PM prepara megaoperações em áreas de UPP onde o tráfico resiste

Só falta Beltrame bater o martelo para o Bope entrar na Rocinha, Alemão, Penha e Lins

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Rio - Tiroteios quase diários, inocentes feridos, policiais mortos e muito medo. O fantasma da violência voltou a assombrar moradores — com maior frequência este ano — em boa parte dos 38 territórios onde há presença permanente da polícia. Seis anos após o início da ocupação da PM em comunidades carentes, a Secretaria de Segurança estuda medidas para reestruturar as Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs). A principal delas: fazer novamente grandes operações de varredura nos territórios para prender traficantes que afrontam a polícia.

Para a PM, as ações fazem parte de nova etapa do projeto: a consolidação das unidades após a implantação. Com o diagnóstico finalizado semana passada sobre os principais problemas das comunidades, feito a partir de longo estudo de cada uma delas, a solução para acabar com a resistência dos criminosos pode partir das operações de setores de Inteligência com apoio das forças de elite da polícia.

Policial do Batalhão de Operações Especiais (Bope) observa a movimentação numa favela%3A tropa de elite da PM deve voltar a áreas problemáticasDivulgação

Comunidades mais problemáticas, como Rocinha, Penha, Lins e Alemão, por exemplo, receberiam todo o aparato e efetivo dos batalhões de Operações Especiais (Bope), de Choque (BPChoque) de Ações com Cães (BAC), atuando em uma nova ação de ‘limpeza’ do território.

Crítica a políticos

Para o sociólogo e cientista político Paulo Bahia, o diagnóstico pela necessidade de fazer varreduras é o mais acertado. “A ocorrência desses delitos com frequência indica que há uma falha, já que o alvo principal dos bandidos é a própria UPP. Sem o controle efetivo do território, não se pode avançar em outros processos da pacificação, como educação, saúde e infraestrutura”, analisa.

Este ano, a violência nas áreas de UPPs atingiu nível alarmante. Entre 2008 e 2013, nove policiais morreram em serviço. Só em 2014, foram oito. De janeiro a 1º de dezembro, 74 agentes ficaram feridos durante o expediente em áreas ocupadas, sem contar o grande número de moradores também vitimados.

Em julho de 2012%2C traficantes atacaram a UPP Nova Brasília%2C no Alemão%3A a soldado Fabiana Aparecida%2C 30%2C morreu após levar tiro de fuzilSeverino Silva / Arquivo / Agência O Dia

Tanto o estudo quanto o programa de ações proposto pela PM estão nas mãos do secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, a quem caberá bater ou não o martelo para pôr em prática o plano de tentar devolver o sossego nessas regiões. Em discurso na semana passada, o secretário afirmou que um conjunto de políticas públicas é necessário para resolver o problema das UPPs.

“Hoje enfrentamos problemas ocasionados pelo descaso de anos, mas agora é a nossa hora. Estamos cansados de prender pessoas e ver que o político não quer entrar neste problema. Tenho a tranquilidade de dizer que os policiais estão sendo atacados nas UPPs para que nosso trabalho seja desmoralizado. Mas devemos nos importar é com o povo”.

?Infraestrutura está em pauta

O programa de medidas para esta segunda fase do processo de ocupação das comunidades ainda inclui planos de infraestrutura e melhorias nas condições de trabalho dos policiais. A instalação de sedes onde ainda há contêineres como bases das UPPs é um dos itens da lista.

As necessidades de cada uma das unidades foram relatadas à Secretaria de Segurança Pública pelos próprios comandantes das 38 UPPs, em reuniões para definir o estudo, no mês passado. No encontro, também foram discutidas as formas de os policiais lidarem com a situação.

A violência nas comunidades este ano não poupou nem militares que estavam à frente de unidades. Uanderson Manoel da Silva, comandante da UPP Nova Brasília, foi morto em confronto em setembro. Em março, a vítima foi o subcomandante da unidade Fazendinha, Leidson Acácio. Um mês antes, o próprio coordenador das UPPs, coronel Frederico Caldas, foi atingido por estilhaço no olho, durante tiroteio na Rocinha.

Maioria dos militares lotados em UPPs é de recém-formadosDivulgação

Para os mais de 1,5 milhão de moradores das regiões ocupadas, resta a esperança de que o projeto se consolide, e a paz seja uma realidade. “Quando soubemos da chegada da polícia, pensamos que finalmente poderíamos respirar aliviados. Ia acabar o medo que a gente tinha cada vez que ouvia uma rajada. E foi assim no início, mas há meses voltamos a passar a noite ouvindo tiros e com medo de sair de casa. Espero que a esperança vença o medo”, disse uma professora, de 35 anos, moradora da Rocinha.

José Gutenberg do Nascimento%2C o Bolinha%2C foi preso em Vila Isabel. Ele é acusado de participar do ataque a base da UPP Morro dos MacacosDivulgação

?Policiais terão cartilha

?A reestruturação do projeto das UPPs também passa por uma reciclagem dos mais de 9.500 policiais que trabalham nas 38 unidades. Apesar de a maioria que atua no serviço de campo ser recém-formada — os mais experientes têm apenas seis anos de serviço —, os agentes vão receber material para atualizar os conhecimentos que fazem parte da rotina de trabalho numa área ocupada.

Uma cartilha com conhecimentos gerais e assuntos específicos está em fase final de produção. O material será distribuído aos PMs para que eles estudem e consultem sempre que possível. O livreto traz desde técnicas de abordagem, patrulhamento em áreas ocupadas e conceitos de polícia comunitária, até noções de como lidar com conflitos entre moradores e direitos humanos, entre outros.

?Preso suspeito de ataque em Vila Isabel

?Policiais da UPP do Morro dos Macacos prenderam ontem acusado de ser um dos chefes do tráfico local, José Gutemberg Adriano do Nascimento, o Bolinha, de 24. Ele é suspeito de ter comandado o ataque à base da unidade na quinta-feira, que deixou um PM ferido.

Os policiais prenderam Bolinha no Boulevard 28 de Setembro, ao lado de dois supostos comparsas.

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