Falsas videntes aplicam golpes de mais de R$ 300 mil na Tijuca

Após investigação policial, bando vai responder por estelionato

Por Bruna Fantti

Dona Valentina
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Rio - A solução para o amor contrariado. A busca pela saúde de um neto. O revés do azar no trabalho. Desejos distintos que fizeram três pessoas procurarem os trabalhos místicos de um grupo de mulheres na Tijuca, Zona Norte do Rio. Em vez da sorte, encontraram golpistas que esvaziaram suas contas bancárias. Mas o destino cobra. Agora, as falsas videntes vão responder por estelionato e associação criminosa. Assim decidiu a Justiça nesta semana, após investigação da 19ªDP (Tijuca).

Atendendo em uma casa na Rua Pereira Nunes, Maria Cristina dos Nascimento, Inaiara Lúcia Farias Gonçalves e Merian Greco Petrovich chegaram a tirar somente de uma vítima, idosa de 71 anos que sofre da doença de Parkinson, R$300 mil. De uma senhora de 73 anos, levaram todas as suas joias, avaliadas em R$ 40 mil, além de R$11.900. Através de convencimento, elas falavam que precisavam das quantias para rezas e trabalhos espirituais. "As criminosas se aproveitavam da dor, sobretudo, de senhoras idosas para obter vultuosas importâncias, deixando suas vítimas arruinadas financeiramente, retirando todos as economias de uma vida inteira", afirmou a delegada Cristiana Bento, responsável pelo inquérito.

Não é difícil encontrar os folhetos das denunciadas pelas ruas da Zona Norte, nos quais está escrito o valor dos serviços. "Consulta na borra de café: 3 rosas brancas. Com revelações: 1 pacote de velas". Há o destaque da frase "está em caridade", para dar uma sensação de benfeitoria ao serviço.
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Foi um desses panfletos que I.V.,71, encontrou na Praça Saenz Peña, em outubro do ano passado. Com problemas de saúde e querendo "paz no trabalho do marido", ela procurou pelo jogo de búzios e tarô cigano. Após dar R$ 200 para a consulta, a idosa foi convencida a ir até um banco por duas vezes, em dias diferentes, transferindo o total de R$ 297 mil. Procurada pela reportagem, a vítima disse que "parecia estar em transe e não se lembrava de mais nada".

Rafael Rabelo, 30 anos, passava por problemas amorosos e financeiros. Desempregado, queria uma oração para "abrir seus caminhos" e perdeu R$2.700. "É difícil entender que está em um golpe. Depois, na delegacia, vi que várias pessoas já tinham procurado a polícia", afirmou. Agora, todas as vítimas tentam na Justiça reaver os valores perdidos.

Evitar golpes

Lhuba Batuli, da Fundação Santa Sara kali, afirma que para uma pessoa que não é cigana é difícil reconhecer quem é estelionatário. "O curso de baralho cigano está disponível em sites e há livros sobre o assunto. Golpistas existem em todos os lugares", disse.

Procuradas pelo telefone do panfleto, as acusadas não foram encontradas.

Consulta: rosas e R$100

Antes da denúncia, a reportagem de O DIA foi até o local para saber como era o atendimento. Em um primeiro momento, Mãe Maria (Maria Cristina) disse que iria cobrar uma rosa branca pela consulta. Conforme foi abrindo o baralho pediu R$100.

Sem saber que se tratava de uma jornalista, de olhos fechados e com incensos acesos, indagou a respeito da data de nascimento. Ao escutar "6/11" foi categórica sobre o signo: "Você é de Sagitário". Ouviu: "Não, de Escorpião". Pediu desculpas e disse que precisava de uma meditação.

Respirou fundo, espalhou as cartas e fez uma careta ao ver o jogo. Disse "algo está errado" e pediu para jogar novamente o baralho. Ao ver o novo jogo, suspirou: "Tudo está muito ruim na sua vida". Sugeriu outras consultas, com suas companheiras. "Aqui somos como médicos, cada um tem um tratamento. Sou das cartas", disse.

Propôs, então, um banho "para abrir os caminhos", no valor de R$ 400, que poderia ser feito na terça-feira, segundo ela, dia de Iansã, apesar de o dia da Orixá ser na quinta. A repórter não retornou.

Confira alguns casos de golpe

Perdeu toda a poupança

I.V; 71, perdeu R$297mil para as golpistas. Em setembro de 2018, ela pagou R$200pela consulta e relata que foi convencida por Inaiara Lúcia a ir até ao banco "pegar um dinheiro para fazer um trabalho". Ao chegar à agência, a golpista viu seu saldo: R$ 70 mil. Quis tudo e a gerente autorizou a transferência.

Dois dias depois, recebeu um telefone de Mãe Valentina dizendo que queria devolver a quantia, pois se sentia culpada. Em vez disso, o bando a forçou a comprar doces e a transferir R$ 295 mil, toda a sua poupança.

Sem joias em troca da saúde do neto

S.A. 76 anos, procurou os trabalhos místicos para fazer o neto de três a falar. Era março de 2017 quando a idosa entrou sozinha na casa das golpistas à procura de uma ajuda espiritual.As adivinhas a convenceram que, através de rezas, ele iria ser totalmente curado do transtorno que sofria.

Após dar R$ 11.900 para trabalhos, foi convencida a entregar todas as suas joias, avaliadas em R$ 40 mil. "Eram joias que tinha desde jovem", disse.

Desempregado perdeu R$2.700

Querendo reatar um relacionamento e desempregado, Rafael Rabelo, 30, procurou as mulheres que supostamente ofereciam trabalhos mediúnicos.

Em seu depoimento, diz que Inaiara Lúcia sugeriu que ele pedisse o dinheiro para a compra de um carro para avó e simulasse um roubo. Após se recusar, Inaiara pediu R$ 7 mil para os trabalhos, mas acertou o valor final em R$ 2.700. Após perceber que a pessoa que ele queria reatar não fazia contato, percebeu que era um golpe e acionou a Justiça.

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