Cidinha Campos diz que Pezão não é louco para tê-la como vice

Secretária estadual de Proteção e Defesa ao Consumidor soltou o verbo e sobrou até para o Che Guevara

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Rio - O jeito, digamos, franco da secretária estadual de Proteção e Defesa do Consumidor, Cidinha Campos (PDT), dispensa apresentação. Ela fala o que pensa, quando pensa e não tem, exatamente, um tom de voz aveludado. Aos 71 anos, a deputada licenciada bem que poderia ser candidata a vice-governadora na chapa de Pezão, certo? Mais ou menos. Embora seu partido esteja fechado com o PMDB, Cidinha sentencia: “Eles sabem que eu vou para cima. Então, eles não são malucos de me convidar para ser vice.” Diz que adora Sérgio Cabral, mas o critica porque ficou “acuado” quando foi duramente atacado ano passado.

Em entrevista ao DIA, a pedetista não poupou ninguém, e sobrou até para Che Guevara quando ela analisou o comportamento de manifestantes.

'Eles não são malucos de me convidar para ser vice'%2C diz Cidinha sobre possível proposta do PMDBAlessandro Costa / Agência O Dia

ODIA: Qual sua opinião sobre as manifestações?

CIDINHA CAMPOS: O foco era a passagem, mas a partir daí virou zona. Depois daquela grande e linda manifestação, chegaram os oportunistas e começaram a usar as pessoas — “Oba, vamos tirar uma casquinha da manifestação popular” —, como Psol, PR, PSTU, com bandeiras para dizer que eles é que estavam fazendo. Mas era o povo que estava, e eles tomaram para eles. Ao tomarem para eles, (a manifestação) perdeu a legitimidade e ficou sem referências. Virou manifestação contra aborto, maus-tratos aos animais, virou contra tudo. Eu vi coisas brutais, por exemplo, um monte de jovem babaca usando camisa do Che Guevara. Eu vi gays usando camisa do Che Guevara. O Fidel Castro e o Che Guevara mandaram para prisões todos os gays, que foram torturados. O título que tinha em cima do presídio era “daqui sairão homens”. Entravam gays, apanhavam tanto, que ‘saíam homens’. E os gays usam essa camiseta sem saber. Eles não sabem exatamente o que estão fazendo na rua.

Como a sra. avalia a reação do governador quando manifestantes passaram a combatê-lo diretamente?

Ele recuou quando pegaram pesado. Ele devia sair para a porrada, sair brigando, se apresentando, dizendo: “Eu estou aqui.” Mas ele ficou acuado. Eu li num livro que, diante de uma injustiça, a inocência se cala, você não consegue... apanhando de todos os lados, sabendo que é injusto.

A sra. vai ser candidata a vice na chapa de Pezão?

Ninguém me convidou, ninguém me tirou para dançar, ninguém falou nada.

E se convidassem?

Eu não sei porque não quero atrapalhar meu partido nem a vitória do Pezão. Eu quero que escolham o melhor para botar o Pezão lá em cima. Mas neste período em que nós estamos juntos, eu no governo Sérgio Cabral, eles sabem quem eu sou e jamais me darão este cargo (risos). Porque eles sabem que eu vou para cima. Então, eles não são malucos de me convidar para ser vice. Eu vou bater de frente quando tiver que bater de frente. Mas eu acho isso um aspecto bom. Tem que ter alguém de contraponto para aquele que manda, que diz “está errado, não faça isso”. Vocês estão falando com uma pessoa que admira o Pezão, adora o Sérgio Cabral e o Eduardo Paes. Mas eu só aprendi a gostar deles a partir da segunda eleição do Sérgio Cabral. Na primeira vez, eu votei no (Carlos) Lupi (presidente regional do PDT). No segundo turno, houve a aliança e eu fui obrigada a prestar atenção no meu aliado.

'Nunca fui comunista. Sempre defendi a social democracia. Igualdade para todos.'Alessandro Costa / Agência O Dia

O que mudou? A sra. fazia muitas críticas a Sérgio Cabral.

