Victor de Oliveira foi confundido com miliciano e ficou 15 dias preso - Reprodução
Victor de Oliveira foi confundido com miliciano e ficou 15 dias presoReprodução
Por *Alice Cravo

Rio - A família de um homem preso neste mês sob a suspeita de ser miliciano e de ter participado do assassinato de quatro pessoas em Guapimirim, na Região Metropolitana do Rio, em 2016, tenta a todo custo provar sua inocência. E conseguiu a primeira vitória na Justiça: Victor de Oliveira, de 27 anos, deixou o presídio Evaristo de Moraes, em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio, nesta quinta-feira, após 15 dias de angústia para os familiares e amigos por um equívoco da Polícia Civil.

Segundo a juíza Rafaela de Freitas Baptista de Oliveira, da 2ª Vara Criminal de Guapimirim, "um criminoso teve a foto anexada ao processo, mas Victor não corresponde a mesma pessoa que foi reconhecida por fotografia". A liberdade provisória foi concedida nesta quarta-feira, com manifestação favorável do Ministério Público, que pediu "medidas cautelares diversas da prisão". O rapaz, que até então não tinha passagem pela polícia, deverá e apresentar mensalmente à Justiça para justificar suas atividades até o término do processo.

Victor de Oliveira foi preso por policiais da 55ª DP no dia 5 de setembro deste ano, apontado como o "miliciano responsável pela morte de quatro pessoas". Segundo informações da polícia, os assassinatos seriam motivados pelo domínio de comunidades entre milicianos e traficantes. De acordo com a investigação, ele teria agido com outros três homens para cometer o assassinato. Às 17h56 do último dia 5, a Polícia Civil publicou em seu site uma notícia sobre a prisão de Victor. Até as 17h desta quinta-feira, a nota continuava na página da instituição. O DIA fez alguns questionamentos à Polícia Civil, que respondeu que a prisão preventiva de Victor foi feita pela 2ª Vara da Comarca de Guapimirim, com base em investigações da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF). "Na ocasião, o suspeito foi reconhecido pelas testemunhas", completa a nota. Parentes do rapaz negaram a versão da polícia.

Capturado ao procurar a delegacia

Segundo a mãe de criação de Victor, Damaris Lobbo, ele acabou capturado quando foi até a delegacia para resolver questões envolvendo a sua moto, vendida pouco tempo antes. Na unidade, os agentes verificaram a existência de um suposto mandado de prisão em aberto e o algemaram.

"Ele vendeu a moto, mas ela continuava no seu nome. O rapaz que comprou agendou uma vistoria no Detran e a polícia chegou ao meu filho pelo agendamento. Os policiais chegaram a abordar o novo dono da moto achando que era o Victor”, relatou Damaris ao DIA.

“Ele se apresentou na delegacia porque um inspetor entrou em contato com a mulher do meu filho falando que o condutor tinha se envolvido em um acidente e a moto ainda estava no nome do Victor. Ele tinha que ir até lá pra fazer a declaração que ele vendeu a moto e pra quem vendeu pra depois o novo dono fosse ouvido", explicou. "Ele foi. Quem não deve, não teme, se ele fosse um miliciano ele não iria”, completou.

Após a prisão, Damaris começou por conta própria a tentar provar a inocência do filho. Nas redes sociais, suas publicações sobre o caso receberam inúmeros compartilhamentos e comentários alegando que o caso era uma injustiça. 

"Na época ele estava trabalhando com serviços gerais no mercado, com carteira assinada. Miliciano não tem serviço assim. No dia da prisão, ele estava trabalhando como mototaxista e foi preso com colete”, alegou Damaris. "Juntei mais de 500 assinaturas em favor do meu filho, procurei documentos. O que salvou o Victor foi a foto do responsável pelo crime no processo que, graças a Deus, o juiz viu que não era o meu filho”, completou.

“Eu não sei como o documento do meu filho foi parar no meio dessa confusão. Meu filho nunca saiu de Queimados, não tem nada dele lá, identidade, digital, nada. Não sei quem é o responsável pelo crime, mas ele está solto. Ele nunca esteve em Guapimirim, a polícia deve ter mostrado a foto dele, que é bem parecido com o verdadeiro criminoso e o pegaram. Tem lá no processo a foto dele e não é o meu filho. Isso o inocentou", finalizou Damaris. Victor, que chegou em casa por volta de 19h, e foi recebido com festa por amigos e parentes falou ao DIA.

"O que eu passei esses dias foi uma provação muito grande, passei por uma humilhação por algo que eu não cometi. Aconteceu em um momento em que estava dando tudo certo na minha vida, eu passei por essa provação. Eu passei por uma humilhação tão grande e queria dizer que não desejo isso para ser humano nenhum. Aquele lugar é um inferno, a gente passa frio, fome e não tem lugar nenhum pra dormir. Não tem nenhuma cama decente, as que têm estão ocupadas pelos presos que estão lá há bastante tempo", disse Victor.

"Eu sou inocente e paguei por uma coisa que eu não cometi, em um lugar que eu não sabia da existência e nem sonhava conhecer. Eu afirmei minha inocência e graças à ajuda da minha mãe, dos meus parentes, amigos e da minha esposa consegui sair. Aqui fora eu era uma pessoa boa, agora eu me tornei uma pessoa melhor. Eu me reconciliei com Deus, só ele sabe o que eu passei lá dentro. Eu não desejo pra ninguém. Eu passei noites sem dormir, chorando, e o que eu quero é Justiça", afirmou o rapaz, que decidiu processar o estado.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

Você pode gostar