Alcoólicos Anônimos salva vidas através da ajuda mútua entre quem quer parar de beber, prezando a frequência em reuniões e o anonimato. - Divulgação A.A.
Alcoólicos Anônimos salva vidas através da ajuda mútua entre quem quer parar de beber, prezando a frequência em reuniões e o anonimato.Divulgação A.A.
Por FRANCISCO EDSON ALVES

Rio - Uma pesquisa inédita, que acaba de ser divulgada pelos Alcoólicos Anônimos (AA) - entidade presente no Brasil há 70 anos -, traçou o perfil de seus membros, que querem parar de beber. Em todo o território nacional, foram ouvidas 5.828 pessoas, entre julho e novembro de 2018. A consulta inédita mostrou que 87% dos frequentadores de reuniões de recuperação são do sexo masculino, casados, com faixa etária superior a 41 anos. A sondagem revelou também que seus métodos, baseados em 12 passos, para que o alcoolista passe a evitar o primeiro gole, vem dando certo. Dos mais de 50 mil integrantes que lutam contra a dependência do álcool no país, através da irmandade, 29% estão sóbrios há mais de 20 anos e 68% dos entrevistados não tiveram recaídas.

Camila Ribeiro de Sene, presidente da Junta Nacional de Serviços Gerais de A.A. do Brasil (JUNAAB ), lembra que inventário semelhante já é feito nos Estados Unidos desde a década de 1960. “Na comemoração dos 70 anos no Brasil, em 2017, criamos uma série de ações e uma delas foi pensar na pesquisa com os membros. Foram feitas 26 perguntas e o levantamento traz essa riqueza no sentido de falar das pessoas em recuperação", detalha.

Segundo dados do órgão, atualmente existem 4 mil grupos de AA no Brasil, que realizam pelo menos 11 mil reuniões por semana.

A presidente da JUNAAB destaca a diversidade de frequentadores das reuniões. "As salas de A.A. têm desde recém-chegados a pessoas que estão há mais de 20 anos sem beber. Há pessoas que reduzem riscos de comorbidade (existência de duas ou mais doenças) e de violência física e doméstica ligados ao abuso de álcool. Os grupos atendem o membro, o familiar e o profissional de saúde", ressalta Camila.

Além de 87% dos membros do Alcoólicos Anônimos serem homens, 62% estarem casados ou em união estável, 32% são aposentados e 43% foram motivados a procurar ajuda nos grupos por pressão dos próprios parentes. Problemas de saúde (34%) e no trabalho (27%), ideias suicidas (13%) e problemas judiciais (6%) foram outras razões apresentadas pelos frequentadores.

12 passos que salvam vidas

Alcoólicos Anônimos criou um programa que conta com 12 passos. Todos têm forte ligação com a questão espiritual, mas o primeiro deles é reconhecer a dependência. "A pessoa que deseja parar de beber pode frequentar as reuniões. Não existe taxa nem cadastro. O anonimato é um de seus principais pilares. E o que acontece nos grupos? Troca de experiências, partilha de esperanças e de como lidar com a doença. Mostrar o que deu certo e, só por hoje, conseguir se manter sóbrio e distante do álcool", explica Camila, que é psicóloga e atua há 15 anos como voluntária do projeto.

O autônomo X,, de 42 anos, conta que procurou o A.A. depois de ter alcançado o “fundo do poço”, há cinco anos. “Cheguei ao ponto de tomar um litro de vodca por dia. Estava começando a beber no trabalho e perdendo a sanidade. Tinha pesadelos horríveis e mal brincava com minha filha (A., então com 10 anos) no auge da bebedeira. Minha vida só começou a ser reestruturar e o sol voltou a brilhar, depois que comecei a frequentar as reuniões. Nunca mais parei de partilhar meu dia a dia com os colegas que também lutam pela manutenção da sobriedade. Hoje, não sinto mais ansiedade e nem vontade de consumir álcool, embora continue frequentando ambientes que antes frequentava com a família. Me dei conta de que as pessoas podem beber, mas eu, não mais. Só por hoje não preciso, pelo menos”, relata.

“Minha vida financeira voltou a ter equilíbrio, assim como minhas emoções”, completa a vendedora Y., de 25 anos, que diz ter perdido as contas dos inúmeros “apagões alcoólicos” que enfrentou antes de ingressar em A.A. “Depois de baladas loucas, regadas a álcool e cocaína, costumava acordar, às vezes, em ambientes que não conhecia, sem meus documentos, com marcas roxas pelo corpo, sem saber o que havia ocorrido. Experimentei as piores sensações que um ser humano pode ter. Sem escovar dentes e tomar banho, cheguei a me sentir como uma mendiga. Meus filhos e marido se afastaram de mim. Foram inúmeras internações em clínicas caras. Há sete anos estou livre desses pesadelos, recuperei a confiança dos familiares e vivo feliz da vida. O remédio é apenas o ato de se render, de admitir a impotência perante a bebida e acreditar num Poder Superior (PS) amantíssimo, além de saber ouvir e falar durante as reuniões”, afirma Y, que chegou a ser diagnosticada com hepatomegalia, um aumento do fígado em consequência do álcool.

