Por bianca.lobianco
Rio - Todos os tiros que atingiram a multidão no Réveillon de Copacabana partiram da arma roubada de um policial pelo pedreiro Adilson Rufino da Silva, 34. Doze pessoas ficaram feridas, sendo dez baleadas. De acordo com o delegado José Willian de Medeiros, que conduzia as investigações (foi exonerado ontem da 12ª DP por confusão na guarda de documentos perdidos), dois PMs fizeram seis disparos, contabilizados em depoimentos, que só atingiram o pedreiro ciumento.
“Todos foram baleados pela arma que Adilson roubou”, disse o delegado. Rufino segue internado em estado grave no Hospital Miguel Couto, na Gávea. É acusado de tentativa de homicídio e lesão corporal à mulher. Ele sofreu fraturas no braço e antebraço, na perna e na bacia, e teve perfuração do fígado com hemorragia.
O local onde ocorreu o tiroteio durante a virada do ano%2C em Copacabana%3A 12 pessoas feridas após marido ciumento roubar a arma de um policialJoão Laet / Agência O Dia

Na conturbada relação de amor e ódio entre a diarista Rozilene de Azevedo, 37, e o pedreiro, o perdão sempre foi o combustível de uma tragédia anunciada. Para vizinhos e parentes, as brigas faziam parte do casamento, embora Rozilene nunca tenha denunciado os fatos.

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Em depoimento na DP, Rozilene contou que “Adilson não estava em seu estado normal, parecendo estar sob efeito de drogas” e que “já viu por diversas vezes Adilson com um pó branco que acredita ser cocaína”. A diarista disse também que a discussão começou depois que ela fez um comentário com um amigo de que “o clima estava pesado”. Ela então foi enforcada pelo marido com o braço, sendo arrastada pela rua, até que pediu ajuda a um policial.
“Ela mora aqui desde que nasceu. O Adilson é um cara legal, mas quando bebe e usa drogas, começam as brigas e ele bate nela. Ela não pede ajuda porque ele já a ameaçou. Disse que se ela se separar, ele vai matá-la”, contou um vizinho do casal.
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Um parente da família afirmou que os gritos de socorro sempre eram ouvidos pelos moradores da rua. “Ele batia nela pelo menos duas vezes por mês. Além disso, ele já agrediu um filho, também tentando inforcá-lo, e um outro parente. O problema é que, depois de tudo, ela sempre o protegia.”
As próprias versões de Rozilene dão indícios de uma relação conturbada do casal, que está junto há 14 anos, e tem dois filhos: um de 9 anos e outro de 13.
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Ontem, ao tentar visitá-lo, ela discutiu com PMs que dificultaram sua entrada, mas disse não se arrepender de pedir ajuda aos PMs: “Poderia ter acontecido algo pior”. A mulher informou que vai buscar um defensor público para conseguir autorização oficial para visitas.
Cinco policiais tentaram conter o atirador
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Entre os depoimentos considerados mais importantes para esclarecer a dinâmica do tiroteio, estava o do comandante do 19º BPM (Copacabana), tenente-coronel Ronal Langres Santana. Ferido no joelho durante a ação, ele compareceu ontem pela manhã à delegacia.
“O depoimento do tenente-coronel foi o mais esclarecedor. Ele tentou acalmar a situação, aparentemente de Lei Maria da Penha. Todos os PMs foram ouvidos e agora estamos correndo atrás das imagens de circuitos de prédios. Caso alguém tenha algum vídeo, pedimos que tragam à delegacia”, pediu ontem o delegado José William.
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Nos depoimentos, os envolvidos contaram que cinco PMs tentaram conter, em vão, o acusado, que ainda desferiu socos contra um cabo, sem, conseguir atingí-lo. Então, Adilson teria pego a pistola do cabo Fagner, do 39º BPM (Belford Roxo), arrebentando o coldre, e feito os disparos.

Rozilene diz entender erro do marido

Após a queixa de agressão%2C Rozilene diz que Adilson é bom pai e maridoGabriel Sabóia / Agência O Dia

Primeiro alvo da fúria de Adilson, a diarista Rozilene afirmou ter entendido a atitude, mesmo que violenta, do marido. Ontem, após visitá-lo no Hospital Miguel Couto, na Gávea, ela voltou a criticar a ação dos policiais.

“Eu entendo o erro do meu marido, que estava exaltado e discutindo comigo. Mas os policiais erraram no momento que deram os tiros. Era uma grande festa e não era para terem usado armas de fogo. Querem jogar na conta do meu marido, mas graças a Deus a verdade está vindo à tona. Já sei que os tiros que atingiram as vítimas saíram das armas dos PMs”, ressaltou ela, dizendo que Adilson pediu desculpas “por ter estragado o Réveillon” dela e dos filhos.

A psicóloga clínica Eda Fagundes, especializada em terapia de família, diz que casos como o de Rozilene são comuns devido ao medo. Para ela, a diarista precisa de apoio psicológico.“Elas acabam ameaçadas de diferentes formas e vão desenvolvendo uma relação de submissão (ao marido)”, observou Eda.


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