Seu Jorge reencontrou família - Reprodução Twitter
Seu Jorge reencontrou famíliaReprodução Twitter
Por ADRIANO ARAÚJO

Rio - Uma história de solidariedade compartilhada nas redes sociais promoveu o reencontro de um idoso com a sua família, que o procurava há mais de 15 anos. A postagem, feita pela jornalista e escritora Paula Schmitt, teve mais de 1.300 compartilhamentos no Twitter e 4 mil curtidas. A narrativa conta uma história que começou com o socorro a um senhor num hospital e terminou com final feliz.

Paula percebeu que Jorge José da Conceição, que teria cerca de 80 anos, começou a emagrecer muito e resolveu convencê-lo a procurar um médico. O senhor, morador de uma comunidade, era figura conhecida na rua onde mora a jornalista, em Ipanema. O idoso fazia 'bicos' e chamava atenção pela boa vestimenta e a postura ereta ao andar.

Com pouco dinheiro, ele acabou despejado da casa onde morava e estava dormindo na rua, perdendo o pouco que tinha — seus móveis e TV teriam ficado como 'pagamento' do aluguel. A idade avançada somada a vida dura cobrava seu preço: ele estava perdendo a memória e com dificuldades para ouvir e enxergar. Acabou adoecendo.

Nesse momento, a jornalista entra no caminho do Seu Jorge. E o socorre com amigos para um hospital. Ela, que já o ajudava pagando refeições, agora tentava interná-lo após um pedido desesperado do idoso: queria ficar no hospital para ter um lugar para dormir e tomar soro, já que ele estava abatido e não estava conseguindo se alimentar normalmente.

Os exames foram feitos. E o que parecia ser uma boa notícia acabou devastando a jornalista: seu Jorge não tinha nenhuma doença e receberia alta, o que o deixaria 'sem teto' e sem a sonhada cama para dormir: "levei um tempo para me dar conta, e caí no choro", relatou.

No hospital, uma sucessão de gestos de solidariedade comoveram a catarinense que adotou o Rio como morada e contribuíram na luta para dar um alento ao sofrimento do Seu Jorge, desde o segurança que ajudou na coleta da urina do senhor até a médica que receitou a reposição de alguns minerais, o que garantiu sua "estadia" até o dia seguinte.

Nova luta: busca pela família

Para alguns, o ato de levar o idoso para o hospital já teria sido suficiente. Entretanto, Paula Schmitt estava preocupada de como seria a vida dele após receber alta do hospital. A ideia era mandar para um abrigo, mas a orientação da assistente social a deixou apreensiva. "Não é asilo, Paula. Ele está fraquinho. Lá é grande, lotado, e é tudo gente com a realidade da rua", contou a profissional.

O "anjo" de Seu Jorge começou uma nova luta: tentar localizar os familiares do idoso, o que foi autorizado por ele somente após muita insistência. Ele não tinha documentos, mas com seu nome, dos irmãos e da mãe em mãos, a assistente social acionou a Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA), que conseguiu localizar a família. Com a notícia, uma nova informação até então desconhecida: ele tinha dois filhos, um homem e mulher, que o procuravam fazia 16 anos.

O rapaz, ao receber a notícia da internação do pai, foi correndo para rever o "homem que o criou", conforme contou para Paula ao telefone. O reencontro deles foi teve um forte abraço e muitas lágrimas, inclusive de todos que presenciaram a cena no hospital. A corrente do bem tinha um final feliz.

A atitude da catarinense foi muito elogiada nas redes sociais, tendo milhares de compartilhamentos da história publicada no Twitter. Ao DIA, ela disse que o ato é uma rotina em sua vida e feito "sem nenhum sacrifício. "Me alimenta e dá vontade de continuar viva ter meus dias pontilhados de propósitos pequenos, mas significantes", defendeu.

"Acho que nós todos tivemos a sorte na loteria do nascimento,com uma abundância a qual não fizemos por merecer. O sentimento deveria ser de nos sermos gratos pela nossa fortuna pré-determinada e fazer dela algo maravilhoso para aqueles que nasceram sem a mesma sorte", acredita.

Seu Jorge não pode usar o plano de saúde do filho, já nunca o registrou. Eles agora tentam continuar a corrente de solidariedade: buscam um geriatra que possa atendê-lo. O candidato pode procurar a jornalista em seu Twitter (@schmittpaula).

Integração de hospitais com DDPA ajudou a encontrar família

Os filhos de Seu Jorge foi localizado graças a um trabalho de integração realizado pela Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA) com unidades de saúde. Inaugurada em 2014, a especializada tem os hospitais com um dos locais que busca seus desaparecidos, mas também recebe pedidos deles para achar familiares de pacientes que não tem identificação ou ninguém que possa cuidar de questões burocráticas, com autorizar alta médica ou até para doar órgãos. Desde 2014, quando a especializada foi inaugurada, foram 3671 familiares de pessoas internadas encontradas. Este ano já foram 401 pessoas que tiveram os parentes identificados.

"É um trabalho preventivo, pois damos notícias para o familiar que seu ente está internado até mesmo antes dele saber ou fazer qualquer registro de desaparecido. A questão da saúde é muito séria, pois o não identificado em uma unidade hospitalar prende leito, não pode dar alta. No caso de morte encefálica, por exemplo, os órgãos não podem ser doados porque não tem a família para autorizar. É um trabalho muito gratificante", disse a delegada Elen Souto, da Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA).

Elen Souto, titular da Delegada da Descoberta de Paradeiros (DDPA), destacou importância de trabalho junto aos hospitais para localizar familiares - Divulgação

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