Rio - "Mata, mata, eles estão querendo me roubar. Não é policial nada", foram essas palavras que contribuíram para a morte do policial do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) Sidney Simão, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, na manhã do último domingo. De acordo com o delegado Pedro Medina, titular da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF), o assassino de Simão se entregou nesta sexta-feira após os policiais terem ido a nove endereços em vários pontos do Rio.
Segundo Medina, Aníbal João Valente Júnior, estava escondido em um hotel na Barra da Tijuca, na Zona Oeste, e só se entregou porque viu o cerco fechando sobre ele. Ainda de acordo com o delegado, Aníbal efetuou cinco disparos contra o PM. Lucas de Souza Cândido, de 19 anos, e Peterson Pereira de Souza, de 36, outros dois envolvidos na morte do policial, estão foragidos.
Dinâmica do crime
De acordo com relatos, Lucas havia atropelado um idoso e não parou para prestar socorro. O policial viu a cena e o perseguiu até um posto de gasolina, exigindo que Lucas prestasse socorro. Aníbal estava no local junto com Peterson, quando viu o jovem sendo abordado pelo policial do Bope. Segundo Medina, Lucas é amigo do filho do assassino.
O delegado afirmou que Aníbal apontou a arma para Sidney, que teria se identificado como policial do Bope. Mesmo a vítima se apresentando, Lucas incitou que Aníbal matasse o PM. Após efetuar os disparos, Aníbal pegou a arma da vítima e Peterson roubou o dinheiro que estava na carteira. Em seguida, Peterson tentou se livrar do objeto. Dos cinco disparos efetuados, um atingiu um poste e por pouco não acertou um padeiro que também perseguia Lucas para que ele prestasse o devido socorro à pessoa atropelada.
"Mesmo o policial se identificando, o Aníbal não teve piedade e atirou a sangue frio. O Lucas é co-autor e influenciou o Aníbal a atirar", disse Pedro Medina. Anibal responderá pelo crime de homicídio qualificado, em relação a Sidnei, e homicídio tentado, em relação ao funcionário da padaria. Lucas e Peterson, que estão sendo procurados, responderão por participação no homicídio. Anibal e Peterson responderão, ainda, por furto qualificado.
'Meu irmão foi morto porque foi confundido com um ladrão'
O irmão da vítima, o locutor Flávio Simão, de 41 anos, afirmou que a ex-esposa de Aníbal foi até a delegacia e pediu perdão à família do policial morto. "Ela se ajoelhou e me pediu perdão. Disse que não era a intenção do ex-marido. Ela afirma que ele agiu de cabeça quente. Aceitei o perdão dela, mas não do Aníbal, que executou meu irmão primeiro, para depois perguntar se ele era policial". Muito abalado, Flávio acrescentou: "Meu irmão foi morto porque foi confundido com um ladrão e também por ser negro, estamos arrasados".
José Júnior divulga carta sobre a morte de seu segurança
Ainda abalado pela morte do seu segurança e amigo, José Junior, coordenador da ONG do AfroReggae, divulgou um texto que expressa a dor deste momento que está vivendo. Confira na íntegra.
Choro por um cara do Bope
Já chorei pela perda de muitas pessoas: parentes, amigos, artistas, ídolos, pessoas que nunca vi, mas nunca antes chorei por um policial do Bope. Muito abalado,
Descobri que as lágrimas e a dor são as mesmas. O vácuo que fica é igual ao de qualquer pessoa que parte e deixa saudades. Engraçado que as pessoas parecem achar normal um cara, por se vestir de preto, ser morto. É como se fosse normal elas terem uma certa insensibilidade. Talvez eu também achasse, há dez anos, mas, nesses últimos cinco dias, a nossa instituição, nossa equipe de segurança e a Core estamos muito entristecidos. Devo ressaltar que todos, inclusive aqueles que foram da "vida errada", estão arrasados com a perda do nosso amigo e irmão.
Simão, ou melhor, Neném - como a sua mãe gosta de chamá-lo - era um excepcional filho/irmão/pai/noivo/amigo/policial e o último item era segurança do "José Junior". Não vamos dar valor a esse item, porque ele era muito mais do que meu segurança.
As imagens que eu vi, e que provavelmente serão divulgadas, são de uma covardia e maldade absurdas. O que fizeram ao Cabo Sidnei Dias Simão irá chocar aqueles que amam o próximo e respeitam os Direitos Humanos. Nosso amigo rastejou pra viver. Ele morreu na sua hora de folga, para ajudar um idoso. Simão, para mim, é um herói! Um cara inesquecível que vou carregar para o resto da minha vida como Vladmir, Bigu, Evandro, Rafael e tantos outros.
Quem diria que um dia “o cara" do AfroReggae iria chorar por um caveira. Pois é, esse dia chegou há cinco dias, e desde então ele não para de chorar.
As crianças mais novas perguntaram por você e eu disse que agora você estava cuidando da gente lá do céu.
Do amigo de hoje e sempre,
José Junior.




