Escalada de violência em Belford Roxo assusta moradores

Neste sábado, chacina deixou quatro mortos e 19 feridos

Por Aline Cavalcante , Marina Cardoso , RAI AQUINO e JENIFER ALVES*

O bar Rei do Peixe fechou às portas após a chacina
O bar Rei do Peixe fechou às portas após a chacina -
Rio - Após a chacina que deixou quatro pessoas mortas e 19 feridas, na noite do sábado passado, em um bar em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, a onda de violência assusta ainda mais os moradores que têm convivido com números altos no índice de criminalidade na região. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), a Área Integrada de Segurança Pública (AISP) da cidade lidera o número de homicídios dolosos no estado este ano. Em 2019, foram registrados 5,36% de crimes. Já no ano passado, o número foi de 3,89%. 
De acordo com Antonio Rayol, delegado federal aposentado, o crescimento na violência de regiões como Belford Roxo se explica pelo baixo efetivo de agentes, tanto policiais militares quanto civis, e de investimento e alta densidade populacional. "Esses três itens compõem a receita para a tragédia e se explica os casos recentes de violência na Baixada Fluminense. São cidades onda há carência do governo e de segurança pública, com baixíssimo investimento comparado com outros lugares do Rio", afirma.

Ainda segundo Rayol, com o baixo efetivo de policiais nas ruas e também nas delegacias para solucionar os crimes, os criminosos se sentem á vontade para agir. "Com a baixa investigação e solucionamento dos casos, eles se alimentam dessa sensação de impunidade. Por isso, agem pois acreditam que não serão apanhados. Vira uma terra de ninguém", explica.
De acordo com dados de vistorias realizada pelo Ministério Público no primeiro semestre do ano passado, no 39º BPM (Belford Roxo), o número previsto de militares é de 539. Porém, a quantidade existente chega apenas aos 361. "Isso ainda diminui, pois se deve levar em consideração os agentes que ficam alocados para atividade administrativa", afirma Rayol.
Segundo testemunhas, por volta por volta das 21h, homens encapuzados e armados de fuzis e pistolas desceram de um carro branco, ainda não identificado, e dispararam tiros em direção ao bar Rei do Peixe.

"Ouvi os tiros, fiquei assustada e me preocupei porque sabia que tinha parentes meus no bar. Assim que o barulho cessou corri para o local e quando cheguei lá me deparei com uma cena horrível. As pessoas estavam apavoradas", contou um familiar de uma das vítimas, que não quis ser identificada. Após o ataque, os criminosos teriam fugido em direção ao Posto 13, em Nova Iguaçu.

No local morreram Elaine Menezes, de 36 anos, Fabrine Regiane Marques, 25.e Jorge Vitor, músico que estava participando de um show no bar. Um outro homem ainda não identificados também morreram no local.

Um baque. Foi assim o momento em que Fernanda Marques, 32, ficou quando soube pela internet da morte da irmã, Fabrine. "Eu fiquei sabendo pela internet. Postaram uma foto dela morta e aí eu reconheci ela. Foi um choque. Ela tinha saído para se divertir e aconteceu isso", contou Fernanda, que disse ainda que a irmã deixou quatro filhos, o mais novo de apenas 8 meses de idade.

Elaine já era frequentadora do Bar Rei do Peixe e, na noite deste sábado, estava com a mãe, Fátima Pessanha, 58, que pela primeira vez ia ao estabelecimento. "Era um local familiar, tanto que minha estava com ela. Minha irmã ia sempre lá", afirmou Paulo Angelo Ramos Junior, 34. Fátima foi ferida no ombro e no tórax e está internada no Hospital Geral de Nova Iguaçu. O estado dela é estável.

Pela rede social, a banda Nosso Grupo lamentou a morte do percussionista da banda. "Então gente os meninos do 'Nosso Grupo' estão bem, em parte, pois perdemos um grande Amigo e músico. Jorge estava trabalhando junto com a gente nesse momento. Estamos muito abalados e destruídos pelo acontecido. Lamentamos por toda essa covardia. Até quando essa violência irá atingir pessoas de bem?!", dizia um dos comunicados oficiais.

Antes do tiroteio, o grupo chegou a fazer uma transmissão ao vivo no Facebook. Em nota, a prefeitura de Belford Roxo lamentou o crime e se solidarizou com as famílias das vítimas. "Mesmo sendo a segurança competência do governo estadual, o município vem buscando diminuir a violência solicitando, entre outras coisas, o aumento do efetivo do Batalhão de Polícia Militar", disse.
Miliciano seria alvo
O ataque teria sido provocado por causa da guerra entre o tráfico de drogas e a milícia da região. Moradores do bairro afirmam que o alvo dos bandidos seria um miliciano conhecido como Balrog, apontado como membro do grupo paramilitar de Nova Aurora. A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) ainda não deu esclarecimentos sobre a motivação e suspeitos do crime. 
Testemunhas contam que homens encapuzados desceram de um carro e fizeram disparos em direção ao estabelecimento. Segundo estas mesmas testemunhas, os criminosos teriam fugido em direção ao Posto 13.
"Era um bar tranquilo. Está sempre lotado. Fiquei sabendo o que aconteceu pelas redes sociais. Nem acreditei no que aconteceu. Estamos chocados com tudo isso e com medo de onde esta violência toda vai chegar. Não podemos mais sair de casa. Não podemos mais nos divertir na rua", reclamou um morador que não quis se identificar. Os policiais civis procuram por imagens de câmeras na região que ajudem a identificar os envolvidos no ataque.  
Onda crescente de violência
Há pouco mais de um mês após outro ataque a um bar em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, deixou 4 mortos e 7 feridos. O crime ocorreu em 26 de maio, no bairro Porto Velho. O caso é investigado pela Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DHNSG).
Em março, duas pessoas morrem e uma ficou ferida, também em Belford Roxo. Segundo a polícia, homens passaram atirando de uma moto. 
Em dezembro, seis pessoas foram baleadas no bairro da Prata, no local conhecido como Igrejinha, na mesma cidade. Homens passaram de carro em alta velocidade atirando contra as pessoas, que estavam sentadas na calçada de um bar.
A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) investiga os casos.
*Estagiária sob supervisão dos repórteres
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