Doença grave e de fim fatal

Dados divulgados durante a Semana Nacional de Combate ao Alcoolismo (entre os últimos dia 18 e 24), pela Organização Mundial da Saúde (OMS) , revelaram que entre 2010 e 2016, houve uma redução no número de brasileiros que preenchiam os critérios para abuso ou dependência de álcool, passando de 5,6% para 4,2%. Mas o porcentual ainda é considerado alto e preocupante.

Profissionais de diversas áreas, como psiquiatria e psicologia, lembram que a dependência do álcool é uma doença grave, de difícil tratamento e de fim fatal. Mas admitem, porém, que A.A. é um grupo que traz resultados expressivos. O fato de se evitar o primeiro gole, leva á abstinência. Isso não significa a cura, mas uma outra vida, longe de problemas. O anonimato também é exaltado como um dos fatores de sucesso do A.A. Nas reuniões, a recomendação é insistente: "Tudo que ver e ouvir aqui, deixe que fique aqui". 

Especialistas opinam sobre a pesquisa

“Autossuficiência é um dos fatores que dificultam a adesão e manutenção do tratamento do alcoolismo e os grupos de mútua ajuda, através de seus formatos, sugestões, princípios e conceitos têm enorme importância no processo de conscientização e autoconhecimento para que o paciente possa chegar num lugar chamado de rendição. O paciente rendido sabe que perdeu para a doença, que perdeu para o álcool, aceita que sua vida fica incontrolável sob o uso de bebidas alcoólicas. Um paciente rendido quer ajuda e aceita ajuda. E o A.A, de fato, ajuda muita gente e é importante dentre ações terapêuticas multidisciplinares para a recuperação, é muito positivo o convívio com pessoas que têm o mesmo desejo: não beber. O dado que mais me chamou a atenção neste levantamento realizado foi "idade que começou a beber: entre os 13 e 17 anos". O álcool é a substância que entra mais cedo na vida do jovem, muitas vezes por pressão do grupo, outras por exposição pela própria família. A relação do brasileiro com o álcool é ainda muito permissiva e os pais geralmente acabam sendo permissivos também, sem saber como dar limites ou por acharem ser mais seguro permitir o uso do que os filhos mentirem ou omitirem. Sabemos que quanto mais cedo o consumo, maiores são os riscos de se desenvolver o alcoolismo. Quando nossos filhos são pequenos tentamos preservá-los do contato com doenças através de vacinas, redução da exposição a fatores de risco. Por que é diferente com o álcool? Porque nossa sociedade ainda tem uma visão limitada e preconceituosa em torno do alcoolismo. Ainda veem como um defeito de caráter ou falta de força de vontade e não como uma doença crônica”.

(Ana Café, psicóloga fundadora e idealizadora do Núcleo Integrado, especializada no tratamento da infância e da adolescência e capacitada na prevenção e tratamento da dependência química)

 “Os Alcoólicos Anônimos são, sem dúvida, uma referência fundamental para quem quer aprender o ofício de terapeuta em dependência química e para quem já trabalha na área. Como psicóloga, envolvida no tratamento de alcoolismo há 30 anos, me sinto muito grata por poder usufruir da sabedoria desses grupos e contar com o suporte para os pacientes. O grupo de AA sempre transmitiu credibilidade e estabilidade. Os dados da pesquisa só vêm corroborar esse sentimento. Maioria de pessoas sóbrias há mais de cinco anos significa uma especificidade do que realmente funciona quando se atua no tratamento desta patologia”

(Gisele Aleluia, psicóloga supervisora do curso de pós-graduação em Dependência Química da PUC-Rio)

 “O levantamento representa relevante contribuição de Alcoólicos Anônimos para profissionais que estão no desafiante front clínico do tratamento da dependência química. Esta iniciativa corajosa traz informações para muitos profissionais que não conhecem literalmente Alcoólicos Anônimos, muitos que nem sequer ouviram falar e que a partir de uma divulgação dessas pode ampliar seus conhecimentos de um modo efetivo. Há um outro grupo do qual, com privilégio, faço parte há 32 anos, que conheço com propriedade. Esta irmandade que já nos ajudou com muitos pacientes que tomaram a decisão de se tratar. Também ressalto que existe um outro grupo de profissionais que infelizmente pensam que conhecem Alcoólicos Anônimos, mas na verdade enxergam a irmandade sob uma ótica de preconceito e com isso deixam de contemplar seus pacientes com uma indicação, estímulo e incentivo de participar de A.A.. Indicação esta que, em muitos casos, pode ser decisivo para salvar a vida de uma pessoa.

(Luiz Guilherme Pinto, membro do corpo diretor da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD)

 * Fontes de ajuda, que podem indicar grupos de AA perto de você, dialogam e orientam:https: www.aaonline.com.br ou www.aa.org.br .Outra forma de obter informações e socorro é pelo bate-papo do perfil Amigos Anônimos, no Facebook, com boas informações para viciados ou não em álcool. O AA criou uma espécie de robô virtual, que nada mais é que um chatbot (mensagens automáticas, que interagem com usuários). É a primeira vez que o AA, por ocasião de seus 70 anos, e que continua primando pelo anonimato, abre atendimento em rede social.

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