Atividade, que ocorreu na manhã deste domingo, reuniu cerca de 300 pessoas
Registro da última parada do rolé de domingo, na porta Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro Thiago Diniz / Rolé Carioca
Por Felipe Rebouças*
Rio - "Quando eu ia para o cinema era pra ver o filme mesmo. Deixava para namorar na praça, no parque de diversão. Quando o passeio era cinema eu ia para ficar sossegado", conta o aposentado Nelson Luiz, de 69 anos, que desde meados dos anos 50 frequenta os cinemas de rua do Rio. Apesar da mudança no mercado cinematográfico, a cultura dos espaços de caráter popular resistiu ao tempo. A prova disso foi a realização do Rolé Carioca, na manhã de ontem, com a presença de 300 pessoas. O passeio cultural gratuito, com programações mensais, percorreu as ruas do Centro da cidade com a temática 'Centro Antigo e Seus Cinemas'.
O grupo saiu às 10h da Praça Tiradentes, no Teatro Carlos Gomes, onde filmes foram exibidos nas décadas de 50 e 60, e seguiu em direção ao Cine Íris, popularmente conhecido como o 'cinema da saliência'. "Aqui passam, até hoje, sessões eróticas, como pronochanchadas e stripteases. Ouvi dizer que ainda fazem fila na hora do almoço", disse ao público o professor-guia e professor de História da Universidade Estácio, Rodrigo Rainha. Além do Íris, o Cine Odeon, na Cinelândia, são os únicos cinemas de rua que seguem em funcionamento na cidade.
"Os demais não resistiram ao tempo, seja por incêndios, mudanças administrativas, obras estruturais ou, como todos, pela chegada das locadoras e do VHS", explica o professor-guia e historiador William Martins. No passeio, os professores frisaram que arquitetura dos espaços remonta à história do Rio. Na Cinelândia, por exemplo, é possível observar pelo menos cinco estilos diferentes de fachada. "A história toda do Rio está aqui", disse Martins.
A cada parada, os professores-guias, acompanhados de dois professores convidados, explicaram ao público em qual contexto da história brasileira aqueles prédios foram erguidos. No próprio Cine Íris, por exemplo, os professores-guia explicaram que a estrutura original previa níveis de acordo com as classes sociais dos frequentadores. "De cima para baixo temos a plateia, o guichê e o camarote. E até hoje é assim, a diferença é que as pessoas não vestem mais cartola nem fraque para ir ao cinema", frisou Rainha.
"Aqui no Centro só passava um filme por sessão. No subúrbio, nos cinemas Trindade e Pilares (conhecido como poeirinha pelo mal estado de conservação), passavam dois filmes. A primeira sessão começava por volta das 14h e a última às 20h. A gente podia entrar e sair a hora que eu quisesse. Mas quando passava das 20h, antes dos meus 18 anos, o lanterninha aparecia para me expulsar (não era permitido menores de idade no cinema na época)", relata Nelson, que morava no bairro de Tomás Coelho na infância.
"Eu fui criado dentro de cinema que a gente entrava a hora que quisesse e saía a hora que quisesse. Eu podia ver dois filmes, o canal 100 e uma minissérie. Hoje o cinema tem que chegar na hora certa, comprar o ingresso para a poltrona certa e sair na hora certa, era um espaço mais livre. Hoje é mais rígido. Hoje o mercado cinematográfico vive de salas pequenas, e ainda tem que vender a pipoca, que costuma ser mais cara que o ingresso", concluiu o aposentado.
Passada a caminhada pelas ruas do Centro do Rio, que durou cerca de três horas, os organizadores do evento se reuniram com o público participante em frente ao Cine Odeon, na Cinelândia, para uma foto. Em seguida todos se dirigiram para dentro do espaço – que teve a fachada revitalizada recentemente – e ouviram as últimas oratórias dos professores-guias. "O objetivo do projeto é difundir a ideia passada aqui entre moradores, estudantes e turistas, para que outros rolés sejam feitos pelo Rio. Pretendemos, aqui, criar um ambiente multidisciplinar de aprendizado, promovendo o diálogo entre a população, o espaço urbano e a memória da cidade", afirmou Martins.
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"Foi ótimo. Contribuiu muito para o meu conhecimento sobre a cultura do Rio. Gostei muito", afirmou a analista administrativa, Marcella Santos, de 31 anos, ao final do evento.
Fala da idealizadora
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"A gente se considera hoje um sistema de mapeamento e difusão do patrimônio histórico-cultural da cidade. Até hoje a gente já mapeou 400 pontos com importância na memória afetiva da cidade. Basicamente transformamos esses levantamentos em roteiros. Uma das resoluções desse levantamento é o passeio de fato, que é feito mensalmente, mas também temos o portal online, o aplicativo do Rolé Carioca – previsto para ficar pronto no segundo semestre – e, em breve, um canal de vídeo. Inspirados no arquiteto paulista Paulo Mendes Rocha, que enxerga a razão da cidade na possibilidade de conversarmos, ou seja, a razão da cidade é a prática coletiva, a razão da cidade é o encontro. A vivência da cidade em si é a essência do Rolé Carioca. A ideia é que esses roteiros possam gerar nas pessoas a possibilidade de fazer seus próprios rolés, com seus interesses específicos. E que estimule um olhar mais afetivo para a cidade"
Isabel Seixas, idealizadora e coordenadora do Rolé Carioca
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*Estagiário sob supervisão de Luiz Almeida
Cinéfilo Nelson Luiz, de 69 anos, posando para a foto durante a pausa do Rolé Carioca no Cine Rex - Thiago Diniz / Rolé Carioca