Áureo destacou o esforço das empresas durante a crise no Rio - Alexandre Brum / Agência O Dia
Áureo destacou o esforço das empresas durante a crise no RioAlexandre Brum / Agência O Dia
Por WILSON AQUINO

Rio - No turbilhão da crise política, administrativa e financeira do estado, quando o governo não conseguia nem pagar o salário dos servidores, buscava-se um culpado para o caos. E os dedos apontaram para o programa de concessão de incentivos fiscais do Rio. "Em função do momento político, criou-se a ideia de que qualquer concessão estava viciada", lembrou o secretário da Casa Civil e Desenvolvimento Econômico, Christino Áureo. Entretanto, agora que a névoa da crise se dissipa, o governo apresenta estudo mostrando que os incentivos em vez de reduzir a receita, engordaram o caixa estadual.

"Onze setores foram capazes de gerar uma arrecadação superior aos valores dos incentivos que o estado estaria abrindo mão", garantiu o secretário. Indústria textil, farmacêutica, cosméticos e até o badalado setor de joias estão entre as atividades que compensaram as isenções. "Provando que na maioria dos incentivos concedidos pelo estado, esse esforço, mesmo durante o período de crises, cobre a despesa", afirmou Áureo.

No caso da informática e eletroeletrônico, quando o programa surgiu, em 2003, havia 40 estabelecimentos. Todos foram enquadrados e, de cara, isso gerou uma redução de arrecadação de 42%. Porém, de lá para cá, em função do imposto menor, foram abertos mais 104 estabelecimentos, o que acabou elevando a arrecadação de todas as empresas em 153%, mais de três vezes a redução inicial.

Como funciona a engrenagem - Arte O DIA

O real valor da concessão de incentivos fiscais como ferramenta de desenvolvimento econômico e social sempre foi questionado. Afinal, o estado dá um desconto no valor do imposto que a empresa teria que pagar. Mas não é de graça. A empresa beneficiada tem que dar como troco a geração de empregos, o compromisso de comprar seus insumos com os fornecedores locais e cumprir meta de aumento progressivo na arrecadação. Normalmente, os incentivos são dados para atrair novas empresas ou para manter as que já estão na região. Mas no Rio, o programa acabou se consolidando como vilão da crise depois que o Tribunal de Contas do Estado (TCE) divulgou relatório afirmando que o estado havia concedido R$ 185 bilhões em incentivos no período de nove anos.

Porém, segundo o secretário, o documento estava equivocado. "É que 74% (R$ 138 bilhões) não se referiam a incentivos efetivos, eram montante neutro. As mercadorias circulam, mas não pagam impostos, como o cilindro de oxigênio ou o engradado de cerveja vazios, que vão e voltam milhares de vezes". Dos cerca de R$ 48 bilhões restantes, 60% eram incentivos concedidos pelo Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), obrigatórios em escala nacional (como os itens que compõem a cesta básica). Os incentivos concedidos exclusivamente pelo governo do Rio foram de R$ 2,3 bilhões, por ano, sendo que os 11 setores, que receberam o benefício na ordem de R$ 1,5 bilhões, aumentaram a arrecadação, entre 2007 e 2015. "Os outros R$ 800 milhões foram pulverizados entre vários setores", destacou Áureo.

"O grande mal do Rio é que a gente atingiu o patamar de bilhões por ano de benefícios e incentivos fiscais e isso estava sem nenhum controle", reclamou o deputado estadual Luiz Paulo (PSDB), presidente da Comissão de Tributação, Controle da Arrecadação e Fiscalização de Tributos da Alerj. Ele reconhece que alguns setores podem ter dado retorno de geração de emprego e aumento de arrecadação. "E outros simplesmente não passaram de uma burla porque não tinham estrutura para isso. Acho que daqui pra frente temos condições de corrigirmos as falhas e melhorarmos o controle".

fiscal - arte

Para o vice-presidente da Federação das Indústrias do Rio, Sérgio Duarte, as irregularidades devem ser tratadas caso a caso. "Os incentivos são importantes para a atração de investimentos, geração de emprego e renda".

'O estado não perde com os incentivos'
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O Rio atua em vários fronts. Uma guerra surda é travada nos bastidores do governo e impacta diretamente o cidadão. É a guerra fiscal. "É a lei de mercado e o fenômeno é global", justifica Áureo.
É a disputa entre regiões para atrair empresas para seu território. É uma concorrência predatória, porque um governo tenta tomar a empresa de outro, oferecendo menor taxação, o financiamento e até a isenção de impostos. Quem leva mais empresas, tem mais empregos, mais dinheiro circulando, mais arrecadação, mais desenvolvimento.
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"Não foi o Estado do Rio quem começou com isso", garante o secretário. Em tese, o estado não perde nada. Ao atrair a empresa, mesmo dando descontos nas alíquotas de impostos, o estado sai de arrecadação zero para arrecadar um percentual. Movimenta a cadeia de negócios. Estudos mostram que cada emprego criado numa indústria, gera outros cinco outros.
Por seu caráter predatório, a concessão de incentivos, para muitos, não é considerada a melhor estratégia. "Mais importante que o incentivo fiscal para o desenvolvimento da economia é um ambiente macroeconômico que permita ao empresário ter previsibilidade e confiança para investir sem ajuda do governo", avalia Guto Ferreira, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (Abdi).
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Diversificação da economia fluminense
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Resende foi o município fluminense que mais gerou empregos em 2017, na 17ª colocação no ranking nacional, com saldo positivo de 1.838 vagas, entre contratações e demissões. E foi lá que o Rio entrou na Guerra Fiscal, em 1996, ao atrair a Volks. Em 20 anos, a política de incentivos diversificou a economia, que antes era fundamentada na indústria naval e setor petroleiro. O número de empresas saltou de 214 mil para 282 mil, entre 2002 e 2013. Empregos foram de 2,9 milhões para 4,5 milhões, no mesmo período.
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