Estratégias para quem tem de suar no trabalho em pleno verão
Banhos, refúgio em câmara frigorífica e ‘balas’ de gelo: vale tudo para despistar o calor de 40°
Por bianca.lobianco
Carlos Henrique Santos%2C responsável por pilotar o braseiro de um restaurante da Lapa%2C confessa que calor desanima e faz lembrar da seca do Nordeste. João Laet / Agência O Dia
Rio - Há menos de duas semanas, o verão começava com mormaço e uma frustrada tentativa de topless coletivo nas areias de Ipanema. O primeiro dia dava a impressão de que esta seria uma estação abaixo das expectativas de cariocas e turistas. Ledo engano. Sob sol a pino e temperaturas superiores a 40º, banhistas lotam as praias da cidade desde então. Diante do calor ‘senegalês’ que não poupa ninguém, trabalhadores que não podem largar o batente sofrem e buscam alternativas para driblar as incômodas gotas de suor.
Há quatro anos trabalhando como churrasqueiro de um restaurante na Lapa, o paraibano Carlos Henrique Santos, 21 anos, confessa nunca ter se adaptado à proximidade com o braseiro. “No verão o bicho pega. Tomo pelo menos cinco banhos por dia no banheiro do restaurante e bebo muita água. Resisto firme e forte, mas confesso que em dias mais quentes é difícil levantar da cama sabendo que vou encarar a brasa por oito horas seguidas”, diz, enquanto serve mais um galeto.
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Com o inseparável pano usado para limpar o suor — que teima em escorrer do rosto — no ombro, o irreverente churrasqueiro se diverte ao falar daquele que considera o único benefício de trabalhar no calor. “As lembranças da minha infância na seca nordestina voltam à memória”, diz, às gargalhadas.
Se para ele a temperatura encontrada no ambiente de trabalho lembra o triste cenário nordestino, para outros a ‘fuga’ remete aos Alpes suíços. A poucos metros dali, na Central do Brasil, o entregador de gelo Geraldo Costa Filho se refestela na câmara do depósito no qual trabalha. O local, mantido a -15º, é fuga diária dele e dos colegas de trabalho entre uma entrega e outra.
Geraldo é um privilegiado no verão%3A entrega gelo e vai com frequência ao depósito da firma%2C no Centro%2C onde registram-se ‘polares’ -15ºJoão Laet / Agência O Dia
“Não troco isto aqui por nada. Nas noites mais quentes, meus familiares chegam a pedir para dormir aqui!”, confessa. Porém, a permanência no local requer cuidados. “Quando chegamos da rua, esperamos um pouco para entrar, pois existe o risco de choque térmico. Além disto, evitamos permanecer aqui dentro por mais de 20 minutos”, explica.
Mas para quem trabalha num ‘oásis de gelo’ cravado no coração do “purgatório da beleza e do caos”, não há por que sofrer com calor. Enquanto pedala para um dos 60 endereços aos quais entrega água diariamente, o também entregador José Cassiano revela como manter o conforto. “Ponho pedrinhas de gelo dentro da camisa e chupo enquanto ando. Jeitinho carioca, pô”, sintetiza.
‘Alta estação’ da refrigeração
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O forte calor não aumenta apenas as temperaturas registradas pelos termômetros da cidade. Empresários do setor automotivo comemoram alta de até 100% nos serviços de manutenção e conserto de ar-condicionados dos veículos. “A vistoria deve ser feita uma vez ao ano. Quando o calor aperta e o frescor se faz necessário, todos querem o serviço”, diz o empresário André Costa.
A ‘alta estação’ faz com que os preços subam. Entre dezembro e março, uma simples recarga de gás chega a custar R$ 120. Valor 20% maior do que o cobrado durante o ano.
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Quem não curte calor não vai gostar: de acordo com meteorologistas, as altas temperaturas e a baixa incidência de chuvas devem ser a marca deste verão. “Um bloqueio atmosférico (uma zona de ar quente) entre o Nordeste e o Sudeste faz com que o calor se mantenha no Rio de Janeiro. Pode haver tempestades, mas devem ser isoladas”, explica o meteorologista do Climatempo Marcelo Pinheiro.
Para os próximos dias, a previsão é de diminuição da temperatura, apesar do clima seco e termômetro marcando pelo menos 30º. “Amanhã (hoje) teremos sol e céu limpo. No sábado e no domingo, a chegada de uma frente fria deve manter a temperatura em, no máximo, 36º, com pancadas de chuva durante a tarde. No entanto, altas superiores a 40º devem ser registradas na próxima semana.
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Após o feriado, orla mais limpa
No primeiro dia útil do ano não houve esvaziamento das praias do Rio. Do Leme ao Pontal, cariocas e estrangeiros lotaram a faixa de areia e aproveitaram o calor do Astro-Rei. Com as praias mais limpas do que no dia 1º — quando muitos banhistas se queixaram do serviço de limpeza, que deixara oferendas e sujeira nas águas e na faixa de areia —, grande parte dos cerca de 760 mil turistas na cidade se divertia.
Parece domingo%2C mas era o primeiro dia útil de 2014%3A Arpoador ficou apinhado de banhistasEfe
Entre os cariocas, a preocupação com o dia de praias lotadas não era a incidência do sol: “Com alto número de turistas, minha preocupação com possíveis arrastões aumenta”, disse a advogada Letícia Ribeiro.