Grajaú chega renovado aos 100 anos

Com casario preservado, bairro vai ganhar status de Área de Proteção do Ambiente Cultural

Por daniela.lima

Rio - Um pedaço do paraíso cercado pelo verde vai completar cem anos, na próxima sexta-feira, de alma nova e repleto de sonhos para o futuro. Nascido oficialmente no dia 15 de agosto de 1914, o Grajaú está na contagem regressiva para celebrar o centenário na companhia dos seus 40 mil moradores. Com seu belo casario e alamedas arborizadas, o bairro será presenteado, em breve, com uma Área de Proteção do Ambiente Cultural (APAC). O projeto, que já passou por duas audiências públicas, prevê a preservação do patrimônio da região, mantendo as características de um bairro-jardim.

A Pedra do Andaraí domina a paisagem do bairro%2C considerado uma joia do RioDaniel Castelo Branco / Agência O Dia


A expectativa é que construções históricas sejam finalmente tombadas, entre elas a capelinha de N. Sra.da Imaculada Conceição, erguida pelo arquiteto italiano Francisco Tricárico, no quintal de casa, no nº 27 da Rua Grajaú. Na esquina da rua com a Barão do Bom Retiro, Tricárico construiu a primeira casa, já demolida.“É o marco da fundação do bairro”, diz o historiador Francisco Ferreira, 84 anos, há meio século no Grajaú.

Bairro de famílias abastadas, ele tem um dos mais altos Índices de Desenvolvimento Humano do Rio. Grajaú ganhou o nome de um rio no Maranhão que, em tupi significa “ave para comer”. A sugestão partiu de um dos engenheiros que veio de lá e trabalhava com Eugênio Richard, o projetista que ergueu o bairro nos anos 20. Casas e ruas largas foram traçadas a partir da Praça Edmundo Rego.

O sossego da região atraiu moradores ilustres, como o ex-presidente Tancredo Neves, o maior artilheiro da seleção num jogo, Evaristo de Macedo, o goleiro da seleção Júlio César, e a cantora Nana Caymmi. Cercado por cinturão de favelas, o bairro sofreu com a guerra entre facções. Em 2010, as favelas do Maciço da Tijuca foram pacificadas pela UPP do Andaraí. “Os imóveis dobraram de valor ”, diz Alexandre Falcão, presidente da Associação de Moradores do Recanto do Grajaú.

A violência caiu, mas ainda tira o sono. “Há muitos assaltos, mendigos e viciados nas praças”, preocupa-se a moradora Vanda Amaral. Segundo o Instituto de Segurança Pública, com base em dados do 6º BPM (Alto da Boa Vista, Vila Isabel, Andaraí, Grajaú e Tijuca), assaltos a pedestres em toda a região subiram 63%, roubos de carros 66% e, no comércio, 210%. A PM disse que reforçou o patrulhamento.

NATUREZA

Na reserva florestal, trilhas e ar puro

Há cinco anos, Márcio Carazza, de 63 anos, atravessa diariamente a Ponte Rio-Niterói para tomar conta de uma joia: o Parque Estadual do Grajaú. Situada numa área de 55 hectares, a reserva ambiental abriga o principal símbolo do bairro — a Pedra do Andaraí, também conhecida como Pico do Papagaio. “Aqui é o pulmão do Rio. O ar puro da montanha renova o ambiente e faz as pessoas se sentirem melhores. Os moradores deveriam lutar para mantê-lo”, aconselha o gestor do parque, que recebe 4.300 frequentadores por mês. A entrada é gratuita, mas muitos ainda não se aventuraram pela reserva. “No passado, o local era usado pelo tráfico. As pessoas ficaram com receio de subir”, diz Carazza, que ajudou a revitalizar o local, mantido pela Prefeitura do Rio, e usado para piqueniques, trilhas e escaladas.

A reivindicação é que o parque seja incluído na Área de Proteção do Ambiente Cultural (Apac), que está em discussão. “Estão mais preocupados com o tombamento de casas históricas do que proteger a reserva, que está ameaçada pela construção de casas irregulares no seu entorno”, alerta Lupércio Teles Ramos, presidente da Associação de Moradores do Grajaú (Amgra). Outra queixa antiga são os ônibus que trafegam em alta velocidade pelas ruas do bairro.

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