da tragédia no Morro do Bumba já foram reassentados, 89 famílias, vítimas de outros deslizamentos da mesma época, ainda se encontram no alojamento montado no 3º Batalhão de Infantaria, na Venda da Cruz. O local, construído em caráter provisório, é alvo de denúncias. “Já recebemos comida estragada, convivemos com inundações de esgoto em dias de chuva. Muitas famílias dividem o mesmo banheiro”, diz a moradora Adriana Cláudia, que está desde maio de 2010 no local.

Ela e as outras famílias aguardam a conclusão das obras do Conjunto Zilda Arns, no Morro Castro, onde serão reassentados. O condomínio também é foco de irregularidades. Por apresentarem rachaduras em sua estrutura por falhas nas obras de drenagem, dois dos 11 blocos previstos inicialmente foram demolidos. Em nota, a Caixa Econômica Federal informa que os blocos demolidos não serão reconstruídos e que, por isso, houve redução no custo do projeto. Ainda não há previsão para entrega das obras. Segundo a Caixa, o prejuízo foi pago pela seguradora do empreendimento.

No detalhe%2C a marca de um tiro na janela%3A tráfico ainda age no localAlexandre Vieira / Agência O Dia

Alojamento provisório... há 4 anos

Embora não exista prazo definido para que os prédios do novo Condomínio Zilda Arns sejam entregues, as famílias que ocupam o 3º Batalhão de Infantaria devem deixar o local em breve. A Prefeitura de Niterói propôs um acordo a elas, no qual serão pagos R$ 800 no ato e parcelas de R$ 600 até que as obras estejam prontas, para que possam pagar aluguéis. As vítimas já contam com R$ 400 mensais. Como publicado nesta quarta pelo ‘Informe do DIA’, irregularidades na compra de comida para os desabrigados fizeram com que o então prefeito da cidade Jorge Roberto da Silveira fosse multado pelo TCE.

O uso do dinheiro público com empreendimentos imobiliários, alojamentos e aluguéis às vítimas fez com que o vereador Henrique Vieira (Psol) propusesse a “CPI dos Desabrigados”, na Câmara Municipal de Niterói. “Não é aceitável que um alojamento provisório abrigue pessoas por quatro anos. Isso envolve custos associados a irregularidades. Criou-se uma indústria do abrigo. Queremos apurar a veracidade dos aluguéis sociais, a política de gastos nos alojamentos e encontrar os culpados pela demora na solução”, diz. Ele garante que, somente em alimentação, houve superfaturamento de R$ 2 mil por dia, em contratos que somam R$ 4 milhões.

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