Inaugurada há 4 anos, estação de tratamento do Rio Irajá não limpou um litro de esgoto

Construção de unidades de tratamento de rios (UTRs) como estratégia de despoluição da Baía de Guanabara está sendo reavaliada pelo governo do estado

Por Felipe Furtado e Lucas Cardoso

Prédio montado sobre o rio tem janelas depredadas e já sofre com a ferrugem
Prédio montado sobre o rio tem janelas depredadas e já sofre com a ferrugem -

Rio - Uma das promessas de legado olímpico virou mais um 'elefante branco' para o Rio de Janeiro. A construção de unidades de tratamento de rios (UTRs) como estratégia de despoluição da Baía de Guanabara está sendo reavaliada pelo governo do estado. A Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (Seas) declarou que vai reestudar a implantação de UTRs, enquanto o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), por sua vez, já informou que "a viabilidade da operação da Unidade de Tratamento do Rio Irajá está em estudo".

Dentro da proposta inicial, de construir seis unidades de tratamento, a do Rio Irajá foi a única a sair do papel. A um custo de R$ 40 milhões, no entanto, a estação, inaugurada em 2015, até hoje não filtrou um litro de esgoto sequer.

José Américo, aposentado e vizinho da UTR Irajá, de 65 anos, esperava que a promessa dos governantes fizesse o rio voltar a ser o que era na década de 1960. "Quando eu era moleque, lá pelos meus 10, 12 anos, a água do córrego era tão limpa que nós conseguíamos até pescar e nadar. Agora só o que temos são os mosquitos, ratos e cheiro ruim", lamenta.

"Fizeram toda uma cena quando inauguraram a estação, mas de lá pra cá, nem sombra de funcionamento. A rua, que tinha duas faixas para circulação em mão dupla, se transformou em um canteiro de obras", comenta Jorge Duarte, de 44, morador da Rua Louis Braille.

Segundo um funcionário da segurança da UTR, parte das instalações e maquinário precisará ser reparada, devido à ociosidade. Além disso, o profissional denuncia que peças como mangueiras e registros foram furtados. No prédio principal da estação, erguida sobre o rio, parte da área envidraçada está quebrada e a estrutura metálica de sustentação já dá sinais de ferrugem.

De acordo com o ambientalista Mário Moscatelli, coordenador do Projeto Olho Vivo, que monitora problemas ambientais cariocas, o que se vê hoje em relação ao meio ambiente carioca é a manutenção da "política do 'usar até acabar'. A tendência é a Baía de Guanabara se transformar num grande aterro", afirma.

Resultado frustrante

Segundo um relatório produzido pelo Ministério da Educação (MEC), um ano após a realização das competições, a respeito do legado de sustentabilidade dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos do Rio, o resultado na área ambiental é "frustrante". Além da unidade do Rio Irajá, o programa do governo estadual, com orçamento estimado em R$ 354 milhões, prometeu contemplar os rios Pavuna-Meriti e Sarapuí, ambos na Baixada Fluminense, Imboaçu, em São Gonçalo, e os canais do Mangue, no Centro, e do Cunha, na Ilha do Governador.

Quando se candidatou para sediar os Jogos de 2016, o Rio se comprometeu a despoluir 80% das águas da Baía de Guanabara e do Complexo Lagunar da Barra-Jacarepaguá até o ano dos jogos. Segundo o relatório, foi justamente nessa área que se deu a maior frustração em relação aos compromissos assumidos. A despoluição fazia parte de um pacote de obras estruturais de saneamento básico, que inclusive estavam inseridas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

 

Galeria de Fotos

Prédio montado sobre o rio tem janelas depredadas e já sofre com a ferrugem O Dia
Canteiro de obras permanente na Avenida Schultz Wenk aflige moradores desde que as obras começaram O Dia
Estrutura metálica instalada sobre o rio teve partes do maquinário furtadas O Dia
Grades de segurança tombadas facilitam o acesso irregular à estação O Dia
Tanques que deveriam ser usados para o armazenamento de compostos para a limpeza da água servem de abrigo para moradores de rua O Dia
Instalação final da estação teve parte da sua área envidraçada trincada O Dia

Comentários