Bebês de mães usuárias de crack sentem dor física, devido à separação

Nove entre dez bebês de berçário municipal em Ramos nasceram de grávidas viciadas em crack. Muitos sentem até dores pela ‘abstinência’

Por bianca.lobianco

Rio - A cada três horas, um coral de resmungos quase sincronizado invade os dois quartinhos do Berçário Municipal Ana Carolina, em Ramos. O choro é de fome. Mas alguns dos bebês sentem também dores. A separação precoce da mãe, usuária de crack, provoca reações que, na maioria das vezes, não são perceptíveis num primeiro olhar, nem explicadas de pronto pela literatura médica. Mas que estão ali, somatizadas, impondo intensa sensação de sofrimento no corpo, mesmo que ele seja de um recém-nascido.

A maioria nasce prematura e com problemas respiratórios. Outros sintomas são irritação e sono excessivoMaíra Coelho / Agência O Dia

Ser filho de mãe viciada é correr o risco de nascer com crise de abstinência. Algumas crianças chegam a tremer por quatro dias seguidos após o parto. A maioria é prematura de sete meses e tem problemas respiratórios, por causa da inalação constante da fumaça da droga. Outros sofrem de irritação e sono excessivo. Mas, pelo menos, por ora, todos estão fora das cracolândias — tema da série especial ‘Os guetos do crack’, que O DIA publica desde ontem.

“O bebê só tem identidade relacionada à mãe. Essa ruptura entres eles tem consequências psicológicas e provoca uma dor que, às vezes, é física, mas muito mais emocional”, explicou a diretora da Unidade de Reinserção Social Ana Carolina, a assistente social Aline Peçanha.

A separação da mãe, usuária, provoca dor física. Nas crises%2C bebês chegam a tremer por quatro diasMaíra Coelho / Agência O Dia

No abrigo, estão 20 crianças até 4 anos. Ali tudo foi pensado para parecer uma casa familiar: as paredes brancas, os mobílies coloridos, a música de ninar. O lugar, apesar de ser um alento à tragédia social, é um retrato da proliferação do crack na cidade: 90% dos bebês são filhos de viciadas na droga. Metade acaba adotada por outras famílias. O restante é entregue para tias e avós das mulheres que ainda não conseguiram sair dos guetos pelas ruas.

As visitas das mães são permitidas, a não ser em casos muito extremos, quando envolve agressão contra a criança. Mas o ‘aparecer’ delas é sempre imprevisível. Algumas chegam sem tomar banho há dias. Tem aquelas que vivem momentos de lucidez da maternidade, mas depois ficam meses sem vê-los. Teve quem apareceu com um ovo de Páscoa para dar ao seu recém-nascido como prova de afeto e presença. Nas idas e vindas, chega a ser incerto o encontro com o filho.

“Teve uma delas que, quando voltou, após muito tempo, o filho já havia sido adotado. Ela sabia que isso poderia acontecer, porque participou de audiências na Justiça. Mas veio aqui achando que ainda poderia encontrá-lo ”, contou a diretora do Ana Carolina.

O berçário revela uma quebra de estereótipo social. Os bebês de lá são, em grande parte, brancos. Um aspecto pouco conhecido, mas que pode ter como pano de fundo estupros e a prostituição das usuárias de crack que não são ‘casadas’.

Por R$ 2, por exemplo, elas fazem sexo oral. E por um pouco mais do que isso, motivadas pela fissura do consumo da pedra, transam sem camisinha. E muitos dos homens que pagam por estes programas não são moradores de rua. “Temos o caso de uma jovem que foi violentada 18 vezes”, contou a psicóloga Diana Ribeiro, do Projeto Proximidade, da Secretaria de Assistência Social.

Lar próprio contra crack

Se da maternidade as mães voltam para as cracolândias, o começo para uma recuperação pode ser justamente impedir que este laço se desfaça. O secretário municipal de Desenvolvimento Social, Adilson Pires, anunciou ao DIA que está em estudo um projeto — pioneiro no país — para criar uma casa para receber grávidas viciadas em crack. O conceito seria semelhante aos abrigos da prefeitura que acolhem adolescentes usuários de drogas. “Quando elas têm o bebê, há a retirada da guarda, pela situação em que vivem, nas ruas. O que pode ser feito é que esta mãe terá a chance de ficar na casa, num período depois do parto, para não perder o contato com a criança. O importante de se lembrar é que a dependência química não tem cura, mas é possível ter uma vida com redução de riscos”, explicou o secretário. O projeto já foi discutido, inclusive, como algumas autoridades do governo federal. Mas esta não é a única novidade. O berçário municipal vai ganhar segunda sede. Será na Rua Sorocaba, em Botafogo, e terá capacidade para 20 recém-nascidos.

Amanhã: meninos deixam cracolândias para uma nova vida

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