Cardeal Dom Orani também será bispo de igreja em Roma

Nesta segunda-feira, brasileiro vai presidir celebração no local onde estão restos mortais de São Sebastião

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Rio - Titular de uma das mais importantes arquidioceses do país, Dom Orani João Tempesta aguardou quase cinco anos para virar cardeal. A ascensão ao cardinalato do arcebispo do Rio costumava ocorrer com muito mais rapidez. Mas a espera foi recompensada. Sua promoção ocorreu numa cerimônia histórica e inédita, que contou com a presença de dois papas: Francisco e o emérito, Bento XVI, que renunciou ao cargo no dia 28 de fevereiro do ano passado. “Dois papas e a presidenta”, destacou Dom Orani, ontem à noite, em recepção na residência do embaixador brasileiro na Santa Sé, numa referência à ida de Dilma Rousseff ao Vaticano. Como cardeal, Dom Orani passará também a ser bispo de uma igreja de Roma — a escolhida pelo Vaticano foi a de Santa Maria da Divina Providência.

>>> GALERIA: Dom Orani recebe do Papa Francisco título de cardeal no Vaticano

O veterano Papa Emérito, de 86 anos, quase roubou a cena na festa dos novos cardeais. Em sua primeira aparição pública desde que passou a viver recolhido, Bento XVI foi muito aplaudido ao entrar na Basílica de São Pedro e recebeu abraços de todos os 19 bispos que chegaram ontem ao cardinalato. “Fui até ele manifestar meu agradecimento. Foi ele que escolheu o Rio para sede da Jornada Mundial da Juventude”, disse Dom Orani. Francisco cumprimentou o antecessor duas vezes.

Dom Orani teve dia de estrela%2C requisitado por uma fila de pessoas que queriam tirar foto com ele. Sobre como se sentia todo de vermelho%2C brincou%3A ‘Não sei%2C não fiErnesto Carriço / Agência O Dia

Durante a criação — esta é a palavra usada pela Igreja para definir o ato — dos novos cardeais, Francisco fez um apelo pela paz e contra a perseguição e a discriminação. Citou especialmente os perseguidos por conta de suas convicções religiosas. “Invocamos a paz e a reconciliação para os povos que, nestes tempos, vivem provados pela violência, a exclusão e a guerra”, afirmou.

Na cerimônia, foi lido trecho do Evangelho de São Marcos em que Jesus enfatiza a necessidade de seus seguidores não se preocuparem com a glória: deveriam se concentrar na prestação de serviços à humanidade.

'Não dá pra pensar muito'

Mais tarde, ao chegar para receber cumprimentos no auditório Paulo VI, ao lado da Basílica de São Pedro, Dom Orani disse que não teve nenhum pensamento especial ao receber o barrete e o anel cardinalícios. “Não dá pra pensar muito naquela hora”, justificou. Bem-humorado, brincou ao ser perguntado sobre como se sentia todo vestido de vermelho. “Não sei, não fico olhando pra mim ...”

Hoje, todos os novos cardeais participarão de missa na Basílica de São Pedro. Amanhã, Dom Orani presidirá celebração na Igreja de São Sebastião, em Roma, onde estão os restos mortais do padroeiro do Rio. Depois, embarcará para o Brasil, onde chegará na manhã de terça. Ao chegar ao Rio, visitará a Igreja Cristo Redentor, em Bonsucesso. Às 18h, estará em missa solene na Catedral Metropolitana.

Mais de 300 brasileiros vieram a Roma para as cerimônias deste fim de semana. Em torno de 30 não conseguiram entrar na Basílica na manhã de ontem — a fila começou pouco depois da 7h, quatro horas antes da hora marcada para a celebração. Entre os barrados, que tiveram que se contentar com telões, estava o advogado Sérgio Bermudes. Acompanhada por uma prima e uma sobrinha-neta, Ondina Tempesta, irmã de Dom Orani, teve dificuldades para entrar — resgatada por padres brasileiros, conseguiu um lugar na igreja.

No auditório Paulo VI, ela e seu irmão tiveram uma surpresa: dezenas de integrantes da família Tempesta italiana foram cumprimentar o cardeal. O pai de Orani e Ondina nasceu na Itália.

Presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis foi um dos três cardeais escolhidos pelo Papa para presidir, em outubro em Roma, o Sínodo Extraordinário dos Bispos. Os outros dois são os arcebispos de Paris e de Manila.

Dilma foge de seguranças para passear

A presidenta Dilma Rousseff dispensou seu esquema de segurança e fez ontem a pé o percurso de 800 metros entre dois palácios que abrigam representações diplomáticas brasileiras em Roma. Depois do almoço no Palácio Caetani, residência do embaixador brasileiro na Santa Sé, Denis Fontes de Souza Pinto, ela decidiu dar um rápido passeio pela cidade e foi até o Palácio Pamphili, sede da embaixada na Itália.

Dilma foi acompanhada pelo general Marcos Antonio Amaro dos Santos, da Secretaria de Segurança Presidencial, e pelo embaixador na Itália, Ricardo Neiva Tavares. Para evitar ser reconhecida, usou óculos escuros.

Depois da cerimônia, a presidenta driblou jornalistas e foi a um concerto. Ouviu uma peça de BachErnesto Carriço / Agência O Dia

A decisão de fugir da segurança foi tomada logo depois de Dilma almoçar com ministros e o vice-governador do Rio, Pezão. Depois da sobremesa, ela avisou que queria caminhar um pouco na ensolarada tarde do inverno italiano.

No fim da tarde, Dilma, para driblar os jornalistas, saiu pelos fundos da embaixada brasileira e foi assistir a um concerto no Parco Della Musica. No programa, ‘Missa em si menor’, de Bach, executada pela Orquestra e Coro da Academia Nacional de Santa Cecília.

À noite, Dilma voltou ao Palácio Caetani para a recepção oferecida pelo governo brasileiro a Dom Orani. Sua passagem foi rápida — 20 minutos. Chegou às 20h30 (hora local), uma hora e meia depois dos primeiros convidados e depois que o novo cardeal havia sido saudado pelo embaixador na Santa Sé e por Pezão.

Brasil tem dez cardeais

Com a nomeação de Dom Orani, sobe para dez o número de cardeais brasileiros. Eles ocupam o cargo mais alto da instituição depois do pontífice. Atualmente, o país com mais cardeais é a Itália (51), seguida dos Estados Unidos (19). O Brasil vem em terceiro, empatado com Alemanha e Espanha.

Segundo o Monsenhor Sérgio Costa Couto, a missão fundamental desses líderes religiosos é eleger o Papa. “Mas é claro que isso é uma coisa que acontece no máximo duas vezes na vida de um cardeal. Por isso, eles são também conselheiros e têm outros cargos na Igreja”, explica.

Para participar do conclave que escolhe o novo pontífice, os cardeais precisam ter menos de 80 anos. Atualmente, o Vaticano tem 122 eleitores e 96 não-eleitores, totalizando 218.

Sobre as mudanças na rotina de Dom Orani, o monsenhor foi objetivo: terá mais trabalho. “Ele é uma pessoa fácil de lidar e tem acesso amplo ao Papa. Isso pode aproximar ainda mais o Rio do Vaticano”, disse.

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