Fazia. Achava ele, primeiro, antipático. E ele não é, é gente boa. Eu briguei muito com ele no plenário (da Alerj). Ele não me deu uma comissão temática para presidir mesmo eu sendo a segunda mais votada no estado (Cabral era presidente da Alerj). Daí, eu fiz greve de fome no plenário, e ele não foi me visitar. Quase morri de fome. Fiquei dois ou três dias tomando água de coco. Às vezes, ele cortava meu microfone para eu não poder falar, e eu gritava, esperneava. Eu atacava ele. Tudo que ele fazia eu achava uma merda porque ele não me deu uma comissão temática para presidir, e eu tomei como pessoal. Eu não gostava do PMDB. Agora, eu gosto de muitas pessoas do PMDB. Existe uma maneira de você conquistar as coisas que eu não conhecia, que é conversando. Eu por exemplo, perdi um emprego na (TV) Globo porque fui uma idiota. Eu sou muito enfática. Grito, xingo...

Por isso a sra. acha que, se for candidata a vice de Pezão ...

... com certeza vai dar merda, porque eu vou brigar.

Por que atacar tanto o deputado Marcelo Freixo, que a sra. chama de “intocável”?

A mídia é que é a culpada porque tudo o que ele faz é maravilhoso. A mídia fala do meu trabalho, dele fala como ídolo. Essa idolatração se originou de ele ser uma coisa que ele não é, de ser ‘esquerda’, além do filme ‘Tropa de Elite II’. No filme ele era herói. Ele tomou a CPI das Milícias para ele como se tivesse feito sozinho. E eu acho uma babaquice o Paulo Melo (presidente da Alerj) dar a Comissão de Direitos Humanos para ele. Ele (Freixo) não defende os direitos humanos de todo mundo, só defende os direitos de quem dá mídia. Eu nunca vi ele visitar um PM no hospital. O Freixo defende os direitos humanos do black bloc que joga bomba na polícia e na população. Ele não vai visitar uma mulher estuprada.

A sra. tem uma forte influência do ex-governador do Rio Leonel Brizola (PDT). Como a sra. avalia a diferença entre a política de Segurança dele e a de Cabral? A PM de Brizola não subia os morros. Hoje, existe a UPP nas comunidades.

Eu já não gostava quando o Brizola fazia isso. Muitas vezes conversei isso com ele. Eu achava que tinha que enfrentar esse problema porque estava crescendo. Na época do Brizola, a gente tinha sequestro todos os dias, e isso era indisfarçável. Mas ele tinha aquela visão de que só a escola resolveria tudo. Não resolve tudo. A escola resolve crianças, não salva marmanjos no crime. Para criança, escola. Para delinquente, xadrez.

O que o Brizola acharia da sua aliança com Sérgio Cabral?

Se ele tivesse acompanhado o governo Cabral, apoiaria. Ele não gostava de muita gente, como o (deputado federal do PR Anthony) Garotinho, e aceitou se reaproximar dele depois de o Garotinho ter queimado a bandeira do partido em praça pública. Se faz isso comigo, eu não olho nos olhos nunca mais.

Qual a sua avaliação do comando de Carlos Lupi à frente do PDT?

Embora o Brizola tivesse 82 anos, ele era uma pessoa vital, morreu de uma hora para a outra. Alguém tinha que ocupar aquele espaço, e o herdeiro dele, a pessoa em quem ele confiava, era o Lupi. Não havia outra pessoa para assumir esse lugar. Agora estão querendo tirar o Lupi na marra. Mas esses que querem tirar não têm a menor capacidade de unir o partido.

Como a sra. acha que Brizola reagiria às manifestações?

Eu imagino que ele iria se defender de maneira muito articulada porque o Brizola era tido como de esquerda, e todos esses meninos de esquerda talvez o apoiassem. Mas esses manifestantes são sabem que caiu o Muro de Berlim, não sabem que Che Guevara matava mulher grávida.

A sra. é de esquerda?

Não. Nunca fui comunista. Sempre defendi a social democracia. Igualdade para todos. Não aceito mais essa dicotomia de exigir liberdade aqui e defender a ditadura lá (Cuba). Só criticam a ditadura de direita? Está errado. O povo cubano está morrendo. Se fosse bom, as pessoas não saíam de lá a nado.

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