Mulher que denunciou tortura de menor diz estar sendo ameaçada pela Internet

Em depoimento, Yvone Bezzerra revelou que 'está de saco cheio da sociedade'. Delegada procura adolescente para identificar grupo de 'justiceiros'

Por O Dia

Rio - Yvone Bezzerra de Melo, coordenadora do Projeto Urerê, que ajudou o menor torturado por um grupo de jovens no Flamengo, disse estar sendo ameaçada pela Internet. Em depoimento, na tarde desta quarta-feira, na 9ª DP (Catete), Yvone afirmou que 'está de saco cheio dessa sociedade'. "Estou sendo ameaçada por várias pessoas e acusada de estar defendendo bandido. Estou de saco cheio dessa sociedade, p*** que pariu", desabafou à imprensa. 

'Estou cansada dessa sociedade. P*** que pariu'%2C desabafou Yvone em delegaciaFabio Gonçalves / Agência O Dia

A delegada-titular da 9ª DP, Monique Vidal, revelou que Yvone foi chamada por um vizinho para socorrer o adolescente. "Segundo ela, PMs estavam por perto, mas ela já havia acionado os bombeiros, que levaram o rapaz para o hospital". Sobre o grupo 'Justiceiros do Flamengo', Vidal afirmou que a polícia trabalha para identificar os agressores do menor. "Estamos investigando e tentando identificar os reponsáveis. Procuramos os garotos que fazem parte da gangue e o adolescente que é vítima e infrator, já que ele tem duas passagens pela polícia, para ajudar a reconhecê-los".

Vidal ainda condenou os justiçamentos feito pelo grupo. "Ninguém pode fazer isso, prender uma pessoa a um poste. É trabalho da polícia, que deve ser acionada em qualquer caso". Sobre os assaltos recorrentes no bairro da Zona Sul, Vidal afirmou que é preciso estender o patrulhamento na região. "É o trabalho da Polícia Militar que precisa ser ampliado", finalizou.

Suspeitos foram presos

Os "Justiceiros do Flamengo" foram presos na madrugada da terça-feira e encaminhados à 9ª DP. Os suspeitos estavam na pista de skate do Parque do Flamengo quando foram surpreendidos pelos policiais.

Jovem foi preso pelo pescoço por uma trava de bicletaReprodução Internet

Os presos maiores de idade foram autuados por formação de quadrilha e corrupção de menores. Já os menores de idade foram enquadrados por formação de quadrilha. Eles pagaram fiança e foram liberados. Segundo moradores, o grupo vem atuando no bairro desde o ano passado. Eles agridem e torturam pessoas que julgam suspeitas.

A imagem chocou organizações sociais, usuários do Facebook e moradores da área, que reconheceram o menor como um assaltante da região. Segundo a autora da foto, a coordenadora do Projeto Uerê, Yvonne Bezerra de Mello, que é moradora do bairro, o garoto foi encontrado por volta das 23h, na sexta-feira, próximo à esquina das avenidas Oswaldo Cruz e Rui Barbosa, com um corte na orelha e marcas de tortura nas costas.

Ele teria dito que um grupo de três motoqueiros mascarados, intitulados de “Os justiceiros”, foi o responsável pela agressão. Um amigo que estaria com ele também teria sido espancado, mas não foi localizado. O adolescente, que precisou da ajuda de bombeiros para se libertar do local, foi levado para o Hospital Souza Aguiar. Em uma das fotos divulgadas, o menino aparentava chorar.

O fato dividiu opiniões na página na rede social da artista plástica. Enquanto muitos apoiaram a atitude de Yvonne de resgatar o jovem, outros criticaram a iniciativa. Em um dos comentários, um internauta postou que o fato foi “simbólico” porque, se a polícia não faz seu papel de prender, a população faz. Já outro afirmou que também poderia ter sido a vítima, porque é negro, morador da região e frequentemente não usa camisa.

“Muitas pessoas me mandaram mensagem com aqueles argumentos do tipo ‘está com pena, leva para casa’. Mas, se ele assaltava, a polícia tinha que ter prendido. O que não posso aceitar é que, em um bairro residencial, tenha acontecido isso”, disse Yvonne.

Caso ganha repercussão internacional

O site do tabloide britânico 'Daily Mail' destacou nesta terça-feira a imagem do rapaz com o título: "Vigilantes brasileiros pegam 'ladrão' e usam trava de bicicleta para prendê-lo pelo pescoço em um poste (após deixá-lo nu)". Na reportagem, o jornal destaca a atitude de algumas pessoas nas redes sociais, que apoiaram a violência contra o jovem.

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