Rio coleciona episódios inusitados envolvendo roubos de bens públicos e privados

A combinação de ocorrências tragicômicas com desfechos nem sempre felizes fizeram o carioca perder a vergonha alheia - e própria

Por Felipe Rebouças*

Homem furta catraca do BRT e é preso
Homem furta catraca do BRT e é preso -

Rio - Jules Rimet. Vigas da Perimetral. Óculos da estátua do Drummond. Medalha da Olimpíada de Matemática. E ontem, uma catraca de metal do BRT. O Rio de Janeiro se acostumou a ver cenas inusitadas envolvendo roubos e furtos de bens públicos e privados nos últimos tempos. A combinação de ocorrências tragicômicas com desfechos nem sempre felizes fizeram o carioca perder a vergonha alheia – e própria. Nessa semana, um grupo de assaltantes foi flagrado tentando roubar uma caixa d'água utilizando um guidaste, em Triagem, Zona Norte do Rio, num condomínio do Minha Casa Minha Vida.

Quanto ao roubo da catraca, a concessionária informou, em nota, que equipes de monitoramento flagraram um morador de rua roubando a roleta e o acompanharam até a estação Capitão Menezes, na Praça Seca, na Zona Oeste, onde a polícia foi acionada. A catraca estava em uma reserva técnica.

"Não era assim", garante o historiador Milton Teixeira, de 60 anos. "Essa roubalheira é recente. Na verdade ela começa logo depois da fusão do Estado da Guanabara, em 1975. Nessa fase houve uma crise econômica muito grande em decorrência do fim do Milagre Econômico. O desemprego aumentou, empresas se mudaram de São Paulo e obras foram canceladas, como a Ponte Rio-Niterói, a Rodovia BR-101 e obras do metrô, por exemplo. A partir daí começaram os saques generalizados em detrimento do respeito da polícia. Não existia isso não, as coisas ficavam nos lugares, você voltava estava tudo lá", explica Teixeira.

Destino de muitos objetos adquiridos de forma ilícita, os ferros-velhos foram regulamentados pela Lei Federal 12.977/2014, a Lei do Desmonte, aprovada na Alerj em 2017. De acordo com o Detran, o programa que regula a atividade de desmontagem de veículos automotores terrestres e comercialização de peças 'está em fase de implementação'. "Na última semana, uma equipe do Detran.RJ esteve em Goiás, para conhecer e observar a rotina de trabalho de fiscalização da desmontagem", informou o órgão em nota. A fiscalização será feita pelo próprio Detran-RJ, além das polícias civil e militar e a Secretaria da Fazendo do Rio. A Polícia Civil, por sua vez, ratificou que não possui especializada para cuidar do tema, apenas as delegacias distritais.

A Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente (Seconserma) informou que, em casos de furto, roubo ou depredação de monumentos (1.374 monitorados), a responsabilidade pelo reparo cabe ao órgão. Mas no ocorrido de ontem, envolvendo a catraca do BRT, a arguição compete ao consórcio. De todo modo, o órgão municipal lembra que o telefone 1746 é o canal da Prefeitura para receber denúncias dessa espécie.

"Antigamente o carioca tinha mais medo de assombração do que de bandido. Naquele tempo (início da década de 1970), era legal ser um Kid Morengueira, uma Madame Satã, hoje é um salve-se quem puder. Mas o que esperar de um Estado em os últimos 21 anos de governo executivo estão na prisão. O acontece nas ruas é reflexo", conclui o historiador.

Prejuízo de R$ 6 milhões à Light 

A empresa privada de geração e distribuição do Rio, a Light, também é vítima de saques. Segundo a concessionária, no último levantamento feito internamente, 40 km de cabos e fios foram furtados ou roubados. "Entre 2017 e 2018, cerca de 40 km de cabos (21,1km em 2018 e 18,6km em 2017) foram furtados da Light. Este montante furtado representa um prejuízo na ordem de R$ 6 milhões. Em geral, os cabos são retirados para a extração do cobre, produto comumente vendido e muito procurado em ferros-velhos", afirma a empresa em nota.

*Estagiário sob supervisão de Luiz Almeida

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