Protestos marcam enterro de morto em Manguinhos

Parentes apontam atiradores de elite da Polícia Civil como responsáveis pelo crime

Por Antonio Augusto Puga

Rômulo de Oliveira teria sido baleado quando ia a uma oficina
Rômulo de Oliveira teria sido baleado quando ia a uma oficina -

Rio - O clima de revolta marcou o enterro do porteiro da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Rômulo de Oliveira da Silva, de 37 anos, no Cemitério Memorial do Carmo, no Caju, Zona Portuária do Rio, nesta quinta-feira. Ele foi baleado no peito na terça-feira quando levava a moto em uma oficina na localidade da Coreia, em Manguinhos. Familiares e moradores afirmam que o tiro foi disparado de uma torre da Cidade da Polícia, por atiradores de elite, e cobram a retirada da torre, temendo novas mortes. 

Funcionário há quase um ano da Fiocruz, onde trabalhava no turno da noite, Rômulo deixou um filho de quatro anos. Na sexta-feira mataram um outro trabalhador, o Carlos Eduardo dos Santos Lontra, de 27 anos, no local. 

Abalada com a morte do marido, Fabiane da Silva, pensa em se mudar da região. "Não estou nem pensando em processar ninguém neste momento, só quero cuidar do meu filho e sair dali", comentou. Funcionária da horta comunitária de Manguinhos, Márcia da Silva, 44 anos, diz que não houve qualquer operação policial ou troca de tiros. "Não é a primeira vez que isso acontece, não havia nenhuma operação policial ou tiroteio. Na semana passada mataram uma pessoa, agora foi o Rômulo que estava de folga e tinha levado a moto para consertar. Quer dizer que uma pessoa de mochila e moto é bandido? Não são todos os moradores de Manguinhos que são bandidos, a maior parte é de pessoas de bem, trabalhadores. É preciso tirar aquela torre da Cidade da Polícia. Quantos mais precisam morrer para alguém fazer alguma coisa? Olha a quantidade de amigos que ele tinha. Rômulo era uma pessoa querida por todos", afirmou.

Rômulo de Oliveira da Silva já cumpriu pena por porte ilegal de arma. A Secretaria de Estado de Polícia Civil informou que não autorizou nenhuma ação de atiradores de elite de dentro da Cidade da Polícia, e que a Delegacia de Homicídios (DH) está investigando a morte de Rômulo. Os agentes buscam imagens de câmeras de segurança que possam esclarecer o crime.

Em nota, a direção da Fiocruz disse que a vítima trabalhava à noite no Centro de Documentação e História da Saúde (CDHS), e que está prestando todo o apoio à família do funcionário, além de estar fazendo contato com a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa (Alerj) e com o Conselho Comunitário da Área Integrada de Segurança Pública 22, de onde é membro, exigindo a apuração dos fatos.

Pai desolado

Aos 70 anos, o aposentado Luiz Carlos da Silva não imaginava que enterraria um dos seus filhos. "É uma perda que vou levar até os últimos dias da minha vida. Não vou esquecer nunca a dor no coração que é a perda do meu filho. O certo são os filhos enterrarem os pais, não o contrário. Uma parte minha está naquele caixão com ele. Rômulo estava feliz, tinha conseguido um emprego. Agora, quem irá cuidar do filho dele? Tenho certeza que o responsável pelo tiro esteja pensando na tragédia que causou, ele destruiu uma família. Deixou uma criança órfã", afirmou.

Segundo aposentado, o filho era uma pessoa tranquila. "Ele teve o problema com Justiça, cumpriu pena, agora vivia para a família. Ele pode ter errado no passado, hoje tinha emprego, cuidava do filho. É muito triste. Não vou me recuperar desta perda. Nenhum pai se recupera", concluiu.

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