Mulheres driblam preconceito e conquistam trabalho em áreas dominadas por homens

Não é só Marta, da Seleção Brasileira, que dá show de bola e dribla o domínio dos homens. O time feminino fora de campo também esbanja categoria e excelência

Por *Luana Dandara

Na CCR Barcas, o número de mulheres na operação cresceu 25% de 2013 para cá
Na CCR Barcas, o número de mulheres na operação cresceu 25% de 2013 para cá -

Rio - 'Eu dedico isso às mulheres. A gente representa todas elas e busca fazer o nosso melhor sempre". Foi assim que Marta, atacante da seleção brasileira, superou mais um recorde na última semana, até então masculino: a de maior artilheira da história das Copas do Mundo feminina e masculina, com 17 gols. Na Fifa, ganhou seis troféus de melhor jogadora, mais do que Cristiano Ronaldo e Messi, ambos com cinco. A exemplo da atleta, mas fora de campo, o 'time' das mulheres prova a habilidade de conquistar lugares outrora dominados por homens e dribla o preconceito. No transporte público da cidade, por exemplo, elas assumem cada vez mais a direção e dão um show de habilidade e competência.

Na CCR Barcas, o número de mulheres na operação cresceu 25% de 2013 para cá. No quadro de comandantes de embarcações, o índice mais que dobrou: são dez mulheres, enquanto em 2013 eram quatro. Entre elas está Fabrícia Cavalheiro, de 37 anos, que começou como funcionária de serviços gerais em navios, aos 19. "Passei por todas as fases, de bilheteira, marinheira auxiliar... Foram mais de dez cursos. É uma responsabilidade também ser exemplo para outras meninas, mostrar que elas podem seguir esse sonho", contou.

A comandante Fabiane Fontes, de 30 anos, leva o empoderamento feminino em cada viagem. "Os passageiros ainda se surpreendem. Infelizmente, alguns ainda apontam problemas, como atraso da embarcação, lançando a frase 'tinha que ser mulher'. As mulheres precisam fazer o dobro para serem reconhecidas", pontuou. "Podemos ser o que quisermos, precisamos quebrar a ideia de que fomos criadas para cuidar da casa e dos filhos. A questão é a capacitação, independente de gênero", acrescentou a ruiva.

Fabrícia Cavalheiro, Marina Horn, Fabiane Fontes e Caroline Zotto integram a equipe de mulheres controladoras das barcas - Cléber Mendes/Agência O Dia

Mais cuidadosas

Em relação aos ônibus, já são 2,4 mil motoristas mulheres em todo o estado — um aumento de 2% em relação a 2015. O gerente da Auto Viação Tijuca, Wagner Carvalho, 39 anos, rasga elogios e admite que elas se destacam na direção. "São mais cuidadosas e educadas, o que gera menos acidentes e mais elogios. As mulheres que vêm trabalhar aqui se destacam totalmente dos homens", afirmou Carvalho.

"Quando comecei na empresa, há 20 anos, tinha uma mulher motorista. Hoje são dez, mais duas em treinamento entre 370 homens. E nosso desejo é aumentar esse quadro. A mulher está cada vez mais independente e quer voos mais altos, têm objetivo. Ninguém as segura", defendeu o gerente.

Roberta Correa, 38, deixa sua marca registrada na linha 229 (Usina-Castelo): protetores de volante e câmbio na cor pink. Com a mãe cobradora e o pai motorista, foi difícil fugir da vocação - Estefan Radovicz / Ag

Uma de suas funcionárias, Roberta Correa, 38, deixa sua marca registrada na linha 229 (Usina-Castelo): protetores de volante e câmbio na cor pink. Com a mãe cobradora e o pai motorista, foi difícil fugir da vocação. "Só fui ter coragem de dirigir quando me separei. Amo o que faço e tenho muito cuidado com meus passageiros, carrego vidas no ônibus", disse ela, que tem um filho de 16 anos e está grávida de três meses. "Dá para conciliar, mulheres são guerreiras. E espero que as pessoas nos respeitem mais no trânsito. Somos tão capazes quanto um homem".

Passageiros aprovam

Se os torcedores acompanham cada vez mais de perto as partidas de futebol feminino, no transporte elas também ganham destaque dos passageiros. "A motorista mulher nos trata diferente, são mais simpáticas e dirigem bem", apontou Giovania Ferreira, de 60 anos, que pega quatro ônibus por dia.

O aposentado Moacir Santos, 73 anos, torce para que tenham mais mulheres no volante das conduções públicas. "Ainda é difícil, mas quando pego ônibus com motorista mulher me sinto mais confortável. Os homens que me perdoem, mas elas são mais atenciosas, dirigem com mais prudência. Eu prefiro", contou ele, que é morador de Nova Iguaçu.

O aposentado Moacir Santos torce para que tenham mais mulheres no volante do transporte público - Estefan Radovicz / Agência O Dia

Responsabilidade de abrir novos caminhos

No MetrôRio, o quadro de 272 maquinistas conta com 21 mulheres, enquanto no VLT são 30 mulheres na operação geral, entre agentes de fiscalização, controladoras e manutenção.

Já na SuperVia, o número de maquinistas do sexo feminino aumentou 64% em relação à 2013. No ano passado, a empresa abriu também a primeira turma de mulheres controladoras de tráfego. Dulcineia Madeira, de 40 anos, foi uma das escolhidas e carrega outro pioneirismo: inaugurou a turma de mulheres maquinistas, nos anos 2000. “Na época, foi difícil demais enfrentar o preconceito dos homens, diziam que estava tomando o lugar deles. Hoje, a acolhida é diferente. É uma sensação incrível poder ter aberto caminho para outras meninas”.

Primeira turma de mulheres maquinistas na Supervia foi em 2000 - Divulgação/Diego Pessoa


Comandante nas barcas há seis meses, Marina Horn, 33 anos, toma como desafio ser mulher em espaços predominantemente masculinos. “Às vezes, a gente se afasta do nosso feminino, precisa da energia do homem para se colocar. As mulheres ainda são muito ignoradas, mas quando fazemos bem nosso trabalho damos coragem para outras mulheres entrarem no mercado”, afirmou.

*sob supervisão de Clarissa Monteagudo

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Na CCR Barcas, o número de mulheres na operação cresceu 25% de 2013 para cá Cléber Mendes/Agência O Dia
Primeira turma de mulheres maquinistas na Supervia foi em 2000 Divulgação/Diego Pessoa
Roberta Correa, 38, deixa sua marca registrada na linha 229 (Usina-Castelo): protetores de volante e câmbio na cor pink. Com a mãe cobradora e o pai motorista, foi difícil fugir da vocação Estefan Radovicz
Fabrícia Cavalheiro, Marina Horn, Fabiane Fontes e Caroline Zotto integram a equipe de mulheres controladoras das barcas Cléber Mendes/Agência O Dia
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