Dedicação ao volante e à patroa é recompensada

Atriz Beatriz Segall deixou herança para seu motorista. Profissionais do ramo contam histórias de amizade em consequência da função

Por HERCULANO BARRETO FILHO E FABIA OLIVEIRA *

Flavio Rodrigues Bernardes, de 43 anos, contou com a ajuda do ex-patrão para comprar um carro e recebeu uma boa rescisão ao fim do trabalho
Flavio Rodrigues Bernardes, de 43 anos, contou com a ajuda do ex-patrão para comprar um carro e recebeu uma boa rescisão ao fim do trabalho -

Rio - O testamento aberto da atriz Beatriz Segall, morta há cinco meses, revelou um detalhe curioso. Eternizada pela personagem Odete Roitman, da novela 'Vale Tudo', da TV Globo, a artista deixou um carro zero quilômetro e parte significativa da herança para Adilson Ricardo Leite, seu motorista particular. A história indica uma relação de cumplicidade bem comum nesse tipo de atividade. É só conversar com o motorista executivo Flávio Rodrigues Bernardes, de 43 anos, para perceber que a trajetória dele também mostra uma relação de amizade que ultrapassou a função profissional. Ele não se preocupa apenas com a direção defensiva quando está no meio do engarrafado trânsito do Rio.

A aparência dele pode facilmente ser confundida com a de algum advogado ou empresário. Porque os cuidados, para ele, começam na hora da escolha de um dos quatro ternos que usa como uniforme para trabalhar. O mais valioso deles, avaliado em cerca de R$ 900, foi dado de presente pelo advogado português Paulo Elisio de Souza, seu empregador há 15 anos. Bernardes só foi dispensado quando Elisio voltou a morar em Portugal. Depois, trabalhou três anos como motorista particular no Conselho Federal dos Representantes Comerciais do Rio. E, enquanto aguarda a possibilidade de voltar a trabalhar para um advogado da CBF, ganha a vida como motorista particular por aplicativo.

A relação profissional com o advogado português começou em abril de 2000. Na época, Flavio tinha deixado o Exército e estava à procura de emprego quando leu um anúncio no jornal para trabalhar como motorista particular no Leblon, Zona Sul do Rio. Dois dias depois de deixar o currículo no escritório dele, recebeu um telefonema. "Ele me ligou, dizendo que eu tinha sido admitido. Apareci no escritório de terno e gravata. Aí, ele falou: 'Esse vai ser o seu uniforme mesmo'. Eu já trabalhava antes como motorista para o comandante da unidade no Exército", lembra.

Enquanto trabalhou para Elisio, Bernardes foi duas vezes para Lisboa, capital portuguesa. Nas viagens, recebia 1 mil euros para despesas (R$ 4.250 pela conversão da moeda). Sentava na mesma mesa com os amigos do patrão, de quem sempre recebe uma ligação no aniversário. Bernardes contou com a ajuda do ex-chefe para trocar de carro e ainda ganhou uma pomposa rescisão. "São coisas que ninguém faz pelo empregado, né? Virou uma relação de amizade".

O DIA ouviu motoristas de duas artistas conhecidas pela espontaneidade. Confira abaixo o que eles relataram sobre as patroas:

- Thiago Mendonça Cavalcante

Motorista particular da cantora Jojo Todynho

“Eu fico à disposição da Jojo. Não tenho horário de entrada nem de saída. Ela me liga e me chama a hora que precisa. Às vezes, ela chega no aeroporto de madrugada e eu vou lá buscá-la. Moro em Realengo e a Jojo no Recreio. Mas eu chego rapidinho na casa dela. Não considero a Jojo como uma patroa. Ela conhece a minha esposa, já foi na minha casa. Somos amigos. Jojo é uma pessoa com o coração muito bom. Uma vez, fomos em uma festa na casa de um amigo dela famoso e eu não queria entrar, porque estava com vergonha. Queria ficar no carro. Ela, então disse: ‘Se você não puder entrar, eu também não entro’. Ela sempre pensa em todo mundo. Quando está num evento, pede dois brindes: um pra mim e outro pra ela. No meu aniversário, ela me deu um i-Phone de presente. Ela não tem apego a dinheiro nem vaidade de artista. Quando tem almoço ou jantar na casa dela, às vezes eu vou. Trabalho de bermuda, tênis... No calor que faz no Rio, não dá pra andar de terno. Jojo não encrenca porque ela é maravilhosa”.

- Francisco Ednaldo Mourão Mesquita

Motorista particular de Susana Vieira

“Moro em Jacarepaguá e trabalho há quatro anos como motorista da Susana Vieira. Achei uma atitude louvável da Beatriz Segall ter lembrado de alguém que não seja da família, mas que tenha se dedicado a ela. A minha relação com a Susana, apesar de saber que eu sou empregado e ela é a patroa, é de amizade e respeito. Eu já tentei sair uma vez para trabalhar como Uber e ela cobriu a oferta. Dentro do carro, ouço muitas coisas sobre a vida dela, mas isso eu não conto. Às vezes, estou no Projac esperando a Susana terminar de gravar e começa um monte de motorista a me perguntar sobre ela. Tipo para comparar os patrões, entende? Eu sempre fujo dessas conversas, digo que não sei de nada. Susana é muito generosa. No Natal, ela presenteia os funcionários e quem não é funcionário. Ela deu presente até pra quem dá banho nos cachorros dela no pet shop. Ano retrasado, meu celular quebrou. Eu fui comprar outro e ela fez questão de pagar. E olha que eu tinha escolhido um celular bom!”

CURIOSIDADES

À disposição do Rei

Roberto Carlos também dedica atenção especial aos seus motoristas particulares. Ele conta com um chofer em São Paulo, um em Miami (EUA) e outros três no Rio. Aliás, Mathias, o mais próximo deles, ganhou uma casa de presente do cantor na Urca para que ele fique à disposição do Rei.

Motorista de Odete

Stepan Nercessian, de 65 anos, que atuou como motorista da célebre Odete Roitman, brinca com a herança deixada para o motorista particular da atriz.

“Vou entrar em contato pra gente rachar essa herança”, disse aos risos em vídeo enviado ao DIA quando soube do caso. Ele ainda comentou que foi um gesto bonito por parte da atriz, que reconheceu os anos de trabalho e dedicação do profissional.

Dupla função

O sertanejo Luciano conta com um motorista particular, que também atua como segurança do cantor. S., de 46 anos, já trabalha há 20 anos com o artista. “Se ele estiver em uma situação de perigo, não vou pensar duas vezes em dar a minha vida pela dele. Eu frequento a casa dele, vou às festas das filhas dele”, diz o funcionário de confiança de Luciano.

(*Luiz Portilho colaborou) 

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