Por thiago.antunes

Rio - Entendo qualquer manifestação contra a sem-vergonhice vigente, mas não entendo a burrice de quem pede intervenção militar para combatê-la. Essa estupidez legitima os fascistas de plantão, já bastante satisfeitos com a ditadura do Judiciário que está querendo se criar. Para essa turma, recomendo veementemente ‘As primeiras vítimas de Hitler’, de Timothy W. Ryback. Grande livro.

Ryback narra a prisão e o assassinato dos quatro primeiros judeus vítimas de nazistas em campos de concentração. Foi em 1933, quando já havia campos em atividade — embora sem a produção dos horrores presenciados anos depois em Auschwitz e afins.

A perseguição aos judeus, explica Ryback, foi balizada por artifícios legais totalmente injustos. A lei permitia a prisão de um “suspeito” sem qualquer acusação, por exemplo. E o pior: sem acusação formal, o sujeito não tinha como se defender e, assim, ficava preso indefinidamente, ao gosto do Judiciário. Que, comprometido com o ideal nazista, não tinha pressa em devolver a liberdade aos pobres cidadãos.

Ou seja: a conivência de Judiciário politicamente comprometido com uma ideologia permitiu que o governo nazista crescesse sem medo qualquer oposição. Será que estamos vivendo algo parecido? Melhor ficar de olho.

Toda essa conversa casa muito bem com inúmeras crônicas de Umberto Eco (que morreu há um ano, baixando consideravelmente o nível de inteligência do planeta). No recém-lançado ‘Pape Satàn aleppe’, ele diz que, “na falta de cidadãos normais, um país busca desesperadamente um personagem heroico e distribui medalhas a torto e a direito”.

Lembrei do Luciano Huck, nosso gênio, dia desses condecorado com a medalha de Honra do Mérito Militar por seus relevantes serviços à nação. Fantástico. Que serviços relevantes foram? Alguém me explica?

Pois bem. Citando Brecht, Eco também manda essa: “Um país infeliz é aquele que, como ninguém mais sabe qual é o seu dever, busca desesperadamente um líder, a quem confere carisma, que lhe diga o que deve fazer. O que, se bem me lembro, era uma ideia expressa por Hitler”. Tóin!

A propósito, Eco também enumera algumas características fascistas que permeiam o caráter nacional italiano. Racismo, homofobia, machismo crescente, anticomunismo e a preferência pelas direitas. São comportamentos próprios de uma mentalidade estreita, provinciana e pequeno-burguesa, diz ele.

Qualquer semelhança com a realidade brasileira não é mera semelhança, considerando que somos todos filhos da cultura do consumo, dos sonhos inviáveis do liberalismo e da televisão.

Nelson Vasconcelos é jornalista

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