Por felipe.martins

Rio -  No Rio de Janeiro não se fala do Complexo da Maré sem se falar, na maioria das vezes, em violência. É, mas esta tônica está sendo alterada, não só pela pacificação da região como também pela arte musical. Há quatro anos em atividade, a Oficina de Percussão na Maré tem dado aos adolescentes que moram nas 16 comunidades (bairros) do Complexo, com mais de 130 mil habitantes, a esperança de um futuro sem violência. Um futuro onde o matraquear desencontrado de metralhadoras, fuzis e pistolas perderá para o som afinado do tamborim, do repinique, do surdo e da caixa.

É por este futuro que trabalham mais de 30 adolescentes e professores músicos se encaminham para a ONG Ação Comunitária do Brasil para aprenderem e ensinarem na prática e na teoria que os tiros de arma de fogo não têm ritmo nenhum e que o ritmo de uma sociedade sem violência é o que deve imperar. Um ritmo de vida que envolve não só a música, como os estudos, a busca de uma profissão digna, enfim a busca da cidadania plena, mesmo quando a vida insiste em lhes apresentar o que há de mais desafinado, a desigualdade social.

Angolano Nizage%2C na Maré desde os dois anos de idade%2C sonha em ser músico profissionalBia Bergallo / Divulgação

O projeto acontece desde 2011 e já formou cerca de cem jovens do Complexo da Maré. A coordenação geral é do angolano Abel Dueré, radicado no Brasil há 30 anos. Para ensinar como tocar um ou mais instrumentos de percussão e a leitura rítmica com o uso de apostilas com partituras, a Oficina tem a coordenação pedagógica da Escola Maracatu Brasil, que tem à frente o baterista Guto Goffi, do grupo Barão Vermelho, que igualmente ministra aulas na Maré. Cada aluno recebe uma bolsa no valor de setenta reais mensais, alimentação, uniformes padronizados, material didático e instrumentos novos.

A Oficina está bem de professores. Dentre eles, além de Goffi, o percussionista Laudir de Oliveira, ex-integrante dos grupos Chicago e Sérgio Mendes, que já gravou com Joe Cocker, Chick Corea, Michael Jackson, Nina Simone, Milton Nascimento, Wainer Shorter, Paulo Moura e Maria Bethania, entre outras feras. Conta também com Oscar Bolão, com mais de 40 anos de profissão, tendo trabalhado com os maiores nomes da música popular brasileira; John Grant, norte-americano, especialista em percussão rudimentar, com reconhecida experiência no ensino desta disciplina; Cesar Bruneti, percussionista, tendo tocado no Barão Vermelho e de outros grupos e Elir Filho – Cantor, músico e produtor musical. A coordenação do projeto é de André Goffi.

O coordenador geral, Abel Dueré, realiza projetos sociais na Comunidade há mais de 20 anos, em especial aos descendentes dos refugiados de guerra ou da crise econômica de Angola, pois mais de 600 famílias daquele país africano moram na região.

É o caso de Nizaje Donaciano Fernandes Vieira Dias, 17 anos, que veio para o Brasil aos dois anos de idade para morar na Maré com pai, mãe e uma irmã. A música já está no sangue de Nizage, pois o pai é também percussionista e vocalista. Na Oficina, Nizage tem um professor a quem chama de padrinho, o seu conterrâneo Abel Dueré. Sempre preocupado com o futuro dos alunos, Abel faz uma observação quando ouve Nizage, que está no primeiro ano do Ensino Médio, dizer que será músico profissional: “Pode ser músico, mas precisa trabalhar e estudar pensando noutra profissão.”

Patrick Santos e Taiane Gomes são alunos da escola de percussão criada pelo angolano Abel DueréBia Bergallo / Divulgação

Mas o entusiasmo de Nizage pela música é tão grande que ele já participa de um grupo nascido no projeto. Um dos parceiros do garoto angolano é Bruno de Azevedo Afonso Nogueira, igualmente com 17 anos, nascido na Maré, de onde nunca saiu. O nome da banda é bem peculiar: Crônicos. Ele explica: “A gente ficou pensando: não tem aquela coisa de doença crônica, aquela que só acaba com a morte? Então, nós, os crônicos, só vamos acabar quando morrer.”

Os professores têm muita consideração pelo garoto, pois observam que ele se esforça e se sacrifica até nas horas de folga para estudar música. Trabalho num McDonald’s e não estava conseguindo fazer o curso, pois minha folga não “batia” com o dia da Oficina (toda terça-feira). Mas consegui mudar a minha folga semanal para terça, quando então pego firme na Oficina enquanto descanso do trabalho”.

Uma pergunta tira o sorriso do seu rosto: como é viver na Maré? “Viver na Maré é bom e ruim. É bom porque tem muita gente diferente, gente legal. Mas é ruim porque tem esse negócio da violência. Nosso curso mesmo já teve vezes que não teve aula porque estava tendo tiro. Não era pra ter isso, é uma favela pacificada. Tenho muitos amigos no crime. A gente sempre tenta afastá-los, mas quando tu entra, é muito difícil sair.”

Taiane Gomes Pereira da Silva, 17 anos, tem a solução para fugir da violência, quando responde se é bom viver na Maré: “Bom, posso dizer que sim, mas ainda falta muita coisa. Ainda falta muita música para as pessoas conseguirem viver melhor.”

Claudio Antonio Bento Gonçalves frequenta a Oficina há quatro anos. Ao lado do percussionista Laudir de Oliveira, o descontraído Claudio o chama de “meu querido professor”. É só elogios para o grande percussionista de renome mundial : “Trabalhar com o Laudir é ótimo, mano, quando você erra, ele vê e vai lá para te corrigir.”

Também componente da banda Crônicos, Claudio fala com orgulho de clip com mais de cinco minutos que criaram para divulgar a Oficina. No clipe, com a música “Alagados”, dos Paralamas do Sucesso, entra um rap, criado pelos garotos da Crônicos “A ideia foi da gente. A gente criou, levamos para a Oficina e funcionou.” O clipe foi produzido e dirigido pela Mutante Produções, empresa eu dá todo o suporte de imagem para a Oficina.


Reoportagem especial de Washington Araújo para O DIA


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