Policiais enfrentam penúria no Hospital da PM

Salas de exames estão fechadas há três anos, por causa de equipamentos quebrados, e falta material básico, como gaze e luvas

Por RAFAEL NASCIMENTO

Falta de profissionais é problema: em uma enfermaria, são três técnicos para cuidar de 37 pacientes
Falta de profissionais é problema: em uma enfermaria, são três técnicos para cuidar de 37 pacientes -

Rio - "Estamos trabalhando em um hospital de guerrilha". Esse é o desabafo de médicos e enfermeiros do Hospital Central da Polícia Militar (HCPM), no Estácio. Criado há mais de 40 anos para atender PMs e seus familiares, atualmente o local não tem material básico para atendimento, como gazes e luvas. Salas de exames estão fechadas há três anos, com aparelhos quebrados, e pacientes são redirecionados a unidades conveniadas para procedimentos.

"É lamentável ver o que se tornou o HCPM. Esperamos horas para atendimento e quando acontece, não tem material adequado", disse um policial que não quis se identificar. Por dia, a unidade recebe cerca de 300 pessoas. Em um relatório que o DIA teve acesso é possível constatar a falta de vários materiais, como gazes, sonda de aspiração, coletor de urina, seringas, lençóis descartáveis e fio de sutura.

E quem precisa de atendimento dorme na fila, como a mulher de um PM reformado, que preferiu manter o anonimato. "Há quatro anos eu tento uma consulta para eles diagnosticarem as minhas varizes. Nunca tinha vaga. Como comecei a sentir muitas dores, tive que dormir na fila há 15 dias atrás para conseguir apenas uma consulta".

Há quatro anos, a corporação inaugurou as salas de Hemodinâmica (para exames como cateterismo e angioplastia) e Ressonância Magnética, que pararam de funcionar desde 2015. De acordo com funcionários, as peças estão quebradas e não teve licitação para repor os equipamentos. Por conta disso, pacientes precisam recorrer a hospitais conveniados: no Centro de Medicina Nuclear da Guanabara e no Hospital do Coração de Duque de Caxias, que em nota, confirmou o convênio e ressaltou que nada é cobrado do usuário.

No Fundo de Saúde da Polícia Militar (Fuspm), convênio de saúde que auxilia agentes e parentes em todo o estado, são cerca de 200 mil segurados entre eles, PMs da ativa, inativos e seu familiares. Atualmente, existem cerca de 21.516 PMs nos 39 batalhões espalhados pelo 92 municípios do Rio. Cada PM tem em folha descontado quase 10% para o fundo. Na ponta do lápis, esse convênio recebe anualmente mais de R$ 120 milhões, o que deveria ser investido nas estruturas de saúde da corporação.

A falta de profissionais também é um problema. Em uma enfermaria do HCPM existem 37 pacientes internados. Para cuidar desses doentes, apenas três técnicos de enfermagem. O ideal seria pelo menos 10.

Sem clinicas psiquiátricas para os policiais

O DIA apurou também que, por falta de renovação dos contratos, a PM está sem as clínicas psiquiátricas. A corporação então contratou dois psicólogos para atender todos dos profissionais da instituição.

No domingo, um cabo do 29º BPM (Itaperuna) tentou suicídio. Ele foi socorrido e levado para o HCPM. Passou a noite na unidade médica e foi levado na manhã de terça para o Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), na Saúde. É nesse local que todos os PMs estão recebendo atendimento médico.

"Não temos mais psiquiatra. Há alguns anos apenas dois profissionais atendem toda a PM. É óbvio que eles não vão dar conta. O PM vai chegar aqui e ficar meses e meses na fila para o atendimento e não vai conseguir. É muita pressão para os profissionais da segurança. Alguém tem que fazer alguma coisa pelo HCPM", disse uma funcionária do lugar.

O DIA mostrou fraudes milionárias

Não é a primeira vez que o HCPM está envolvido em algum escândalo. Em 2014, o DIA mostrou máfia dos hospitais da PM. Naquela época, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) considerou o maior escândalo já visto por aquela Corte. Um relatório do TCE mostrou um desvio de R$ 7,9 milhões de sete contratos para compra de insumos e equipamentos para hospitais da PM.

Na auditoria do TCE foram analisados apenas 9,63% do total de gastos realizados em 2014. 56% deles tinham irregularidades, como compra de ácido peracético que nunca foi entregue, em quantidade que demoraria 230 anos para ser usada.

PM nega problemas

Em nota, a Polícia Militar informou que o equipamento da ala de hemodinâmica está em perfeito estado de funcionamento, mas o serviço precisou ser suspenso por falta de insumos. Sobre o equipamento de ressonância magnética, a DGS está decidindo junto com o Comando-Geral da Corporação se, pela relação custo/benefício, seria melhor abrir licitação para consertá-lo ou comprar um novo equipamento. Em ambos os casos, o serviço vem sendo oferecido aos associados por meio de convênio.

A corporação também negou que haja falta de material médico-hospitalar, embora os estoques tenham sido reduzidos. E já existe processo de novas aquisições para repor o estoque.

A PM informou ainda que, apesar do aumento de demanda, não há superlotação nas enfermarias e as instalações físicas do HCPM estão sob permanente processo de recuperação e manutenção para assegurar a oferta de leitos. Quanto à denúncia dos 37 pacientes de uma enfermaria, o fato ocorreu pontualmente devido à falta, por motivos de saúde, de dois dos cinco técnicos de enfermagem lotados naquela ala.

Sobre a convocação de profissionais pela RAS, a corporação disse que assim como acontece nas áreas operacionais da Polícia Militar, a DGS está convocando profissionais de saúde para recompor o efetivo das unidades da Corporação, graças à disponibilização de recursos assegurados pelo Governo do Estado.

O HCPM possui três ambulâncias, sendo que duas estão em pleno funcionamento e uma está em repara numas das oficinas credenciadas pela Diretoria de Logística para recuperação da frota de veículos da Corporação.

Já sobre a área de psiquiatria. Para garantir o atendimento ambulatorial, a DGS está finalizando convênio com a Clínica CERAJE, localizada em São João de Meriti. Em relação à internação de pacientes graves, está em fase final a retomada do convênio com a Clínica da Gávea. Quanto ao caso específico mencionado na denúncia, informamos que o paciente foi atendido no final de semana por uma equipe do Serviço de Psiquiatria Ambulatorial e no momento se encontra internado no setor de psiquiatria do HCPM.

Sobre a contribuição para FUSPOM. A alíquota de contribuição é de 10% sobre o soldo do policial militar, acrescido de 1% para cada dependente credenciado.

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