Eusébio Gonçalves de Assis, pai do mototaxista Davi Marques de Assis, segura o colete do filho - Luciano Belford/Agência O Dia
Eusébio Gonçalves de Assis, pai do mototaxista Davi Marques de Assis, segura o colete do filhoLuciano Belford/Agência O Dia
Por Beatriz Perez e Gustavo Ribeiro
Rio - A Delegacia de Homicídios da Capital vai investigar as mortes de dois homens na tarde de quarta-feira no Condomínio Morar Carioca, em Triagem, Zona Norte do Rio, durante uma ação policial. De acordo com a DH Capital foi instaurado inquérito policial para apurar as circunstâncias das mortes de Davi Marques de Assis e Marcos Felipe Sodré Monteiro na Rua Projetada Seis.
A polícia disse que os dois eram criminosos, mas as famílias contestam esta versão: um era mototaxista e o outro estava desempregado, dizem. Uma criança de três anos também foi atingida por estilhaços na ação. No entanto, a informação não confirmada pela PM.
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O porteiro Adriano Santos, 28, estava de folga na quarta-feira e teve a filha de três anos ferida por estilhaços no rosto e na nádega no início da tarde. Depois do almoço, ele acatou o pedido da filha para ir na rua comprar bala. Os dois foram de moto e quando estavam estacionando, a polícia abriu fogo contra os homens. " Ouvimos muitos tiros. Ela se assustou, pulou da moto e caiu no chão. Corri para um bar com ela para tentar nos proteger", conta Adriano. 
Apesar dos sangramentos no rosto e na nádega, a criança foi liberada ontem do Hospital Salgado Filho. "Ela está abalada. É uma criança extrovertido. Agora está traumatizada. "Quando vi que ela estava sangrando puxei meu contracheque. Gritei que era trabalhador", lembra.
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Ação policial no Condomínio Morar Carioca, em Triagem, Zona Norte do Rio - Reprodução
As vítimas foram socorridas ao Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier. Os moradores acusam os agentes de truculência e dizem que não houve confronto com traficantes, mas que os agentes chegaram atirando ao local em que motociclistas costumam lavar seus veículos.
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"A polícia já chegou atirando. Não tinha ninguém lá envolvido (com o tráfico). Era todo mundo trabalhador", diz Fábio Gonçalves, 26, mototaxista e irmão de Davi, um dos mortos. 
Camiseta e colete de mototaxista que Davi Marques de Assis usava quando foi baleado. Na foto, o pai (camisa preta), Eusébio Gonçalves de Assis, e o irmão Fabio Gonçalves - Luciano Belford/Agência O Dia
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O mototaxista Davi Marques de Assis, 19 anos, foi socorrido pela própria família ao Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier. Ele chegou lúcido na unidade, mas morreu no início da noite, após passar por cirurgia. Segundo o pai, o pintor Eusébio Gonçalvez de Assis, 60, o filho foi morto após sair do ponto do mototaxi para comprar uma quentinha, quando policiais chegaram ao atirando e o acertaram na coluna.
A família diz que socorreu Davi, com receio de que acontecesse algum tipo de abuso no socorro. Eles relataram que os pertences da vítima, como documentos, celular, chave e dinheiro, desapareceram. O corpo do mototaxista será enterrado na tarde desta sexta-feira, no Cemitério do Caju, na Zona Norte. 
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Marcos Felipe Sodré Monteiro, 22, morava com a mãe no Morro da Mangueira, Zona Norte do Rio - Arquivo Pessoal
Davi Marques de Assis, 19 anos, era mototaxista - Arquivo Pessoal
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A segunda vítima fatal é Marcos Felipe Sodré Monteiro, 22. Morador da Mangueira, na Zona Norte do Rio, ele estava desempregado. O homem já chegou morto no Salgado Filho, em uma viatura da PM. Segundo a irmã, a operadora de loja Yndayara Sodré Monteiro, 24, o rapaz saiu de casa de manhã, onde mora com a mãe para ir ao Morar Carioca lavar a moto.
Irmã de vítima exibe troca de mensagens: 'Se meu irmão fosse traficante, não estaria pedindo ajuda de vinte reais' - Luciano Belford/Agência O Dia
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Yndayara refuta a informação da PM de que ele seria criminoso. Ela diz que Marcos Felipe foi atacado quando estava de costas, conforme lhe informaram testemunhas. Moradores denunciaram à jovem que policiais colocaram uma arma na mão de seu irmão e dispararam para o alto para simular que ele era criminoso.

Em troca de mensagem recentes exibidas por Yndayara, Marcos lhe pede 20 reais para ajudar a comprar carne para seu churrasco de aniversário, no último dia 22. "Se meu irmão fosse traficante, não estaria pedindo ajuda de vinte reais. Ele era um homem de bem. Tinha o sonho de arrumar um trabalho digno e tirar minha mãe do morro. Todo mundo que morre em comunidade a polícia chama de criminoso. Não vou aceitar que isso aconteça", diz. 
Irmão da vítima, Fábio Gonçalves segura colete de mototaxista que Davi Marques de Assis usava quando foi baleado - Luciano Belford/Agência O Dia
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Segundo a versão dos militares, dois suspeitos foram atingidos e socorridos ao Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier. "Policiais do 3º BPM (Méier) realizaram uma ação para reprimir o crime organizado no conjunto no início da tarde. Segundo a Polícia Militar, houve confronto com criminosos. Duas pistolas foram apreendidas na ação. A Delegacia de Homicídios da Capital foi acionada para registro dos fatos", diz.
Segundo uma moradora, ações do tipo têm sido norma no condomínio. "Estamos em casa, no meio de férias. Entram a qualquer horário de forma truculenta. A gente não é contra a operação da polícia, mas é preciso entender que aqui existem outros moradores, além dos bandidos, que ficam no fogo cruzado", diz.
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Procurada sobre as denúncias de abuso, a Polícia Militar apenas reforçou a versão de que houve confronto com criminosos e dois deles ficaram feridos. A Corregedoria da corporação recebe denúncias através do WhatsApp no número (21) 97598-4593; pelo telefone (21) 2725-9098 ou ainda pelo e-mail [email protected]
Homem foi torturado por traficantes na segunda-feira
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Um atirador esportivo foi sequestrado no mesmo condomínio durante a tarde de segunda-feira. Ele foi capturado ao entrar por engano no Morar Carioca, guiado por um serviço de GPS. Equipes do 3º BPM (Méier) foram acionadas para resgatá-lo. Chegando ao local, os agentes localizaram a vítima, que apresentava escoriações e foi socorrida ao Hospital Municipal Salgado Filho.
Guilherme Costa Rocha, de 47 anos, foi capturado após ter uma arma encontrada na mala do carro pelos criminosos. Segundo a Record TV, ele foi interrogado por cerca de trinta minutos por vinte homens. À TV, ele disse que levou sete pontos na testa, por causa de uma coronhada, e que temeu não escapar com vida do cerco. A ocorrência foi conduzida para a 25ª DP (Engenho Novo).
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O condomínio é o mesmo em que criminosos tentaram roubar uma caixa d'água, que abastecia todo o conjunto habitacional, no dia 3 de julho.
A Polícia Civil acrescenta que as diligências estão em andamento.