Um exército de Marielles

Elas se inspiram na vereadora e lutam para melhorar a vida de suas comunidades. Elaine usa a música; Karen organiza oficinas e Thábara dá voz a mulheres

Por RENAN SCHUINDT

Karen, Elaine e Thábara diante de  grafite representando Marielle: nova geração e antigas causas
Karen, Elaine e Thábara diante de grafite representando Marielle: nova geração e antigas causas -

Rio - Às vésperas de completar um ano do assassinato da vereadora Marielle Franco, que continua sem resposta, três jovens moradoras do Rio representam as muitas mulheres que se inspiram na trajetória da cria da Maré para levar adiante bandeiras como o feminismo, os Direitos Humanos e a melhoria das condições de vida das comunidades faveladas.

Com o olhar voltado para a causa feminina, elas não medem esforços para transformar a realidade.Na Pavuna, a referência é a produtora cultural Elaine Rosa, que aposta na carreira de DJ para transmitir sua mensagem. Já Karen Kristien, de Pilares, desenvolve projetos que estimulam o interesse cultural de jovens em situação de vulnerabilidade. Em Magé, na Baixada Fluminense, Thábara Garcia criou uma roda de conversa que tem como objetivo fomentar a conscientização política das frequentadoras. Elas exemplificam um movimento iniciado nas ruas, que cria um verdadeiro exército de Marielles.

Em meio a correria que a profissão exige, Elaine, ou DJ Rainha Crespa, nome que utiliza quando está à frente das pick-us, se destaca por apresentar um set list formado apenas por músicas interpretadas por mulheres. "Meu trabalho é passar uma mensagem positiva para o público e a música é uma das melhores formas para que isso aconteça", diz.

A rotina de Elaine passou por uma mudança recente. O divisor de águas: a morte de Marielle Franco. "Eu já trabalhava com empreendedorismo social quando ela foi executada. Porém, o episódio despertou uma missão, que é salvar vidas, principalmente as de mulheres moradoras de favelas que sofrem algum tipo de abuso", afirma.

A carreira ganha dimensão justamente por fugir dos padrões da noite carioca. Como base musical, ela mescla jazz, samba e funk, mas não foge à raiz: o rap. "É uma vertente de protesto. Nós, mulheres, temos o dever de utilizar esta ferramenta", opina a DJ.A responsabilidade é grande e, para dar conta, Elaine faz um verdadeiro pente-fino em busca de referências. "Gosto de impactar pela letra da música, mas o ritmo também traz a sua mensagem. Pelo olhar do público eu já sei quando a mensagem chegou. Os homens também curtem a ideia, eles chegam para dar parabéns pelo trabalho. Isso é importante, já que eles também são alvo de nossas campanhas".

Há pouco mais de sete anos, a publicitária Karen Kristien conheceu o Teatro durante uma oficina na Biblioteca Parque, em Manguinhos. De lá pra cá, foram várias as participações em cursos, debates e projetos culturais. O tempo de bagagem, aliado à despedida da vereadora, foi fundamental para a decisão: cursar um mestrado em Políticas Públicas. Com o que aprende, em Nova Iguaçu, ela coordena oficinas voltadas para iniciativas que melhorem a vida da população das favelas "Assim como Marielle, acredito que a Academia deve caminhar ao lado da realidade, de maneira prática. Sua bandeira sempre foi o povo. É nisso que me inspiro para conseguir meus objetivos", explica.

O último ano não tem sido fácil para Thábara Garcia. Desde o crime contra a vida da parlamentar, os questionamentos não pararam de aflorar. Nesse período, a possibilidade de se lançar na carreira política também cresceu. No entanto, o trauma que o caso trouxe ainda a mantém fora deste universo. Apesar disso, ela, que é professora, aposta no diálogo como principal arma no combate às desigualdades em seu município. A jovem é uma das fundadoras da Roda de Mulheres da Baixada, programa criado com outras mulheres, para dar voz e ouvidos às participantes.

"Sempre militei por causas assim. A morte dela (Marielle) me trouxe um impacto muito forte. Foi o que me fez enxergar que era hora de abandonar a militância na capital e voltar as atenções para meu município", revela a jovem estudante de Administração Pública.

Sucessoras no Legislativo

O legado deixado pela parlamentar também pode ser vistona política institucional. Não à toa, nas eleições do ano passado, uma amiga e três ex-assessoras de Marielle foram eleitas para cargos legislativos. Além da Alerj, elas integram as bancadas do Psol também em Brasília.

Com mais de 100 mil votos, Talíria Petrone foi eleita deputada federal, se tornando a nona parlamentar mais votada no estado. Renata Souza, ex-chefe de gabinete, foi eleita vereadora, com 63 mil votos. Já Mônica Francisco e Dani Monteiro, ex-assessoras, foram eleitas deputadas estaduais, com 40 mil e 27 mil votos, respectivamente.

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